VERNICA DECIDE MORRER
PAULO COELHO
DISQUETE 57 ARQUIVO VERONICA.TXT 420000 BITES

DECIDE
MORRER
OBJETIVA
(c)1998 by Paulo Coelho
Direitos em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos ao autor por EDITORA OBJTVA LTDA.,
rua Cosme Velho, 103
Rio de Janeiro - RJ - CEP: 22241-090 Tel.: (021) 556-7824-Fax: (021) 556-3322 INTERNET: http://www.objetiva.com
Concepo da Capa Christina Oiticica
Design da Capa Helena de Barros
Ilustrao da Capa
La cura della follia - Hieronymus Bosch (c)Museu do Prado - Madri - Direitos Reservados. Proibida a Reproduo Total ou Parcial
(c)Foto da 4 Capa Keystone - Rio
Reviso Tereza de Ftima da Rocha
Izabel Cristina Aleixo
Editorao Eletrnica Abreu's System Ltda.
Paulo Coelho: http://www.paulocoelho.com.br
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
CGl9v
Coelho, Paulo, 1947
Veronika decide morrer / Paulo Coelho. - Rio de Janeiro : Objetiva, 1998 24op.
ISBN 85-7302-201-9
1. Romance brasileiro. I. Ttulo.
98-0894. CDD 8G9.93 CDU 8G9.0(81)-3
"Eis que vos dei
o poder de pisar serpentes... e nada poder vos causar dano."
Lucas, 10:19
Para S. T. de L.,
que comeou a me ajudar sem que eu soubesse.
o dia 1 1 de novembro de 1997, Veronika decidiu  que havia - afinal! - chegado o momento de se matar. Limpou cuidadosamente seu quarto alugado num convento de freiras,
desligou a calefao, escovou os dentes e deitou-se.
Na mesa-de-cabeceira, pegou as quatro caixas de comprimidos para dormir. Ao invs de amass-los e misturar com gua, resolveu tom-los um a um, j que existe uma
grande distncia entre a inteno e o ato, e ela queria estar livre para arrepender-se no meio do caminho. Entretanto, a cada comprimido que engolia, sentia-se mais
convencida: no final de cinco minutos,
as caixas estavam vazias.
Como no sabia exatamente quanto tempo ia demorar para perder a conscincia, deixara em cima da cama uma revista francesa Homme, edio daquele ms, recm-chegada
na biblioteca onde trabalhava. Embora no tivesse nenhum interesse especial por informtica, ao folhear a revista descobrira um artigo sobre um jogo de computador
(CD-Rom, como chamavam) criado por Paulo Coelho, um escritor brasileiro que tivera oportunidade de conhecer numa conferncia no caf do hotel Grand Union. Os dois
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haviam trocado algumas palavras, e ela terminara sendo convidada por seu editor para jantar. Mas o grupo era grande, e no houve possibilidade de aprofundar nenhum
assunto.
O fato de haver conhecido o autor, porm, levava-a a pensar que ele era parte do seu mundo, e ler uma matria sobre seu trabalho podia ajudar a passar o tempo. Enquanto
esperava a morte, Veronika comeou a ler sobre informtica, um assunto pelo qual no tinha o mnimo interesse - e isto combinava com tudo o que fizera a vida inteira,
sempre procurando 0 que estava mais fcil, ou ao alcance da mo. Como aquela revista, por exemplo.
Para sua surpresa, porm, a primeira linha do texto tirou-a de sua passividade natural (os calmantes ainda no tinham dissolvido em seu estmago, mas Veronika j
era passiva por natureza), e fez com que pela primeira vez em sua vida, considerasse como verdadeira uma frase que estava muito em moda entre seus amigos: "nada
neste mundo acontece por acaso".
Por que aquela primeira linha, justamente num momento em que havia comeado a morrer? Qual a mensagem oculta que tinha diante dos seus olhos, se  que existem mensagens
ocultas ao invs de coincidncias?
Embaixo de uma ilustrao do tal jogo de computador, o jornalista comeava sua matria perguntando:
"Onde  a Eslovnia?"
"Ningum sabe onde  a Eslovnia", ensou. "Nem isso." p
Mas a Eslovnia mesmo assim existia, e estava l fora, l dentro, nas montanhas a sua volta e na praa diante dos seus olhos: a Eslovnia era seu pas.
Deixou a revista de lado, no lhe interessava agora ficar indignada com um mundo que ignorava por completo a existncia dos eslovenos; a honra de sua nao no Ihe
dizia mais respeito. Era hora de ter orgttlho de si mesma, saber que fora capaz, finalmente tivera coragem, estava deixando esta vida: que alegria! E estava fazendo
isso da maneira com que sempre sonhara - atravs de comprimidos, que no deixam marcas.
Veronika procurara pelos comprimidos por quase seis meses. Achando que nunca iria consegui-los, chegara a considerar a possibilidade de cortar os pulsos. Mesmo sabendo
que ia terminar enchendo o quarto de sangue, deixando as freiras confusas e preocupadas, um suicdio exige que as pessoas pensem primeiro em si mesmas, e depois
nos outros. Estava disposta a fazer todo o possvel para que sua morte no causasse muito transtorno, mas se cortar os pulsos fosse a nica possibilidade, ento
no havia jeito - e as freiras que limpassem o quarto, e esquecessem logo a histria
, seno teriam dificuldades de alug-lo de novo. Afinal de contas, mesmo no final do sculo XX, as pessoas ainda acreditavam em fantasmas.
 claro que ela tambm podia atirar-se de um dos poucos prdios altos de Lubljana, mas e o sofrimento extra que tal atitude terminaria causando aos seus pais? Alm
do choque de descobrir que a filha morrera
, ainda seriam obrigados a identificar um corpo desfigurado: no, esta era uma soluo pior do que sangrar at morrer, pois deixaria marcas indelveis em duas pessoas
que s queriam o seu bem.
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"Com a morte da filha eles terminaro se acostumando. Mas um crnio esmagado deve ser impossivel de esquecer."
Tiros, quedas de prdio, enforcamento, nada disso combinava com sua natureza feminina. As muIheres, quando se matam, escolhem meios muito mais romnticos - como
cortar os pulsos, ou tomar uma dose excessiva de comprimidos para dormir. As princesas abandonadas e as atrizes de Hollywood deram dversos exemplos a este respeito.
Veronika sabia que a vida era uma questo de esperar sempre a hora certa para agir. E assim foi: dois amigos seus, sensibilizados com suas queixas de que no conseguia
mais dormir, arranjaram - cada um --- duas caixas de uma droga poderosa, que era utilizada por msicos de uma boate local. Veronika deixou as quatro caixas na sua
mesa-de-cabeceira durante uma semana, namorando a morte que se aproximava, e despedindo-se - sem qualquer sentimentalismo daquilo que chamavam Vida.
Agora estava ali, contente de ter ido at o final, e entediada porque no sabia o que fazer com o pouco tempo que lhe restava.
Voltou a pensar no absurdo que acabara de ler: como  que um artigo sobre computador pade comear com esta frase to idiota: "Onde  a Eslovnia?"
Como no achou nada mais interessante para preocupar-se, resolveu ler a matria at o fim, e descobriu: o tal jogo tinha sido produzido na Eslovnia este estranho
pas que ningum parecia saber onde era exceto quem morava ali - por causa da mo-de-obra
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mais barata. H alguns meses atrs, ao lanar o produto, a produtora francesa dera uma festa para jornalistas de todo o mundo, num castelo em Vled.
Veronika lembrou-se de ter escutado algo a respeito da festa, que fora um acontecimento especial na cidade: no apenas pelo fato do castelo ter sido redecorado para
aproximar-se ao mximo do ambiente medieval do tal CD-Rom, como tambm pela polmica que se seguira na imprensa local: havia jornalistas alemes, franceses, ingleses,
italianos, espanhis mas nenhum esloveno tinha sido convidado.
O articulista de Homme- que viera  Eslovnia pela primeira vez, certamente com tudo pago, e decidido a passar o seu tempo cortejando outros jornalistas, dizendo
coisas supostamente interessantes, comendo e bebendo de graa no castelo - resolvera comear a matria fazendo uma piada que devia agradar muito aos sofisticados
intelectuais do seu pas. Deve inclusive, ter contado aos seus amigos de redao algumas histrias inverdicas sobre os costumes locais, ou sobre a maneira rudimentar
como as mulheres eslovenas se vestem.
Problema dele. Veronika estava morrendo, e suas preocupaes deviam ser outras, como saber se existe vida aps a morte, ou a que horas o seu corpo seria encontrado.
Mesmo assim-ou talvezjustamente por causa disso, da importante deciso que tomara aquele artigo a estava incomodando.
Olhou pela janela do convento que dava para a pequena praa de Lubljana. "Se no sabem onde  a Eslovnia, Lubljana deve ser um mito", pensou. Como
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a Atlntida, ou a Lemuria, ou os continentes perdidos que povoam a imaginao dos homens. Ningum comearia um artigo, em nenhum lugar do mundo perguntando onde
era o monte Everest, mesmo que nunca tivesse estado l. No entanto, em plena Europa, um jornalista de uma revista importante no se envergonhava em fazer uma pergunta
daquelas, porque sabia que a maior parte dos seus leitores desconhecia onde era a Eslovnia. E mais ainda Lubljana, sua capital.
Foi ento que Veronika descobriu uma maneira de passar o tempo - j que dez minutos haviam transcorrido, e ainda no notara qualquer diferena em seu organismo.
O ltimo ato de sua vida ia ser uma carta para aquela revista, explicando que a Eslovnia era uma das cinco repblicas resultantes da diviso da antiga Iugoslvia.
Deixaria a carta como seu bilhete de suicdio. De resto, no daria nenhuma explicao sobre os verdadeiros motivos de sua morte.
Quando encontrassem seu corpo, concluiriam que se matou porque uma revista no sabia onde era o seu pas. Riu com a idia de ver uma polmica nos jornais, com gente
a favor e contra seu suicdio em honra da causa nacional. E ficou impressionada com a rapidez com que mudara de idia, j que momentos antes pensara exatamente o
oposto - o mundo e os problemas geogrficos j no Ihe diziam respeito.
Escreveu a carta. O momento de bom humor fez com que quase tivesse outros pensamentos a respeito
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da necessidade de morrer, mas j havia tomado os comprimidos, era tarde demais para voltar.
De qualquer maneira, j tivera momentos de bom humor como esse, e no estava se matando porque era uma mulher triste, amarga, vivendo em constante depresso. Passara
muitas tardes de sua vida caminhando, alegre, pelas ruas de Lubljana, ou olhando da janela do seu quarto no convento - a neve que caa na pequena praa com a esttua
do poeta. Certa vez ficara quase um ms flutuando nas nuvens, porque um homem desconhecido, no centro daquela mesma praa, lhe dera uma flor.
Acreditava ser uma pessoa absolutamente normal. Sua deciso de morrer devia-se a duas razes muito simples, e tinha certeza de que, se deixasse um bilhete explicando,
muita gente ia concordar com ela.
A primeira razo: tudo em sua vida era igual, e uma vez passada a juventude - era decadncia, a veIhice comeando a deixar marcas irreversveis, as doenas chegando,
os amigos partindo. Enfim, continuar vivendo no acrescentava nada; ao contrrio, as possibilidades de sofrimento aumentavam muito.
A segunda razo era mais filosfica: Veronika lia jornais, assistia TV, e estava a par do que se passava no mundo. Tudo estava errado, e ela no tinha como consertar
aquela situao - o que lhe dava uma sensao de inutilidade total.
Daqui a pouco, porm, teria a ltima experincia de sua vida, e esta prometia ser muito diferente: a morte. Escreveu a tal carta para a revista, deixou o assunto
de lado, concentrou-se em coisas mais impor
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tantes e mais prprias para o que estava vivendo - ou morrendo - naquele minuto.
Procurou imaginar como seria morrer, mas no conseguiu chegar a nenhum resultado.
De qualquer maneira, no precisava se importar com isso, pois saberia daqui a poucos minutos.
Quantos minutos?
No tinha idia. Mas deliciava-se com o fato de que ia conhecer a resposta para o que todos se perguntavam: Deus existe?
Ao contrrio de muita gente, esta no fora a grande discusso interior de sua vida. No antigo regime comunista, a educao oficial dizia que a vida acabava com a
morte, e ela terminou se acostumando com a idia. Por outro lado, a gerao dos seus pais e de seus avs ainda freqentava a igreja, fazia oraes e peregrinaes,
e tinha a mais absoluta convico que Deus prestava ateno no que diziam.
Aos 24 anos, depois de ter vivido tudo que lhe fora permitido viver - e olha que no foi pouca coisa! - Veronika tinha quase certeza de que tudo acabava com a morte.
Por isso escolhera o suicdio: liberdade
, enfim. Esquecimento para sempre.
No fundo do seu corao, porm, restava a dvida: e se Deus existe? Milhares de anos de civilizao faziam do suicdio um tabu, uma afronta a todos os cdigos religiosos:
o homem luta para sobreviver, e no para entregar-se. A raa humana deve procriar. A sociedade precisa de mo-de-obra. Um casal necssita uma razo para continuar
junto, mesmo depois que o amor deixou de existir, e um pas precisa de soldados
, polticos e artistas.
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Se Deus existe, o que eu sinceramente no acredito, entender que h um limite para a compreenso humana. Foi Ele quem criou esta confuso, onde h misria, injustia,
ganncia, solido. Sua inteno deve ter sido tima, mas os resultados so nulos; se Deus existe, Ele ser generoso com as criaturas que desejaram ir embora mais
cedo desta Terra, e pode at mesmo pedir desculpas por nos ter obrigado a passar por aqui."
Que se danassem os tabus e supersties. Sua religiosa me dizia: Deus sabe o passado, o presente e o futuro. Neste caso, j lhe havia colocado neste mundo com plena
conscincia de que ela terminaria por se matar, e no iria ficar chocado com seu gesto.
Veronika comeou a sentir um leve enjo, que foi crescendo rapidamente.
Em poucos minutos, j no podia mais concentrar-se na praa do lado de fora de sua janela. Sabia que era inverno, devia ser em torno de quatro horas da tarde, e
o sol estava se pondo rpido. Sabia que outras pessoas continuariam vivendo; neste momento um rapaz passava diante de sua janela, e a viu, sem entretanto ter a menor
idia de que ela estava prestes a morrer. Um grupo de msicos bolivianos (onde  a Bolvia? Por que os artigos de revistas no perguntam isso?) tocava diante da
esttua de France Presren, o grande poeta esloveno, que marcara profundamente a alma do seu povo.
Ser que conseguiria escutar at o fim a msica que vinha da praa? Seria uma bela recordao desta vida: o entardecer, a melodia que contava os sonhos do outro
lado do mundo, o quarto aquecido e acon
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chegante, o rapaz bonito e cheio de vida que passava, resolvera parar, e agora a encarava. Como percebia que o remdio j estava fazendo efeito, era a ltima pessoa
que a estava vendo.
Ele sorriu. Ela retribuiu o sorriso - no tinha nada a perder. Ele acenou; ela resolveu fingir que estava olhando outra coisa, afinal o rapaz estava querendo ir
longe demais. Desconcertado, ele continuou seu caminho, esquecendo para sempre aquele rosto na janela.
Mas Veronika ficou contente de, mais uma vez, ter sido desejada. No era por ausncia de amor que estava se matando. No era por falta de carinho de sua famlia,
nem problemas financeiros, ou por uma doena incurvel.
Veronika decidira morrer naquela tarde bonita de Lubljana, com msicos bolivianos tocando na praa ,
com um jovem passando diante da sua janela, e estava contente com o que os seus olhos viam e seus ouvidos escutavam. Mais contente ainda estava, por no ter que
ficar vendo aquelas mesmas coisas por mais trinta, quarenta, ou cinqenta anos - pois iam perder toda a sua originalidade, e se transformar na tragdia de uma vida
onde tudo se repete, e o dia anterior  sempre igual ao seguinte.
O estmago, agora, comeava a dar voltas, e ela sentia-se muito mal. "Engraado, pensei que uma dose excessiva de calmantes me faria dormir imediatamente." Mas o
que estava acontecendo era um estranho zumbido nos ouvidos, e a sensao de vmito.
" Se vomitar, no morro.
IG
Decidiu esquecer as clicas, procurando concentrar-se na noite que caa com rapidez, nos bolivianos, nas pessoas que comeavam a fechar suas lojas e sair. O barulho
no ouvido tornava-se cada vez mais agudo, e - pela primeira vez desde que tomara os comprimidos, Veronika sentiu medo, um medo terrvel do desconhecido.
Mas foi rpido. Logo perdeu a conscincia.
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uando abriu os olhos, Veronika no pensou: "isso deve ser o cu". O cu jamais utilizaria uma
lm ada luorescente para iluminar o ambiente, e a dor - que apareceu uma frao de segundo depois era tpica da Terra. Ah, esta dor da Terra - ela  nica, no
pode ser confundida com nada.
Quis mexer-se, e a dor aumentou. Uma srie de pontos luminosos apareceram, e mesmo assim Veronika continuou entendendo que aqueles pontos no eram estrelas do Paraso,
mas conseqncias do seu intenso sofrimento.
- Recuperou a conscincia - escutou uma voz de mulher. - Agora voc est com os dois ps no inferno, aproveite.
No, no podia ser, aquela voz a estava enganando. No era o inferno - porque sentia muito frio, e notara que tubos plsticos saam da sua boca e do nariz. Um destes
tubos - o que estava enfiado por sua garganta abaixo - lhe dava a sensao de sufocamento.
Quis mexer-se para retir-lo, mas os braos estavam amarrados.
- Estou brincando, no  o inferno - continuou a voz. -  pior que o inferno onde, alis, eu nunca estive.  Villete.
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Apesar da dor e da sensao de sufocamento, Veronika - numa frao de segundo - entendeu o que havia acontecido. Tentara o suicdio, e algum chegara a tempo para
salv-la. Podia ter sido uma freira, uma amiga que resolvera aparecer sem avisar, algum que se lembrara de entregar algo que ela j esquecera haver pedido. O fato
 que tinha sobrevivido, e estava em Villete.
Villete, o famoso e temido asilo de loucos, que existia desde 1991, ano da independncia do pas. Naquela poca, acreditando que a diviso da antiga Iugoslvia se
daria atravs de meios pacficos (afinal, a Eslovnia enfrentara apenas onze dias de guerra), um grupo de empresrios europeus conseguiu licena para instalar um
hospital de doenas mentais num antigo quartel, abandonado por causa dos altos custos de manuteno.
Aos poucos, porm, as guerras comearam: primeiro a Crocia, depois a Bsnia. Os empresrios ficaram preocupados: o dinheiro para o investimento viera de capitalistas
espalhados por diversas' partes do mundo, cujos nomes nem sabiam - de modo que era impossvel sentar-se diante deles, dar algumas desculpas, pedir que tivessem pacincia.
Resolveram o problema adotando prticas nada recomendveis para um asilo psiquitrico, e Villete passou a simbolizar - para a jovem nao que acabara de sair de
um comunismo tolerante - o que havia de pior no capitalismo: bastava pagar para se conseguir uma vaga.
Muitas pessoas, quando queriam livrar-se de algum membro da famlia por causa de discusses sobre
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herana (ou comportamento inconverente), gastavam uma fortuna - e conseguiam um atestado mdico que permitia a internao dos filhos ou pais criadores de problemas.
Outros, para fugir de dvidas, ou justificar certas atitudes que podiam resultar em longos termos de priso, passavam algum tempo no asilo e saam livres de qualquer
cobrana ou processo judicial.
Villete, o lugar de onde ningum jamais havia fugido. Que misturava os verdadeiros loucos - enviados ali pela justia, ou por outros hospitais - com aqueles que
eram acusados de loucura, ou fingiam insanidade. O resultado era uma verdadeira confuso, e a imprensa a toda hora publicava histrias de maustratos e abusos, embora
jamais tivesse permisso de entrar e ver o que estava acontecendo. O governo investigava as denncias, no conseguia provas, os acionistas ameaavam espalhar que
era difcil fazer investimentos externos ali, e a instituio conseguia manter-se de p, cada vez mais forte.
- Minha tia suicidou-se h alguns meses continuou a voz feminina. - Ela passou quase oito anos sem vontade de sair do quarto, comendo, engordando, fumando, tomando
calmantes, e dormndo a maior parte do tempo. Tinha duas filhas e um marido que a amava.
Veronika tentou mover sua cabea na direo da voz, mas era impossvel.
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- S a vi reagir uma nica vez: quando o marido arranjou uma amante. Ento ela fez escndalos, perdeu alguns quilos, quebrou copos e - por semanas inteiras - no
deixava a vizinhana dormir com seus gritos. Por mais absurdo que parea, acho que foi sua poca mais feliz: estava lutando por alguma coisa, sentia-se viva e capaz
de reagir ao desafio que se colocava diante dela.
"O que eu tenho a ver com isso?", pensava Veronika, incapaz de dizer algo. "Eu no sou sua tia, no tenho marido!"
- O marido terminou largando a amante continuou a mulher. - Minha tia, pouco a pouco, voltou a sua passividade habitual. Um dia, me telefonou dizendo que estava
disposta a mudar de vida: parara de fumar. Na mesma semana, depois de aumentar o nmero de calmantes por causa da ausncia do cigarro, avisou a todos que estava
disposta a se matar.
"Ningum acreditou. Certa manh, ela me deixou um recado na secretria eletrnica, despedindo-se ,
e matou-se com gs. Eu ouvi esta mensagem vrias vezes: nunca escutara sua voz to tranqila, conformada com o prprio destino. Dizia que no era nem feliz nem infeliz,
e por isso no agentava mais."
Veronika sentiu compaixo pela mulher que contava a histria, e que parecia tentar compreender a morte da tia. Como julgar - num mundo onde se tenta sobreviver a
qualquer custo - aquelas pessoas que decidem morrer?
Ningum pode julgar. Cada um sabe a dimenso do prprio sofrimento, ou da ausncia total de sentido de sua vida. Veronika queria explicar isso, mas o tubo em sua
boca fez com que engasgasse, e a mulher veio aj ud-la.
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        Viu-a debruando-se sobre o seu corpo amarrado,
        entubado, protegido contra a sua vontade e o seu
        livre-arbtrio de destru-lo. Mexeu de um lado para o
        outro com a cabea, implorando com seus olhos para que
        tirassem aquele tubo, e a deixassem morrer em paz.
        - Voc est nervosa - disse a mulher. - No
        sei se est arrependida, ou se ainda quer morrer, mas
        isso no me interessa. O que me interessa  cumprir
        com minha funo: no caso do paciente mostrar-se
        agitado, o regulamento exige que eu lhe aplique um
        sedativo.
        Veronika parou de debater-se, mas a enfermeira
        j lhe aplicava uma injeo no brao. Em pouco tempo
        estava de volta a um mundo estranho, sem sonhos,
        onde a nica coisa que se lembrava era o rosto da
        mulher que acabara de ver: olhos verdes, cabelo casta-
        nho, e um ar totalmente distante - de quem faz as
        coisas porque tem que fazer, sem jamais perguntar por
        que o regulamento manda isso ou aquilo.
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aulo Coelho soube da histria de Veronika trs meses depois, quando jantava num restaurante argelino em Paris com uma amiga eslovena, que tambm se chamava Veronika,
e era filha do mdico responsvel por Villete.
Mais tarde, quando decidiu escrever um livro sobre o assunto, pensou em mudar o nome da Veronika, sua amiga - para no confundir o leitor. Pensou em cham-la de
Blaska, ou Edwina, ou Marietzja, ou qualquer outro nome esloveno, e terminou resolvendo que manteria os nomes reais. Quando se referisse  Veronika sua amiga, chamaria
de Veronika, a amiga. Quanto  outra Veronika, no precisava adjetiv-la de nenhuma maneira, porque ela seria o personagem central do livro, e as pessoas ficariam
aborrecidas de terem que ler sempre "Veronika, a louca", ou "Veronika, a que tentara cometer suicdio". De qualquer maneira, tanto ele como Veronika, a amiga, iam
entrar na histria em apenas um pequeno trecho - este aqui.
Veronika, a amiga, estava horrorizada com o que o seu pai tinha feito, principalmente levando-se em considerao que ele era o diretor de uma instituio que queria
sr respeitada, e trabalhava em uma rese que precisava passar pelo exame de uma comunidade acadmica convencional.
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- Voc sabe de onde vem a palavra "asilo"? perguntava ela. - Vem da Idade Mdia, do direito que as pessoas tinham de buscar refgio em igrejas, lugares sagrados.
Direito de asilo, uma coisa que qualquer pessoa civilizada entende! Ento, como  que meu pai, diretor de um asilo, pode agir desta maneira com algum?
Paulo Coelho quis saber em detalhes tudo o que havia acontecido, porque tinha um excelente motivo para interessar-se pela histria de Veronika.
E o motivo era o seguinte: ele fora internado num asilo - ou hospcio, como era mais conhecido este tipo de hospital. E isto acontecera no apenas uma vez, mas trs
vezes - nos anos de 1965, 1966 e 1967. O lugar de sua internao fora a Casa de Sade Dr. Eiras, no Rio de Janeiro.
A razo do seu internamento era, at hoje, estranha para ele mesmo; talvez os seus pais estivessem desnorteados com seu comportamento diferente, entre o tmido e
o extrovertido, ou talvez fosse o seu desejo de ser "artista", algo que todos na famlia consideravam como a melhor
; maneira de viver na marginalidade, e morrer na misria. Quando pensava no fato - e, diga-se de passagem, raramente pensava nisso - ele atribua a verdadeira loucura
ao mdico que aceitou coloc-lo num hospcio, sem qualquer motivo concreto (como acontece em qualquer famlia, a tendncia  sempre colocar a culpa nos outros, e
afirmar de ps juntos que os pais no sabiam o que estavam fazendo, quando tomaram uma deciso to drstica).
Paulo riu ao saber da estranha carta aos jornais que Veronika deixara, reclamando que uma importan
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te revista francesa nem sequer sabia onde era a Eslovema.
Ningum se mata por isso.
- Por esta razo, a carta no deu nenhum resultado - disse, constrangida, Veronika, a amiga. Ontem mesmo, ao me registrar no hotel, acharam que Eslovnia era uma
cidade da Alemanha.
Era uma histria muito familiar, pensou ele, j que muitos estrangeiros consideram a cidade argentina de Buenos Aires como capital do Brasil.
Mas, alm do fato de viver num pas que os estrangeiros, alegremente, vinham cumpriment-lo pela beleza da capital (que ficava no pas vizinho), Paulo Coelho tinha
em comum com Veronika o fato que j foi descrito aqui, mas que  sempre bom relembrar: tambm fora internado num sanatrio de doentes mentais, "de onde nunca devia
ter sado", como comentara certa vez sua primeira mulher.
Mas saiu. E quando deixou a Casa de Sade Dr. Eiras pela ltima vez, decidido a nunca mais voltar l, ele fizera duas promessas: a) jurou que iria escrever sobre
o tema; b) jurou esperar que seus pais morressem antes de tocar publicamente no assunto - porque ele no queria feri-los, j que os dois tinham passado muitos anos
de suas vidas culpando-se pelo que fizeram.
Sua me morrera em 1993. Mas seu pai, que em 1997 completara 84 anos, apesar de ter enfisema pulmonar sem nunca haver fumado, apesar de alimentar-se de comida congelada
porque no conseguia ter uma empregada que aturasse suas manias, continuava vivo, em pleno gozo de suas faculdades mentais e de sua sade.
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De modo que, ao ouvir a histria de Veronika, ele descobriu uma maneira de falar sobre o tema, sem descumprir sua promessa. Embora nunca tivesse pensado em suicdio,
conhecia intimamente o universo de um asilo - os tratamentos, as relaes entre mdicos e pacientes, o conforto e a angstia de estar num lugar como aquele.
Ento deixemos Paulo Coelho e Veronika - a amiga - sarem definitivamente deste livro, e continuemos a histria.
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eronika no sabe quanto tempo ficou dormindo.  Lembrava-se de ter acordado em al um momento
g - ainda com os aparelhos de sobrevivncia em sua boca e em seu nariz - ouvindo uma voz que dizia:
"Voc quer que eu a masturbe?"
Mas agora, com os olhos bem abertos e olhando o quarto ao seu redor, no sabia se aquilo tinha sido real, ou uma alucinao. Alm desta lembrana, no conseguia
recordar nada, absolutamente nada.
Os tubos tinham sido retirados. Mas continuava com agulhas enfiadas por todo o corpo, fios conectados na rea do corao e da cabea, e os braos amarrados. Estava
nua, coberta apenas por um lenol, e sentia frio - mas resolveu no reclamar. O pequeno ambiente, circundado por cortinas verdes, estava ocupado pelas mquinas da
Unidade de Tratamento Intensivo, a cama onde estava deitada e uma cadeira branca - com uma enfermeira sentada entretida na leitura de um livro.
A mulher, desta vez, tinha olhos escuros e cabelos castanhos. Mesmo assim, Veronika ficou em dvida se era a mesma pessoa com quem conversara horas dias? - antes.
- Pode desamarrar meus braos?
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A enfermeira levantou os olhos, respondu com um seco "no", e voltou ao livro.
Estou viva, pensou Veronika. Vai comear tudo de novo. Devo passar algum tempo aqui dentro, at constatarem que sou perfeitamente normal. Depois me daro alta, e
eu verei de novo as ruas de Lubljana, sua praa redonda, as pontes, as pessoas que passam pelas ruas indo e voltando do trabalho.
Como as pessoas sempre tendem a ajudar as outras - s para se sentirem melhores do que realmente so - eles me daro o emprego de volta na biblioteca. Com o tempo,
voltarei a freqentar os mesmos bares e boates, conversarei com os meus amigos sobre as injustias e problemas do mundo, irei ao cinema, passearei no lago.
Como escolhi os comprimidos, no estou deformada: continuo jovem, bonita, inteligente, e no terei - como nunca tive - dificuldades em arranjar namorados. Farei
amor com eles em suas casas, ou no bosque, terei um certo prazer, mas logo depois do orgasmo a sensao do vazio voltar. J no teremos muito o que conversar, e
tanto ele como eu sabemos disso: chega a hora de dar uma desculpa um para o outro - "est tarde", ou "amanh tenho que acordar cedo" - e partiremos o mais rpido
possvel, evitando nos olharmos nos olhos.
Eu volto para o meu quarto alugado no convento. Tento ler um livro, ligo a TV para ver os mesmos programas de sempre, coloco o despertador para acordar exatamente
na mesma hora que acordei no dia anterior, repito mecanicamente as tarefas que me so confiadas na biblioteca. Como o sanduche no jardim em frente ao teatro, sentada
no mesmo banco, junto
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com outras pessoas que tambm escolhem os mesmos bancos para lanchar, que tm o mesmo olhar vazio
, mas fingem estar preocupadas com coisas importantssimas.
Depois volto ao trabalho, escuto alguns comentrios sobre quem est saindo com quem, quem est sofrendo o que, como tal pessoa chorou por causa do marido - e fico
com a sensao que sou privilegiada, sou bonita, tenho um emprego, arranjo o namorado que quiser. A volto aos bares no final do dia, e a coisa toda recomea.
Minha me - que dever estar preocupadssima com minha tentativa de suicdio - vai se recuperar do susto e continuar me perguntando o que vou fazer de minha vida,
por que no sou igual s outras pessoas
, j que, afinal de contas, as coisas no so to complicadas como eu penso que so. "Olhe para mim, por exemplo, que estou h anos casada com seu pai, e procurei
Ihe dar a melhor educao e os melhores exemplos possveis."
Um dia eu me canso de ouvi-la sempre repetindo a mesma conversa, e para agrad-la me caso com um homem a quem me obrigo a amar. Eu e ele terminaremos encontrando
uma maneira de sonhar juntos com o nosso futuro, a casa de campo, os filhos, o futuro dos nossos filhos. Faremos muito amor no primeiro ano, menos no segundo, e
a partir do terceiro ano a gente talvez pense em sexo uma vez a cada quinze dias, e transforme este pensamento em ao apenas uma vez por ms. Pior que isso, a gente
quase no conversar. Eu me forarei a aceitar a situao, e me per
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guntarei o que h de errado comigo - j que no consigo mais interess-lo, ele no presta ateno em mim, e vive falando dos seus amigos como se fossem realmente
o seu mundo.
Quando o casamento estiver realmente por um fio, eu ficarei grvida. Teremos o filho, passaremos algum tempo mais prximos um do outro, e logo a situao voltar
a ser como antes.
Ento comearei a engordar como a tia da enfermeira de ontem - ou de dias atrs, no sei bem. E comearei a fazer regime, sistematicamente derrotada a cada dia,
a cada semana, pelo peso que insiste em aumentar apesar de todo o controle. A esta altura, eu tomarei estas drogas mgicas para no entrar em depresso - e terei
alguns filhos, em noites de amor que passam depressa demais. Direi a todos que os filhos so a razo de minha vida, mas na verdade eles exigem minha vida como razo.
As pessoas vo sempre nos considerar um casal feliz, e ningum saber o que existe de solido, de amargura, de renncia, atrs de toda aparncia de felicidade.
At que um dia, quando meu marido arranjar sua primeira amante, eu talvez faa um escndalo como a tia da enfermeira, ou pense de novo em me suicidar. Mas a estarei
velha e covarde, com dois ou trs filhos que precisam de minha ajuda, e devo educ-los, coloc-los no mundo - antes de ser capaz de abandonar tudo. Eu no me suicidarei:
farei um escndalo, ameaarei sair com as crianas. Ele, como todo homem, recuar, dir que me ama e que aquilo no vai mais se repetir. Nunca Ihe passar pela cabea
que, se eu resolvesse mesmo ir embora, a nica escolha seria
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voltar para casa dos meus pais, e ficar ali o resto da minha vida, tendo que escutar todo dia a minha me lamentar-se porque eu perdi uma oportunidade nica de ser
feliz, que ele era um timo marido apesar de seus pequenos defeitos, que meus filhos iro sofrer muito por causa da separao.
Dois ou trs anos depois, outra mulher aparecer em sua vida. Eu vou descobrir- porque vi, ou porque algum me contou - mas desta vez finjo que no sei. Gastei toda
a minha energia lutando contra a amante anterior, no sobrou nada,  melhor aceitar a vida como ela  na realidade, e no como eu imaginava que fosse. Minha me
tinha razo.
Ele continuar sendo gentil comigo, eu continuarei o meu trabalho na biblioteca, com os meus sanduches na praa do teatro, os meus livros que nunca consigo terminar
de ler, os programas de televiso que continuaro sendo os mesmos daqui a dez, vinte, cinqenta anos.
S que comerei os sanduches com culpa, porque estou engordando; e no irei mais a bares, porque tenho um marido que me espera em casa para cuidar dos filhos.
A partir da,  es.perar os meninos crescerem, e ficar todo dia pensando no suicdio, sem coragem de comet-lo. Um belo dia, chego  concluso que a vida  assim,
no adianta, nada mudar. E me conformo.
Veronika encerrou seu monlogo interior, e fez uma promessa a si mesma: no sairia de Villete com
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vida. Era melhor acabar com tudo agora, enquanto ainda tinha coragem e sade para morrer.
Dormiu e acordou vrias vezes, notando que o nmero de aparelhos a sua volta diminua, o calor de seu corpo aumentava, e as enfermeiras mudavam de rosto - mas sempre
havia algum ao lado dela. As cortinas verdes deixavam passar o som de algum chorando, gemidos de dor, ou vozes que sussurravam coisas em tom calmo e tcnico. De
vez em quando um aparelho distante zumbia, e ela escutava passos apressados no corredor. Nestas horas, as vozes perdiam seu tom tcnico e calmo, e passavam a ser
tensas, dando ordens rpidas.
Num dos seus momentos de lucidez, uma enfermeira lhe perguntou:
- Voc no quer saber o seu estado?
- Eu sei qual  - respondeu Veronika. E no  o que voc est vendo em meu corpo;  o que est acontecendo em minha alma.
A enfermeira ainda tentou conversar um pouco, mas Veronika fingiu que dormia.
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Pela primeira vez, quando abriu os olhos, percebeu que havia mudado de lugar - estava no que
parecia ser uma grande enfermaria. A agulha de um frasco de soro ainda continuava em seu brao - mas todos os outros fios e agulhas tinham sido retirados.
Um mdico alto, com a tradicional roupa branca contrastando com os cabelos e bigode artificialmente tingidos de negro, encontrava-se de p, em frente a sua cama.
A seu lado, um jovem estagirio segurava uma prancheta, e tomava notas.
- H quanto tempo estou aqui? - perguntou , notando que falava com uma certa dificuldade, sem conseguir pronunciar direito as palavras.
- Duas semanas neste quarto, depois de 5 dias na Unidade de Emergncia - respondeu o mais velho. - E d graas a Deus por ainda estar aqui.
O mais jovem pareceu surpreso, como se esta ltima frase no combinasse exatamente com a realidade. Veronika, de imediato, notou sua reao, e seus instintos se
aguaram: tinha ficado mais tempo? Ainda estava correndo algum risco? Comeou a prestar ateno em cada gesto, cada movimento dos dois; sabia que era intil fazer
perguntas, eles jamais diriam a verdade - mas, se fosse esperta, podia entender o que estava acontecendo.
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- Diga seu nome, endereo, estado civil e data do nascimento - continuou o mais velho.
Veronika sabia seu nome, seu estado civil e sua data de nascimento, mas reparou que havia espaos em branco em sua memria: ela no conseguia lembrar direito o endereo.
O mdico colocou uma lantern em seus olhos , e examinou-os prolongadamente, em silncio. O mais jovem fez a mesma coisa. Os dois trocaram olhares, que no significavam
absolutamente nada.
- Voc disse para a enfermeira da noite que no sabamos ver sua alma? - perguntou o mais moo. Veronika no se lembrav. Tinha dificuldades em
saber direito quem era, e o que estava fazendo ali.
- Voc tem sido constantemente induzida ao sono atravs de calmantes, e isso pode afetar um pouco a sua memria. Por favor, tente responder tudo o que perguntarmos.
E os mdicos comearam um questionrio absurdo, querendo saber quais os jornais importantes em Lubljana, quem era o poeta cuja esttua est na praa principal (ah,
aquilo ela no esqueceria nunca, todo esloveno traz a imagem de Preseren gravada na alma), a cor do cabelo de sua me, o nome dos amigos de trabalho, os livros mais
retirados da biblioteca.
No como, Veronika cogitou no responder sua memria continuava confusa. Mas,  medida que o questionrio avanava, ela ia reconstruindo o que havia esquecido.
Em determinado momento, lembrou-se que agora estava num hospcio, e os loucos no tm nenhuma obrigao de serem coerentes; mas, para seu prprio bem, e para manter
os mdicos por perto, a fim de ver se conseguia descobrir algo mais a respeito
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do seu estado, ela comeou a fazer um esforo mental.  medida que citava os nomes e fatos, no recuperava apenas a memria - mas tambm sua personalidade, seus
desejos, sua maneira de ver a vida. A idia do suicdio, que naquela manh parecia enterrada debaixo de vrias camadas de sedativos, voltava novamente  tona.
- Est bem - disse o mais velho, no final do questionrio.
- Quanto tempo ainda vou ficar aqui?
O mais moo abaixou os olhos, e ela sentiu que tudo ficara suspenso no ar, - como se, a partir da resposta para aquela pergunta, uma nova histria de sua vida fosse
escrita, e ningum mais conseguisse modific-la.
- Pode dizer - comentou o mais velho. Muitos outros pacientes j ouviram os boatos, e ela vai terminar sabendo de qualquer jeito;  impossvel ter segredos neste
local.
- Bem, foi voc quem determinou seu prprio destino - suspirou o moo, medindo cada palavra. - Ento, saiba das conseqncias do seu ato: durante o coma provocado
pelos narcticos, seu corao foi irremediavelmente afetado. Houve uma necrose no ventrloquo...
- Seja mais simples - disse o mais velho. - V direto ao que interessa.
- O seu corao foi irremediavelmente afetado. E vai deixar de bater em breve.
- O que significa isso? - perguntou, assustada. - O fato do corao deixar de bater significa apenas uma coisa: morte fsica. No sei quais so suas crenas religiosas,
mas...
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- Em quanto tempo meu corao vai parar? interrompeu Veronika.
- Cinco dias,' uma semana no mximo. Veronika se deu conta de que, por trs da aparncia e do comportamento profissional, por trs do ar de preocupao, aquele rapaz
estava tendo um imenso prazer no que dizia. Como se ela merecesse o castigo, e servisse de exemplo a todos os outros.
Durante toda a sua vida, Veronika percebera que um imenso grupo de pessoas que conhecia comentavam os horrores da vida alheia como se estivessem muito preocupados
em ajudar - mas na verdade se compraziam com o sofrimento dos outros, porque isto os fazia crer que eram felizes, a vida tinha sido generosa com eles. Ela detestava
este tipo de gente: no ia dar quele rapaz nenhuma chance de se aproveitar do seu estado, para ocultar as suas prprias frustraes.
Manteve os olhos fixos nos dele. E sorriu. - Ento eu no falhei.
- No - foi a resposta. Mas o seu prazer em dar notcias trgicas havia desaparecido.
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urante a noite, porm, comeou a sentir medo. Uma coisa era a ao rpida dos comprimidos
, outra era ficar esperando a morte por cinco dias, uma semana - depois de j se ter vivido tudo que era possvel.
Passara a sua vida esperando sempre alguma coisa: o pai voltar do trabalho, a carta do namorado que no chegava, os exames do final do ano, o trem, o nibus, o telefonema,
o dia das frias, o final das frias. Agora precisava esperar a morte, que vinha com data marcada.
"Isso s podia acontecer comigo. Normalmente as pessoas morrem exatamente no dia em que acham "
que no vo morrer.
Tinha que sair dali, e arranjar novos comprimidos. Se no conseguisse, e a nica soluo fosse jogar-se do alto de um prdio em Lubljana, ela faria isso: tentara
poupar os seus pais de sofrimento extra, mas agora no havia mais remdio.
Olhou a sua volta. Todos os leitos estavam ocupados, as pssoas dormiam, algumas roncavam forte. As janelas tinham grades. No final do dormitrio
, havia uma pequena luz acesa, enchendo o ambiente de
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sombras estranhas, e permitindo que o local estivesse constantemente vigiado. Perto da luz, uma mulher lia um livro.
" Essas enfermeiras devem ser muito cultas. Vivem lendo."
A cama de Veronika era a mais afastada da porta - entre ela e a mulher havia quase vinte leitos. Levantou-se com dificuldade, porque - a acreditar no que dissera
o mdico - estava h quase trs semanas sem caminhar. A enfermeira levantou os olhos, e viu a moa que se aproximava carregando seu frasco de soro.
- Quero ir ao banheiro - sussurrou, com medo de acordar as outras loucas.
A mulher, num gesto descuidado, apontou para uma porta. A mente de Veronika trabalhava rapidamente, buscando em todos os cantos uma sada, uma brecha, uma maneira
de deixar aquele lugar. "Tem que ser rpido, enquanto acham que ainda estou frgil
, incapaz de reagir."
Olhou cuidadosamente a sua volta. O banheiro era um cubculo sem porta. Se quisesse sair dali, teria que agarrar a vigilante e domin-la para conseguir a chave -
mas estava fraca demais para isso.
- Isso  uma priso? - perguntou  vigilante que tinha abandonado a leitura e agora acompanhava todos os seus movimentos.
- No. Um hospcio. - Eu no sou louca.
A mulher riu.
-  exatamente o que todos dizem aqui.
- Est bem. Ento sou louca. O que  um louco? A mulher disse que Veronika no devia ficar muito tempo em p, e mandou-a de volta para a sua cama.
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- O que  um louco? - insistiu Veronika.
- Pergunte ao mdico amanh. E v dormir ou terei - a contragosto - que lhe aplicar um calmante. Veronika obedeceu. No caminho de volta, escu
tou algum sussurrar de uma das camas: "Voc no sabe o que  um louco?"
Por um instante, ela pensou em no responder: , no queria fazer amigos, desenvolver crculos sociais arranjar aliados para uma grande sublevao em massa. Tinha
apenas uma idia fixa: morte. Se fosse impossvel fugir, daria um jeito de se matar ali mesmo, o quanto antes possvel.
Mas a mulher repetiu a mesma pergunta que ela fizera  vigilante.
- Voc no sabe o que  um louco? - Quem  voc?
- Meu nome  Zedka. V at sua cama. Depois , quando a vigilante achar que voc j est deitada arraste-se pelo cho e venha at aqui.
Veronika voltou ao seu lugar, e esperou que a vigilante voltasse a se concentrar no livro. O que era um louco? No tinha a menor idia, porque esta palavra era empregada
de uma maneira completamente anrquica: diziam, por exemplo, que certos esportistas eram loucos por desejarem quebrar recordes. Ou que os artistas eram loucos, pois
viviam de uma maneira insegura, inesperada, diferente de todos os "normais". Por outro lado, Veronika j vira muita gente andando nas ruas de Lubljana, mal agasalhada
durante o inverno, pregando o fim do mundo, empurrando carrinhos de supermercado cheios de sacolas e trapos.
Estava sem sono. Segundo o mdico, dormira quase uma semana, tempo demais para quem estava
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acostumado com uma vida sem grandes emoes, mas com horrios rgidos de descanso. O que era um louco? Talvez fosse melhor perguntar para um deles.
Veronika agachou-se, tirou a agulha do seu brao, e foi at onde estava Zedka, tentando no dar importncia ao estmago que comeava a dar voltas; no sabia se o
enjo era resultado do seu corao enfraquecido, ou do esforo que estava fazendo.
- No sei o que  um louco - sussurrou Veronika. - Mas eu no sou. Sou uma suicida frustrada. - Louco  quem vive em seu mundo. Como os
esquizofrnicos, os psicopatas, os manacos. Ou seja, pessoas que so diferentes das outras.
- Como voc?
- Entretanto - continuou Zedka, fingindo no ter escutado o comentrio - voc j deve ter ouvido falar de Einstein, dizendo que no havia tempo nem espao, mas uma
unio dos dois. Ou Colombo, insistindo que do outro lado do mar no estava um abismo, e sim um continente. Ou de Edmond Hillary, garantindo que um homem podia chegar
ao topo do Everest. Ou dos Beatles, que fizeram uma msica diferente e se vestiram como pessoas totalmente fora de sua poca. Todas estas pessoas - e milhares de
outras tambm viviam no seu mundo.
"Esta demente est dizendo coisas que fazem sentido", pensou Veronika, lembrando-se de histrias que sua me contava, sobre santos que garantiam falar com Jesus
ou a Virgem Maria. Viviam num mundo  parte?
- J vi uma mulher com um vestido vermelho decotado, os olhos vidrados, andando pelas ruas de Lubljana - quando o termmetro marcava 5 abaixo
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de zero. Achei que ela estava bbada e fui ajud-la, mas ela recusou o meu casaco.
- Talvez, em seu mundo, fosse vero; e seu corpo estivesse quente pelo desejo de algum que a esperava. Mesmo que esta outra pessoa existisse apenas em seu delrio,
ela tem o direito de viver e morrer como quiser, no acha?
Veronika no sabia o que dizer, mas as palavras daquela louca faziam sentido. Quem sabe, no era ela a mulher que vira seminua nas ruas de Lubljana?
- Vou lhe contar uma histria - disse Zedka. - Um poderoso feiticeiro, querendo destruir um reino, colocou uma poo mgica no poo onde todos
, os seus habitantes bebiam. Quem tomasse aquela gua
ficaria louco.
"Na manh seguinte, a populao inteira bebeu, e todos enlouqueceram, menos o rei - que tinha um poo s para si e sua famlia, onde o feiticeiro no conseguira
entrar. Preocupado, ele tentou controlar a populao, baixando uma srie de medidas de segurana e sade pblica: mas os policiais e inspetores haviam bebido a gua
envenenada, e acharam um absurdo as decises do rei, resolvendo no respeit-las de jeito nenhum.
"Quando os habitantes daquele reino tomaram conhecimento dos decretos, ficaram convencidos de que o soberano enlouquecera, e agora estava escrevendo coisas sem sentido.
Aos gritos, foram at o castelo e exigiram que renunciasse.
"Desesperado, o rei prontificou-se a deixar o trono, mas a rainha o impediu, dizendo: `vamos agora at a Fonte, e beberemos tambm. Assim, Fcaremos iguais a eles.'
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"E assim foi feito: o rei e a rainha beberam a gua da loucura, e comearam imediatamente a dizer coisas sem sentido. Na mesma hora, os seus sditos se arrependeram:
agora que o rei estava mostrando tanta sabedoria, por que no deix-lo governando o pas?
"O pas continuou em calma, embora seus habitantes se comportassem de maneira muito diferente de seus vizinhos. E o rei pde governar at o final dos seus dias."
Veronika riu.
- Voc no parece louca - disse.
- Mas sou, embora esteja sendo curada, porque o meu caso  simples: basta recolocar no organismo uma determinada substncia qumica. Entretanto, espero que esta
substncia resolva apenas o meu problema de depresso crnica; quero continuar louca, vivendo minha vida da maneira que sonho, e no da maneira que os outros desejam.
Sabe o que existe l fora, alm dos muros de Villete?
- Gente que bebeu do mesmo poo.
- Exatamente - disse Zedka. - Acham que so normais, porque todos fazem a mesma coisa. Vou fingir que tambm bebi daquela gua.
- Pois eu bebi, e  este, justamente, o meu problema. Nunca tive depresso, nem grandes alegrias, ou tristezas que durassem muito. Meus problemas so iguais aos
de todo mundo.
Zedka ficou algum tempo em silncio. - Voc vai morrer, nos disseram.
Veronika hesitou um instante: podia confiar naquela estranha? Mas precisava arriscar.
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- S daqui a cinco, seis dias. Fico pensando se existe um meo de morrer antes. Se voc, ou algum aqui dentro, consegusse arranjar novos comprimidos, tenho certeza
de que meu corao no agentaria desta vez. Entenda o quanto estou sofrendo por ter que ficar esperando a morte, e me ajude.
Antes que Zedka pudesse responder, a enfermeira apareceu com uma injeo.
- Posso aplic-la eu mesma - disse. - Mas, dependendo de sua vontade, posso pedr aos guardas l fora que me ajudem.
- No gaste sua energia  toa - disse Zedka para Veronika. - Poupe suas foras, se quiser conseguir o que me pede.
Veronika levantou-se, voltou a sua cama, e deixou que a enfermeira cumprisse sua tarefa.
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oi seu primeiro dia normal num asilo de loucos. Saiu da enfermaria, tomou caf no rande refeit
g rio onde homens e mulheres comiam juntos. Reparou que, ao contrrio do que mostravam nos filmes escndalos, gritarias, pessoas fazendo gestos demenciais - tudo
parecia envolto numa aura de silncio opressivo; parecia que ningum desejava repartir seu mundo interior com estranhos.
Depois do caf (razovel, no se podia culpar as refeies pela pssima fama de Villete) - saram todos para um banho de sol. Na verdade, no havia sol algum - a
temperatura estava abaixo de zero, e o jardim encontrava-se coberto de neve.
- No estou aqui para conservar minha vida, mas para perd-la - disse Veronika a um dos enfermeiros.
- Mesmo assim, precisa sair para o banho de sol. - Vocs  que so loucos: no h sol!
- Mas h luz, e ela ajuda a acalmar os internos. Infelizmente nosso inverno dura muito; se no fosse assim, teramos menos trabalho.
Era intil discutir: saiu, caminhou um pouco , olhando tudo a sua volta, e procurando disfarada
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mente uma maneira de fugir. O muro era alto, como exigiam os construtores de quartis antigos, mas as guaritas para sentinelas estavam desertas. O jardim era contornado
por prdios de aparncia militar
, que hoje abrigavam enfermarias masculinas, femininas, os escritrios de administrao, e as dependncias dos empregados. Ao final de uma primeira e rpida inspeo,
notou que o nico lugar realmente vigiado era o porto principal, onde todos que entravam e saam tinham suas identidades verificadas por dois guardas.
Tudo parecia estar voltando ao lugar no seu crebro. Para fazer um exerccio de memria, comeou a tentar lembrar-se de pequenas coisas - como o lugar onde deixava
a chave do seu quarto, o disco que acabara de comprar, o mais recente pedido que lhe fizeram na biblioteca.
- Sou Zedka - disse uma mulher, se aproximando.
Na noite anterior, no pudera ver seu rosto estivera agachada ao lado da cama todo o tempo da conversa. Ela devia ter aproximadamente 35 anos, e parecia absolutamente
normal.
- Espero que a injeo no tenha causado muito problema. Com o tempo 0 organismo se acostuma, e os calmantes perdem o efeito.
- Estou bem.
- Aquela nossa conversa ontem  noite... o que voc me pediu, lembra?
- Perfeitamente.
Zedka pegou-a por um brao, e comearam a caminhar juntas, por entre as muitas rvores sem fo
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lhas do ptio. Alm dos muros, podia-se ver as montanhas desaparecendo nas nuvens.
- Est frio, mas  uma bonita manh - disse Zedka. -  curioso, mas minha depresso nunca aparecia em dias como este, nublados, cinzentos, frios. Quando o tempo
estava assim, eu sentia que a natureza estava de acordo comigo, mostrava minha alma. Por outro lado, quando aparecia o sol, as crianas comeavam a brincar nas ruas,
e todos estavam contentes com a beleza do dia, eu me sentia pssima. Como se fosse injusto que toda aquela exuberncia se mostrasse, e eu no pudesse participar.
Com delicadeza, Veronika soltou-se do brao da mulher. No gostava de contatos fsicos.
- Voc interrompeu sua frase. Voc estava falando do meu pedido.
- Tem um grupo aqui dentro. So homens e mulheres que j podiam ter alta, estar em casa- mas no querem sair. As razes para isto so muitas: Villete no  to mal
como dizem, embora esteja longe de ser um hotel de cinco estrelas. Aqui dentro, todos podem dizer o que pensam, fazer o que desejam, sem ouvir qualquer tipo de crtica:
afinal de contas, esto em um hospcio. Ento, na hora das inspees do governo, estes homens e mulheres comportam-se como se estivessem num grau de insanidade perigosa,
j que alguns deles esto aqui  custa do Estado. Os mdicos sabem disso, mas parece que existe uma ordem dos donos, deixando que esta situao permanea como est
- j que existem mais vagas do que doentes.
- Eles podem arranjar os comprimidos?
- Procure entrar em contacto com eles; chamam seu grupo de A Fraternidade.
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Zedka apontou para uma mulher com cabelos brancos, que conversava animadamente com outras mulheres mais jovens.
- Seu nome  Mari, e ela  da Fraternidade. Pergunte a ela.
Veronika comeou a andar na direo de Mari, mas Zedka a interrompeu:
- Agora no: ela est se divertindo. No ir nterromper o que lhe d prazer, s para ser smptica com uma estranha. Se ela reagir mal, voc nunca mais ter uma
chance de aproximar-se. Os loucos sempre acreditam na primeira impresso.
Veronika riu com a entonao que Zedka dera para a palavra loucos. Mas ficou inquieta, porque aquilo tudo estava parecendo normal, bom demais. Depois de tantos anos
indo do trabalho para o bar, do bar para a cama de um namorado, da cama para o quarto, do quarto para a casa da me - agora ela estava vivendo uma experincia com
a qual nunca sonhara: o asilo, a loucura, o hospcio. Onde as pessoas no sentiam vergonha de confessar-se Ioucas. Onde nngum interrompia o que gostava, s para
ser simptico com os outros.
Comeou a duvidar se Zedka estava falando srio , ou se era uma maneira que os doentes mentais adotam para fingir que vivem num mundo melhor que os outros. Mas que
importncia tinha isso? Estava vivendo algo nteressante, diferente, jamais esperado: magine um lugar onde as pessoas se fingem de loucas, para fazer exatamente
o que querem?
Neste exato momento, o corao de Veronika deu uma pontada. A conversa com o mdico voltou imediatamente ao seu pensamento, e ela se assustou.
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- Quero andar sozinha - disse para Zedka. Afinal de contas, era tambm uma louca, e no precisava ficar querendo agradar ningum.
A mulher se afastou, e Veronika ficou contemplando as montanhas alm dos muros de Villete. Uma leve vontade de viver pareceu surgir, mas Veronika a afastou com determinao.
" Preciso arranjar logo os comprimidos." Refletiu sobre sua situao ali; estava longe de ser
a ideal. Mesmo que lhe dessem a possibilidade de viver todas as loucuras que tinha vontade, no saberia o que fazer.
Nunca tivera nenhuma loucura.
Depois de algum tempo no jardim, foram at o refeitrio e almoaram. Em seguida, os enfermeiros conduziram homens e mulheres at uma gigantesca sala de estar, com
muitos ambientes - mesas, cadeiras, sofs, um piano, uma televiso, e amplas janelas de onde se podia ver o cu cinzento e as nuvens baixas. Nenhuma delas tinha
grades, porque a sala dava para o jardim. As portas estavam fechadas por causa do frio, mas bastava girar a maaneta, e poderia sair para caminhar de novo entre
as rvores.
A maior parte das pessoas foi para a frente da televiso. Outros olhavam o vazio, alguns conversavam em voz baixa consigo mesmos - mas quem no fizera isso em algum
momento de sua vida? Veronika reparou que a mulher mais velha, Mari, estava agora junto a um grupo maior, num dos cantos da gigantesca sala. Alguns dos internos
passeavam ali perto, e Vero
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nika tentou juntar-se a eles: queria escutar o que estavam dizendo.
Procurou disfarar ao mximo suas intenes. Mas quando chegou perto, eles se calaram e - todos juntos - olharam para ela.
- O que voc quer? - disse um senhor idoso , que parecia ser o lder da Fraternidade (se  que tal grupo realmente existia, e Zedka no era mais louca do que aparentava).
- Nada, s estava passando.
Todos se entreolharam, e fizeram alguns gestos demenciais com a cabea. Um comentou com o outro: "ela s estava passando!" Outro repetiu, em voz mais alta, e - em
pouco tempo - todos comearam a gritar a mesma frase.
Veronika no sabia o que fazer, e ficou paralisada de medo. Um enfermeiro, forte e mal-encarado, veio saber o que estava acontecendo.
- Nada - respondeu um do grupo. - Ela s estava passando. Est parada a, mas vai continuar a passar!
O grupo inteiro caiu na gargalhada. Veronika assumiu um ar irnico, sorriu, deu mea-volta e afastou-se, para que ningum notasse que seus olhos se enchiam de lgrimas.
Saiu direto para o jardim, sem agasalho. Um enfermeiro tentou convenc-la a voltar
, mas logo apareceu outro, que sussurrou algo - e os dois a deixaram em paz, no frio. No adiantava cuidar da sade de uma pessoa condenada.
Estava confusa, tensa, irritada consigo mesma. Jamais se deixara levar por provocaes; aprendera
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desde cedo que era preciso manter o ar frio, distante, sempre que uma nova situao se apresentasse. Aqueles loucos, entretanto, tinham conseguido fazer com que
tivesse vergonha, medo, raiva, vontade de matlos, de feri-los com palavras que no ousara dizer.
Talvez os comprimidos - ou o tratamento para tir-la da coma - a tivessem transformado numa mulher frgil, incapaz de reagir por si mesma. J enfrentara situaes
muito piores na sua adolescncia, e, pela primeira vez, no conseguira controlar o choro! Precisava voltar a ser quem era, saber reagir com ironia, fingir que as
ofensas nunca a atingiam, pos era superior a todos. Quem, daquele grupo, tivera coragem de desejar a morte? Quais daquelas pessoas podiam querer lhe ensinar sobre
a vida, se estavam todas escondidas atrs dos muros de Villete? Nunca iria depender da ajuda delas para nada - mesmo que tivesse que esperar cinco ou seis dias para
morrer.
"Um dia j passou. Sobram apenas quatro ou "
cinco. Andou um pouco, deixando que o frio abaixo de zero entrasse por seu corpo e acalmasse o sangue que corria depressa, o corao que batia rpido demais.
"Muito bem, aqui estou eu, com as horas literalmente contadas, e dando importncia para os comentrios de gente que nunca vi, e que em breve nunca mais verei. E
eu sofro, me irrito, quero atacar e defen
" der. Para que perder tempo com isso?
A realidade, porm,  que estava gastando o pouco tempo que lhe sobrava, para lutar por seu espao num ambiente estranho, onde era preciso resistir, ou os outros
impunham suas regras.
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"No  possvel. Eu nunca fui assim. Eu nunca lutei por bobagens."
Parou no meio do jardim gelado. Justamente porque achava que tudo era bobagem, ela terminara aceitando o que a vida lhe tinha naturalmente imposto. Na adolescncia,
achava que era cedo demais para escolher; agora, na juventude, se convencera que era tarde demais para mudar.
E onde gastara toda a sua energia, at o momento? Tentando fazer com que tudo em sua vida continuasse o mesmo. Sacrificara muitos de seus desejos, para que seus
pais a continuassem amando como a amavam quando criana, embora sabendo que o verdadeiro amor se modifica com o tempo, e cresce, e descobre novas maneiras de se
expressar. Certo dia, quando escutara a me - aos prantos - Ihe dizer que o casamento havia acabado, Veronika fora em busca do pai, chorara, ameaara, e finalmente
arrancara a promessa de que ele no sairia de casa - sem imaginar o preo alto que os dois deviam estar pagando por causa diss.
Quando resolveu arranjar um emprego, deixou de lado uma proposta tentadora numa companhia que acabava de se instalar em seu recm-criado pas, para aceitar o trabalho
na biblioteca pblica, onde o dinheiro era pouco, mas seguro. Ia trabalhar todos os dias, no mesmo horrio, sempre deixando claro aos seus chefes que no a vissem
como uma ameaa, ela estava satisfeita, no pretendia lutar para crescer: tudo que desejava era o salrio no final do ms.
Alugou o quarto no convento porque as freiras exigiam que todas as inquilinas voltassem em determinada hora, e depois passavam a chave na porta: quem
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ficasse do lado de fora, tinha que dormir na rua. Ela sempre podia dar uma desculpa verdadeira aos namorados, para no ser obrigada a passar a noite em hotis ou
leitos estranhos.
Quando sonhava em casar, imaginava-se sempre num pequeno chal fora de Lubljana, com um homem que fosse diferente do seu pai, que ganhasse apenas o suficiente para
sustentar a famlia, que ficasse contente com o fato de que os dois estavam juntos numa casa com a lareira acesa, olhando as montanhas cobertas de neve.
Educara a si mesma para dar aos homens uma quantia exata de prazer - nem mais, nem menos, apenas o necessrio. No sentia raiva de ningum
, porque isso significava ter que reagir, combater um inimigo - e depois ter que agentar conseqncias imprevisveis, como vingana.
Quando conseguiu quase tudo o que desejava na vida, chegou  concluso que a sua existncia no tinha sentido, porque todos os dias eram iguais. E decidira morrer.
Veronika tornou a entrar, e se dirigiu ao grupo reunido em um dos cantos da sala. As pessoas conversavam, animadas, mas silenciaram assim que ela chegou.
Foi direto at o homem mais idoso, que parecia ser o chefe. Antes que algum pudesse det-la, deu-lhe um sonoro tapa no rosto.
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- Vai reagir? ~ perguntou alto, para que todos na sala ouvissem. - Vai fazer alguma coisa?
- No. - O homem passou a mo no rosto. Um pequeno filete de sangue escorreu do seu narz. Voc no vai nos perturbar por muito tempo.
Ela deixou a sala de estar e caminhou para a sua enfermaria, com ar triunfante. Tinha feito algo que jamais fizera em sua vida.
Trs dias se passaram desde o incidente com o grupo que Zedka chamava de "A Fraternidade". Arrependera-se do tapa - no por medo da reao do homem, mas porque fizera
algo diferente. Em breve, podia terminar convencida de que a vida valia a pena, um sofrimento intil - j que teria que partir deste mundo de qualquer maneira.
, Sua nica sada foi afastar-se de tudo e de todos
tentar de todas as maneiras ser como era antes, obede
i..:. cer as ordens e regulamentos de Villete. Adaptou-se 
rotina imposta pela casa de sade: acordar cedo, caf da manh, passeio no jardim, almoo, sala de estar, novo passeio no jardim, ceia, televiso e cama.
Antes de dormir, uma enfermeira sempre aparecia com medicamentos. Todas as outras mulheres tomavam comprimidos, ela era a nica em quem aplicavam uma injeo. Nunca
reclamou; apenas quis saber por que Ihe davam tanto calmante, j que nunca tivera problemas para dormir. Explicaram que a injeo no era um sonfero, mas um remdio
para o seu corao.
E assim, obedecendo a rotina, os dias do hospcio comearam a ficar iguais. Quando ficam iguais, passam mais rpido: mais dois ou trs dias, e no seria
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necessrio escovar os dentes ou pentear o cabelo. Veronika percebia o seu corao enfraquecendo rapidamente: perdia o flego com facilidade, sentia dores no peito,
no tinha apetite, e ficava tonta cada vez que fazia qualquer esforo.
Depois do incidente com a Fraternidade, chegara a pensar algumas vezes: "se eu tivesse uma escolha, se tivesse compreendido antes que meus dias eram iguais porque
eu assim os desejava, talvez..."
Mas a resposta era sempre a mesma: "no h talvez, porque no h escolha". E a paz interior voltava, porque tudo estava determinado.
Neste perodo, desenvolveu uma relao (no uma amizade, porque amizade exige uma longa convivncia, e isso seria impossvel) com Zedka. Jogavam baralho - o que
ajuda o tempo a passar mais rpido - e s vezes caminhavam juntas, em silncio, pelo jardim.
Na manh daquele dia, logo depois do caf, todos saram para o "banho de sol" - conforme exigia o regulamento. Um enfermeiro, porm, pediu que Zedka voltasse  enfermaria,
pois era o dia do "tratamento".
Veronika estava tomando caf com ela, e escutou o comentrio.
- O que  "tratamento"?
-  um processo antigo, da dcada de sessenta, mas os mdicos acham que pode acelerar a recuperao. Voc quer ver?
- Voc disse que tinha depresso. No basta tomar o remdio para repor a tal substncia que falta? - Voc quer ver? - insistiu Zedka.
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Ia sair da rotina, pensou Veronika. Ia descobrir novas coisas, quando no precisava aprender mais nada - apenas ter pacincia. Mas sua curiosidade foi mais forte,
e ela fez que sim com a cabea.
- Isto no  uma exibio - reclamou o enfermeiro.
- Ela vai morrer. E no viveu nada. Deixa que venha conosco.
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eronika assistiu a mulher ser amarrada na cama,  sempre com um sorriso nos lbios.
- Conta o que est acontecendo - disse Zedka para o enfermeiro. - Ou ela vai ficar assustada.
Ele virou-se e mostrou uma injeo. Parecia feliz de ser tratado como um mdico, que explica aos estagirios os procedimentos corretos e os tratamentos adequados.
- Nesta seringa, est uma dose de insulina disse, dando s suas palavras um tom grave e tcnico. -  usada por diabticos para combater as altas doses de acar.
Entretanto, quando a dose  muito mais elevada que a habitual, a queda na taxa de acr provoca o estado de coma.
Ele bateu levemente na agulha, retirou o ar, e aplicou-a na veia do p direito de Zedka.
-  isso que vai acontecer agora. Ela vai entrar num coma induzido. No se assuste se seus olhos ficarem vidrados, e no espere que a reconhea enquanto estiver
sob o efeito da medicao.
- Isso  horroroso, desumano. As pessoas lutam para sair, e no para entrar em coma.
- As pessoas lutam para viver, e no para cometerem suicdio - respondeu o enfermeiro, mas Veronika ignorou a provocao. - E o estado de coma
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deixa o organismo em repouso; suas funes so drasticamente reduzidas, a tenso existente desaparece.
Enquanto falava, injetava o lquido, e os olhos de Zedka iam perdendo o brilho.
- Fique tranqila - dizia Veronika para ela. Voc  absolutamente normal, a histria que voc me contou sobre o rei...
- No perca seu tempo. Ela j no pode mais ouvi-la.
A mulher deitada na cama, que minutos antes parecia lcida e cheia de vida, agora tinha os olhos fixos num ponto qualquer, e um lquido espumante saindo de sua boca.
- O que voc fez? - gritou para o enfermeiro. - Meu dever.
Veronika comeou a chamar por Zedka, a gritar, a ameaar com a polcia, os jornais, os direitos humanos.
, - Fique calma. Mesmo estando num sanatrio
 preciso respeitar algumas regras.
Ela viu que o homem estava falando srio, e teve medo. Mas como no tinha mais nada a perder, continuou gritando.
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De onde estava, Zedka podia ver a enfermaria com todos os leitos vazios - exceto um, onde repou
sava o seu corpo amarrado, com uma menina olhando espantada para ele. A menina no sabia que aquela pessoa na cama ainda tinha suas funes biolgicas funcionando
perfeitamente, mas sua alma estava no ar, quase tocando o teto, experimentando uma profunda paz.
Zedka estava fazendo uma viagem astral - algo que tinha sido uma surpresa durante o primeiro choque de insulina. No tinha comentado com ningum; estava ali apenas
para curar uma depresso, e pretendia deixar aquele lugar para sempre, assim que suas condies permitissem. Se comeasse a comentar que havia sado do corpo, pensariam
que estava mais louca do que quando entrara para Villete. Entretanto, assim que voltara ao corpo, comeara a ler sobre aqueles dois temas: o choque de insulina,
e a estranha sensao de flutuar no espao.
No havia muita coisa sobre o tratamento: tinha sido aplicado pela primeira vez por volta de 1930, mas fora completamente banido de hospitais psiquitricos
, pela possibilidade de causar danos irreversveis no paciente. Uma vez, durante uma sesso de choque, visitara em corpo astral o escritrio do Dr. Igor, jus
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tamente no momento em que ele discutia o tema com alguns dos donos do asilo. " um crime!", dizia ele. "Mas  mais barato e mais rpido!", respondera um dos acionistas.
"Alm disso, quem se interessa por direitos de louco? Ningum vai reclamar nada!"
Mesmo assim, alguns mdicos ainda o consideravam como uma forma rpida de tratar a depresso. Zedka procurara - e pedira emprestado - tudo quanto era tipo de texto
que tratasse do choque insulnico, principalmente o relato de pacientes que j haviam passado por aquilo. A histria era sempre a mesma: horrores e mais horrores,
sem que nenhum deles tivesse experimentado qualquer coisa parecida com o que ela vivia neste momento.
Concluiu - com toda razo - que no havia qualquer relao entre a insulina e a sensao de que sua conscincia saa do corpo. Muito pelo contrrio, a tendncia
daquele tipo de tratamento era diminuir a capacidade mental do paciente.
Comeou a pesquisar sobre a existncia da alma ,
passou por alguns livros de ocultismo, at que um dia terminou encontrando uma vasta literatura que descrevia exatamente o que ela estava experimentando: chamava-se
"viagem astral", e muitas pessoas j haviam passado por isso. Algumas resolveram descrever o que haviam sentido, e outras chegaram mesmo a desenvolver tcnicas para
provocar a sada do corpo. Zedka agora conhecia estas tcnicas de cor, e as utilizava todas as noites, pra ir onde queria.
Os relatos das experincias e vises variaram, mas todos tinham alguns pontos em comum: o estranho e
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irritante rudo que precede a separao do corpo e do esprito, seguido do choque, de uma rpida perda de conscincia, e logo a paz e a alegria de estar lutuando
no ar, presa por um cordo prateado ao corpo - um cordo que podia se esticar indefinidamente, embora corressem lendas (nos livros,  claro) de que a pessoa morreria
se deixasse o tal fio de prata arrebentar.
Sua experincia, porm, mostrara que podia ir to longe quanto quisesse, e o cordo no se rompia nunca. Mas, de uma maneira geral, os livros tinham sido muito teis
para ensin-la a aproveitar cada vez mais a viagem astral. Aprendera, por exemplo, que quando quisesse mudar de um lugar para o outro, tinha que l
,; desejar projetar-se no espao, mentalizando aonde queria chegar. Ao invs de fazer um percurso como os avies - que saem de um lugar e percorrem determinada distncia
at chegar a outro ponto - a viagem astral era feita por tneis misteriosos. Mentalizava-se um lugar, entrava-se no tal tnel a uma velocidade espantosa, e o local
desejado aparecia.
Fora tambm atravs dos livros que perdera o f
medo das criaturas que habitavam o espao. Hoje no havia ningum na enfermaria, mas a primeira vez que sara do seu corpo encontrara muita gente olhando
, divertindo-se com sua cara de surpresa.
Sua primeira reao fora pensar que eram mortos, fantasmas habitavam o local. Depois, com ajuda dos livros e da prpria experincia, deu-se conta que, embora alguns
espritos desencarnados vagassem por ali, havia entre eles muita gente to viva quanto ela que desenvolvera a tcnica de sair do corpo, ou que no tinha conscincia
do que estava acontecendo
, porque - em algum lugar do mundo - dormia
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profundamente, enquanto seus espritos vagavam livres pelo mundo.
Hoje - por ser sua ltima viagem astral com insulina, pois tinha acabado de visitar o escritrio do Dr. Igor, e sabia que ele estava prestes a lhe dar altaela decidira
ficar passeando por Villete. Do momento em que cruzasse a porta de sada, nunca mais voltaria ali, nem mesmo em esprito, e queria despedir-se agora.
Despedir-se. Esta era a parte mais difcil: uma vez num asilo, a pessoa acostuma-se com a liberdade que existe no mundo da loucura, e termina ficando viciada. J
no tem mais que assmir responsabilidades, lutar pelo po de cada dia, cuidar de coisas que so repetitivas e aborrecidas; pode ficar horas olhando um quadro ou
fazendo os desenhos mais absurdos possveis. Tudo  tolervel porque - afinal de contas - a pessoa  doente mental. Como ela prpria tivera ocasio de experimentar
a maior parte dos internos apresenta uma grande melhora assim que pisa num hospcio: j no precisa ficar escondendo seus sintomas, e o ambiente "familiar" os ajuda
a aceitar suas prprias neuroses e psicoses. ,
No incio, Zedka ficara fascnada por Villete, e chegou a cogitar, quando estivesse curada, em participar da Fraternidade. Mas entendeu que, com alguma sabedoria,
podia continuar fazendo l fora tudo o que gostaria de fazer, enquanto cuidava dos desafios da vida diria. Bastava manter, como dissera algum, a loucura controlada.
Chorar, preocupar-se, ficar irritada como qualquer ser humano normal, sem nunca esquecer que, l em cima, seu esprito est rindo de todas as situaes difceis.
Em breve estaria de volta a sua casa, aos filhos, ao marido; e esta parte da vida tambm tem seus encantos. Certamente teria dificuldade em encontrar traba
GI
        lho - afinal, numa cidade pequena como Lubljana as
        histrias correm com rapidez, e sua internao em
        Villete j era do conhecimento de muita gente. Mas o
        seu marido ganhava o suficiente para sustentar a fam-
        lia, e ela podia aproveitar o tempo vago para continuar
        a fazer suas viagens astrais, - sem a perigosa influncia
        da insulina.
S uma coisa no queria jamais experimentar de novo: o motivo que a trouxera para Villete. Depresso.
O mdicos diziam que uma substncia recmdescoberta, a serotonina, era uma das responsveis pelo estado de esprito do ser humano. A falta de serotonina interferia
na capacidade de concentrar-se no trabalho, dormir, comer, e desfrutar dos momentos agradveis da vida. Quando esta substncia estava completamente ausente, a pessoa
sentia desesperana, pessimismo, sensao de inutilidade, cansao exagerado, ansiedade, dificuldades para tomar decises, e terminava mergulhando numa tristeza permanente,
que a conduzia a uma apatia completa, ou ao suicdio.
Outros mdicos, mais conservadores, alegavam que mudanas drsticas na vda de algum - como iroca de pas, perda de um ente querido, divrcio, aumento de exigncias
no trabalho ou na famlia eram responsveis pela depresso. Alguns estudos modernos, baseados no nmero de internaes no inverno e no vero, apontavam a falta de
luz solar como um dos elementos causadores da depresso.
No caso de Zedka, porm, as razes eram mais simples do que todos supunham: um homem escon~ dido no seu passado. Ou melhor: a fantasia que criara
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em torno de um homem que conhecera h muito ,
tempo atras.
Que coisa boba. Depresso, loucura por um homem que nem sequer sabia mais onde morava, pelo qual se apaixonara perdidamente em sua juventude j que, como todas as
outras moas de sua idade, Zedka era uma pessoa absolutamente normal, e precisava passar pela experincia do Amor Impossvel.
S que, ao contrrio de suas amigas, que apenas sonhavam com o Amor Impossvel, Zedka resolvera ir mais longe: tentaria conquist-lo. Ele morava do outro lado do
oceano, ela vendera tudo para ir ao seu encontro. Ele era casado, ela aceitou o papel de amante, fazendo planos secretos para um dia conquist-lo como marido. Ele
no tinha tempo nem para si mesmo, mas ela resignou-se a passar dias e noites no quarto do hotel barato, esperando suas raras chamadas telefnicas.
Apesar de estar disposta a suportar tudo, em nome do amor, a relao no dera certo. Ele nunca dissera isso diretamente, mas um dia Zedka entendeu que j no era
bem-vinda, e voltara para a Eslo.
vema. Passou alguns meses alimentando-se mal, recordando cada instante que estiveram juntos, revendo milhares de vezes os momentos de alegria e prazer na cama, tentando
descobrir alguma pista que lhe permitisse acreditar no futuro daquela relao. Seus amigos ficaram preocupados, mas algo no corao de Zedka dizia que aquilo era
passageiro: o processo de crescimento de uma pessoa exige certo preo, que ela estava pagando sem reclamar. E assim foi: certa manh
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acordou com uma imensa vontade de viver, alimentou-se como h tempo no fazia, e saiu para arranjar um emprego.
Conseguiu no apenas o emprego, mas as atenes de um jovem bonito, inteligente, cortejado por muitas mulheres. Um ano depois, estava casada com ele. 
Despertou a inveja e o aplauso das amigas. Os dois foram morar numa casa confortvel, com o quintal dando para o rio que cruza Lubljana. Tiveram filhos, e viajavam
para a Austria ou para a Itlia durante o vero.
Quando a Eslovnia resolveu separar-se da Iugoslvia, ele fora convocado para o exrcito. Zedka era srvia - ou seja, "o inimigo" - e sua vida ameaou entrar em
colapso. Nos dez dias de tenso que se seguiram, com as tropas prontas para enfrentar-se e ningum sabendo direito qual o resultado da declarao de independncia,
e o sangue que precisava ser derramado por causa dela - Zedka deu-se conta do seu amor. Passava o tempo inteiro rezando para um Deus que at ento lhe parecera distante,
mas que agora era a sua nica sada: prometeu aos santos e anjos qualquer coisa para ter seu marido de volta.
E assim foi. Ele retornou, os filhos puderam ir a escolas que ensinavam o idioma esloveno, e a ameaa de guerra moveu-se para a vizinha repblica da Crocia.
Trs anos se passaram. A guerra da Iugoslvia com a Crocia moveu-se para a Bsnia, e comearam a aparecer denncias de massacres cometidos pelos
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srvios. Zedka achava aquilo injusto - julgar crimi- , nosa toda uma nao, por causa dos desvarios de al
guns alucinados. Sua vida passou a ter um sentido que nunca esperara: defendeu com orgulho e bravura o seu povo - escrevendo em jornais, aparecendo na televiso,
organizando conferncias. Nada daquilo dera resultado, e at hoje os estrangeiros ainda pensavam que
, todos os srvios eram responsveis pelas atrocidades
mas Zedka sabia que tinha cumprido seu dever, e no , abandonara seus irmos numa hora difcil. Para isso contara com o apoio do marido esloveno, dos filhos, e das
pessoas que no eram manipuladas pelas mquinas de propaganda de ambos os lados.
Uma tarde, passou diante da esttua de Preeren ,
o grande poeta esloveno, e comeou a pensar sobre sua vida. Aos 34 anos, ele entrara certa vez numa igreja e vira uma moa adolescente, Julia Primic, pela qual ficara
perdidamente apaixonado. Como os antigos menestris, comeou a Ihe escrever poemas, na esperana de casar-se com ela.
Acontece que Julia era filha de uma famlia da alta burguesia, e - afora aquela viso fortuita dentro da igreja - Preeren nunca mais conseguiu chegar perto dela.
Mas aquele encontro inspirou seus melhores versos, e criou a lenda em torno do seu nome. Na pequena praa central de Lubljana, a esttua do poeta mantm os olhos
fixos em uma direo: quem seguir seu olhar, descobrir - do outro lado da praa - um rosto de mulher esculpido na parede de uma das casas. Era ali que morava Julia;
Preeren, mesmo de
G5
pois de morto, contempla para a eternidade o seu amor impossvel.
E se ele tivesse lutado mais?
O corao de Zedka disparou - talvez fosse o pressentimento de algo ruim, um acidente com seus filhos. Voltou correndo para casa: eles estavam assistindo televiso
e comendo pipocas.
A tristeza, porm, no passou. Zedka deitou-se, dormiu quase 12 horas, e - quando acordou - no teve vontade de levantar-se. A histria de Preseren trouxera de volta
a imagem daquele seu primeiro amante, de cujo destino nunca mais tivera notcias.
E Zedka se perguntava: eu insisti o suficiente? Deveria ter aceito o papel da amante, ao invs de querer que as coisas andassem segundo minhas prprias expectativas?
Lutei por meu primeiro amor com a mesma garra com que lutei por meu povo?
Zedka convenceu-se que sim, mas a tristeza no passava. O que antes lhe parecia o paraso - a casa perto do rio, o marido a quem amava, os filhos comendo pipoca
diante da televiso - comeou a transformar-se num inferno.
Hoje, depois de muitas viagens astrais e muitos encontros com espritos desenvolvidos, Zedka sabia que tudo aquilo era bobagem. Usara o seu Amor Impossvel como
uma desculpa, um pretexto para romper os laos com a vida que levava, e que estava longe de ser aquilo que verdadeiramente esperava de si mesma.
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Mas, doze meses atrs, a situao era outra: ela comeou a procurar freneticamente o homem distante, gastara fortunas com chamadas internacionais, mas ele j no
morava na mesma cidade, e foi impossvel localiz-lo. Mandou cartas por correio expresso, que acabavam sendo devolvidas. Ligou para todas as amigas e amigos que
o conheciam, e ningum tinha a menor idia do que lhe acontecera.
Seu marido no sabia de nada, e isto a levava  loucura - porque ele devia pelo menos suspeitar de algo, fazer uma cena, queixar-se, ameaar deix-la no meio da
rua. Passou a ter certeza de que as telefonistas internacionais, os correios, as amigas tinham sido subornadas por ele - que fingia indiferena. Vendeu as jias
que ganhara de casamento e comprou uma passagem para o outro lado do oceano, at que algum a convenceu que as Amricas formavam um territrio imenso e no adiantava
ir sem ter certeza de aonde chegar.
Certa tarde ela deitou-se, sofrendo por amor como nunca sofrera antes - nem mesmo quando tivera que voltar para o aborrecido cotidiano de Lubljana. Passou aquela
noite, e todo o dia seguinte no quarto. E mais outro. No terceiro, seu marido chamou um mdico - como era bondoso! Quanta preocupao por ela! Ser que este homem
no entendia que Zedka estava tentando se encontrar com outro, cometer adultrio, trocar sua vida de mulher respeitada pela de uma simples amante escondida, deixar
Lubljana, sua casa, seus filhos, para sempre?
O mdico chegou, ela teve um ataque nervoso, fechou a porta com a chave - e s tornou a abri-la quando ele foi embora. Uma semana depois, no tinha vontade nem de
ir ao banheiro, e passou a fazer suas
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necessidades fisiolgicas na cama. J no pensava mais, a cabea estava completamente tomada pelos fragmentos de memria do homem que - estava convencida - tambm
a buscava sem conseguir encontr-la.
O marido - irritantemente generoso - trocava os lenis, passava a mo na sua cabea, dizia que tudo ia terminar bem. Os filhos no entravam no quarto desde que
ela esbofeteara um deles sem nenhum motivo - e depois ajoelhara-se, beijara seus ps implorando desculpas, rasgando a camisola em pedaos para mostrar seu desespero
e arrependimento.
Depois de outra semana - em que cuspira a comida que lhe era oferecida, entrara e sara desta realidade vrias vezes, passara noites inteiras em claro e dias inteiros
dormindo, dois homens entraram no seu quarto sem bater. Um deles segurou-a, outro aplicou uma injeo, e ela acordara em Villete.
"Depresso", ela escutara o mdico dizer ao seu marido. "As vezes provocada pelos motivos mais banais. Falta um elemento qumico, a serotonina, em seu organismo.
GS
Do teto da enfermaria, Zedka viu  enfermeiro chegar com uma seringa na mo. A arota conti
nuava ali, parada, tentando conversar com seu corpo, desesperada com seu olhar vazio. Por alguns momentos, Zedka considerou a possibilidade de contar para ela tudo
o que estava acontecendo, mas depois mudou de idia; as pessoas nunca aprendem nada que lhes  contado, precisam descobrir por si mesmas.
O enfermeiro colocou a agulha no seu brao, e injetou glicose. Como se tivesse sido puxado por um ,
enorme brao, seu esprito saiu do teto da enfermaria passou em alta velocidade por um tnel negro, e retornou ao corpo.
- Ol, Veronika.
A menina tinha um ar apavorado. - Voc est bem?
- Estou. Felizmente consegui escapar deste perigoso tratamento, mas isso no ir se repetir mais. - Como voc sabe? Aqui, no respeitam ningum.
Zedka sabia porque fora, em corpo astral, at o escritrio do Dr. Igor.
- Eu sei, mas no tenho como explicar. Lembrase da primeira pergunta que Ihe fiz?
- "O que  um louco?"
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- Exatamente. Desta vez vou lhe responder sem fbulas: a loucura  a incapacidade de comunicar suas idias. Como se voc estivesse num pas estrangeiro vendo tudo,
entendendo o que se passa a sua volta, mas incapaz de se explicar e de ser ajudada, porque no entende a lngua que falam ali.
- Todos ns j sentimos isso.
- Todos ns, de um jeito ou de outro, somos loucos.
o
#

Do lado de fora da janela gradeada, o cu estava coberto de estrelas, com uma lua em quarto cres
cente subindo por trs das montanhas. Os poetas gostavam da lua cheia, escreviam milhares de versos sobre ela, mas Veronika era apaixonada por aquela meia-lua, porque ainda havia espao para aumentar,
, expandir-se, preencher de luz toda a sua superfcie
antes da inevitvel decadncia.
Teve vontade de ir at o piano na sala de estar, e celebrar aquela noite com uma linda sonata que aprendera no colgio; olhando o cu, tinha uma indescritvel sensao de bem-estar, como se o infinito do Universo mostrasse tambm sua prpria eternidade. Mas estava separada de seu desejo por uma porta de ao, e uma mulher que nunca terminava de ler o seu livro. Alm do mais, ningum tocava piano quela hora da noite - terminaria acordando a vizinhana
mteira. Veronika riu. A "vizinhana" eram as enfermarias
repletas de loucos, estes loucos, por sua vez, repletos de remdios para dormir.
A sensao de bem-estar, entretanto, continuava. Levantou-se e foi at o leito de Zedka, mas ela estava dormindo profundamente, talvez para recuperar-se da horrvel experinia pela qual passara.
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- Volte para a cama - disse a enfermeira. Meninas boas esto sonhando com os anjinhos ou os namorados.
- No me trate como criana. No sou uma louca mansa, que tem medo de tudo. Sou furiosa, tenho ataques histricos, no respeito nem minha vida, nem a vida dos outros. Hoje, ento, estou atacada. Olhei a lua, e quero conversar com algum.
A enfermeira olhou-a, surpresa com a reao. - Voc tem medo de mim? - insistiu Veronika. - Faltam um ou dois dias para a minha morte, o que tenho a perder?
- Por que voc no vai dar um passeio, mocinha, e me deixa terminar o livro?
- Porque existe uma priso, e uma carcereira, que finge ler um livro, apenas para mostrar aos outros que  uma mulher inteligente. Na verdade, porm, ela est atenta a cada movimento dentro da enfermaria, e guarda as chaves da porta como se fossem um tesouro. O regulamento deve dizer isso, e ela obedece, porque assim pode mostrar a autoridade que no tem em sua vida diria, com seu marido e filhos.
Veronika tremia, sem entender direito por qu. - Chaves? - perguntou a enfermeira. -A porta est sempre aberta. Imagine se vou ficar aqui dentro
, trancada com um bando de doentes mentais!
"Como a porta est aberta? H alguns dias eu quis sair daqui, e esta mulher foi at o banheiro me vigiar. O que ela est dizendo?"
- No me leve a srio - continuou a enfermeira. - O fato  que no precisamos de muito controle,
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por causa dos comprimidos para dormir. Voc est tremendo de frio?
- No sei. Acho que deve ser coisa do meu corao.
- Se quiser, v dar o seu passeio.
- Na verdade, o que eu gostaria mesmo era tocar piano.
- A sala de estar  isolada, e seu piano no perturbaria ningum. Faa o que tiver vontade.
O tremor de Veronika transformou-se em soluos baixos, tmidos, contdos. Ela ajoelhou-se, e colocou a cabea no colo da mulher, chorando sem parar.
A enfermeira deixou o livro, acariciou seus cabelos, deixando que a onda de tristeza e pranto fosse embora naturalmente. Ali ficaram as duas, por quase meia hora: uma que chorava sem dizer por que, outra que consolava sem saber o motivo.
Os soluos finalmente terminaram. A enfermeira levantou-a, pegou-a pelo brao, e conduziu-a at a porta.
- Tenho uma filha da sua idade. Quando voc chegou aqui, cheia de soros e tubos, fiquei imaginando por que uma moa bonita, jovem, que tem a vida pela frente, resolve matar-se.
"Logo comearam a correr histrias: a carta que deixou - e que nunca acreditei ser o real motivo e os dias contados por causa de um problema incurvel no corao. A imagem da minha filha no saa de minha cabea: e se ela resolve fazer alguma coisa igual? Por que certas pessoas tentam ir contra a ordem natural da vida - que  lutar para sobreviver de qualquer maneira?
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- Por isso eu estava chorando - disse Veronika. - Quando tomei os comprimidos, eu queria matar algum que detestava. No sabia que existiam, dentro de mim, outras Veronikas que eu saberia amar.
- O que faz uma pessoa detestar a si mesma? - Talvez a covardia. Ou o eterno medo de estar errada, de no fazer o que os outros esperam. H alguns minutos estava alegre, esqueci minha sentena de morte; quando voltei a entender a situao em que me encontro, fiquei assustada.
A enfermeira abriu a porta, e Veronika saiu.
Ela no podia ter me perguntado isso. O que ela quer, entender por que eu chorei? Ser que no sabe que sou uma pessoa absolutamente normal, com desejos e medos comuns a todo mundo, e que este tipo de pergunta - agora que j  tarde - pode me fazer entrar em pnico?
Enquanto caminhava pelos corredores, iluminados pela mesma lmpada fraca que vira na enfermaria, Veronika se dava conta de que era tarde demais: j no conseguia controlar seu medo.
Preciso me controlar. Sou algum que leva at o fim qualquer coisa que decide fazer."
Era verdade que levara at as ltimas conseqncias muitas coisas em sua vida, mas s o que no era importante - como prolongar brigas que um pedido de desculpa resolveria, ou deixar de lgar para um homem pelo qual estava apaixonada, por achar que aquela relao no ia levar a nada. Fora intransigente justamente naquilo que era mais fcil: mostrar para si mesma sua fora e indiferena, quando na verdade era
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uma mulher frgil, que jamais conseguira destacar-se nos estudos, nas competies esportivas de sua escola, na tentativa de manter a harmonia em seu lar.
Superara os seus defeitos simples, s para ser derrotada nas coisas importantes e fundamentais. Conseguia passar a aparncia da mulher independente
, quando necessitava desesperadamente de uma companhia. Chegava nos lugares. e todos a olhavam, mas geralmente terminava a noite sozinha, no convento, olhando a televiso que nem sequer sintonizava os canais direito. Dera a todos os seus amigos a impresso de ser um modelo que eles deviam invejar - e gastara o melhor de suas energias tentando se comportar  altura da imagem que criara para si mesma.
Por causa disso, nunca lhe sobraram foras para ser ela mesma- uma pessoa que, como todas as outras do mundo, necessitava dos outros para ser feliz. Mas os outros eram to difceis! Tinham reaes imprevisveis, viviam cercados de defesas, comportavam-se tambm como ela, mostrando indiferena a tudo. Quando chegava algum mais aberto para a vida, ou o rejeitavam imediatamente, ou o faziam sofrer, considerando-o inferior e "ingnuo".
Muito bem: podia ter impressionado muita gente com sua fora e determinao, mas aonde havia chegado? No vazio. Na solido completa. Em Villete. Na ante-sala da morte.
O remorso pela tentativa de suicdio voltou, e Veronika tornou a afast-lo com firmeza. Porque agora estava sentindo algo que nunca se permitira: dio.
dio. Algo quase to fsico como paredes, ou pianos, ou enfermeiras - ela quase podia tocar a energia destruidora que saa do seu corpo. Deixou que
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o sentimento vesse, sem se preocupar se era bom ou no - bastava de autocontrole, de mscaras, de posturas convenientes, Veronika agora queria passar seus dois ou trs dias de vida sendo a mais inconveniente possvel.
Comeara dando um tapa no rosto de um homem mais velho, tivera um ataque com o enfermeiro, recusara-se a ser simptica e conversar com os outros quando queria ficar sozinha, e agora era livre o suficiente para sentir dio - embora esperta o bastante para no comear a quebrar tudo a sua volta, e ter que passar o final de sua vida sob o efeito de sedativos, , numa cama da enfermaria.
Odiou tudo o que pde naquele momento. A si mesma, o mundo, a cadeira que estava na sua frente, a calefao quebrada num dos corredores, as pessoas perfeitas, os criminosos. Estava internada num hospcio, e podia sentir cosas que os seres humanos escondem de si mesmos - porque somos todos educados apenas para amar, aceitar, tentar descobrir uma sada, evitar o conflito. Veronika odiava tudo, mas odiava principalmente a maneira como conduzira sua vida - sem jamais descobrir as centenas de outras Veronikas que habitavam dentro dela, e que eram interessantes, loucas, curiosas, corajosas, arriscadas.
Em dado momento, comeau a sentir dio tambm pela pessoa que mais amava no mundo: sua me. A excelente esposa que trabalhava de dia e lavava os pratos de noite, sacrificando sua vida para que a filha tivesse uma boa educao, soubesse tocar piano e violino, se vestisse como uma princesa, comprasse os tnis e calas de marca, enquanto ela remendava o velho vestido que usava h anos.
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" "Como posso odiar quem apenas me deu amor?
, pensava Veronika, confusa, e querendo corrigir seus sentimentos. Mas j era tarde demais, o dio estava solto
, ela abrira as portas do seu inferno pessoal. Odiava o amor que Ihe tinha sido dado - porque no pedia nada em troca- o que  absurdo, irreal, contra as leis da natureza.
O amor que no pedia nada em troca consegia ench-la de culpa, de vontade de corresponder s suas expectativas, mesmo que isso significasse abrir mo de tudo que sonhara para si mesma. Era um amor que tentara Ihe esconder, durante anos, os desafios e a podrido do mundo - ignorando que um dia ela iria se dar conta disso, e no teria defesas para enfrent-los.
E seu pai? Odiava seu pai, tambm. Porque, ao contrrio de sua me que trabalhava o tempo todo, ele sabia viver, a levava aos bares e ao teatro, divertiam-se juntos, e quando ainda era jovem ela o amara em segredo, no como se ama um pai, mas um homem. Odiava-o porque ele fora sempre to encantador e to aberto com todo mundo - menos com sua me, a nica que realmente merecia o melhor.
Odiava tudo. A biblioteca com seu monte de livros cheios de explicaes sobre a vida, o colgio onde fora obrigada a gastar noites inteiras aprendendo lgebra, embora no conhecesse nenhuma pessoa - exceto os professores e matemticos - que precisasse de lgebra para ser mais feliz. Por que Ihe tinham feito estudar tanto lgebra, ou geometria, ou aquela montanha de coisas absolutamente inteis?
Veronika empurrou a porta da sala de estar, chegou diante do piano, abriu sua tampa, e - com
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toda a fora - bateu com as mos no teclado. Urri acorde louco, sem nexo, irritante, ecoando pelo ambiente vazio, batendo nas paredes, voltando aos seus ouvidos sob a forma de um rudo agudo, que parecia arranhar sua alma. Mas isso era o melhor retrato de sua alma naquele momento.
Tornou a bater com as mos, e mais uma vez as notas dissonantes reverberaram por toda parte.
Sou louca. Posso fazer isso. Posso odiar, e posso espancar o piano. Desde quando os doentes mentais sabem colocar as notas em ordem?
Bateu no piano uma, duas, dez, vinte vezes - e a cada vez que fazia isso, seu dio parecia diminuir, at que passou por completo.
Ento, novamente, uma profunda paz inundoua, e Veronika tornou a olhar o cu estrelado, com a lua em quarto crescente - sua favorita - enchendo de luz suave o lugar onde se encontrava. Veio de novo a sensao de que Infinito e Eternidade andavam de mos dadas, e bastava contemplar um deles - como o Universo sem limites - para notar a presena do outro, o Tempo que no termina nunca, que no passa, que permanece no Presente, onde esto todos os segredos da vida. Entre a enfermaria e a sala ela fora capaz de odiar, to forte  to intensamente, que no Ihe sobrara nenhum rancor no corao. Deixara que seus sentimentos negativos, represados durante anos em sua alma, viessem finalmente  tona. Ela os tinha
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sentido, e agora no eram mais necessrios - podiam partir.
Ficou em silncio, vivendo seu momento Presente, deixando que o amor ocupasse o espao vazio que 0 dio deixara. Quando sentiu que chegara o momento, virou-se para a lua e tocou uma sonata em sua homenagem - sabendo que ela a escutava, ficava orgulhosa, e isto provocava cimes nas estrelas. Tocou ento uma msica para as estrelas, outra para o jardim, e uma terceira para as montanhas que no podia ver de noite, mas sabia que estavam l.
No meio da msica para o jardim, outro louco apareceu - Eduard, um esquizofrnico que estava alm da possibilidade de cura. Ela no se assustou com sua presena: ao contrrio, sorriu, e para sua surpresa ele sorriu de volta.
Tambm no seu mundo distante, mais distante do que a lua, a msica era capaz de penetrar e fazer milagres.
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enho que comprar um novo chaveiro", pensava o Dr. I or, en uanto abria a orta do seu e
g q P P queno consultrio no Sanatrio de Villete. O antigo estava caindo aos pedaos, e o pequeno escudo de metal que o enfeitava acabara de cair no cho.
Dr. Igor abaixou-se e pegou-o. O que iria fazer 3
com este escudo, mostrando o braso de Lubljana? Melhor jogar fora. Mas podia mandar consert-lo pedindo que fizessem uma nova ala de couro - ou podia d-lo a seu neto, para brincar. Ambas as alternativas Ihe pareceram absurdas; um chaveiro custava muito barato, e seu neto no tinha o menor interesse em escudos - passava o tempo todo vendo televiso, ou divertindo-se com jogos eletrnicos importados da Itlia. Mesmo assim, no jogou fora; colocou-o no bolso, para decidir mais tarde o que fazer com ele.
Por isso era um diretor de sanatrio, e no um doente; porque refletia muito antes de tomar qualquer atitude.
Acendeu a luz - amanhecia cada vez mais tarde,  medida que avanava o inverno. A ausncia de luz, assim como as mudanas de casa ou os divrcios eram os principais responsveis pelo aumento do nmero de casos de depresso. Dr. Igor torcia para que a pri
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mavera chegasse logo, e resolvesse metade dos seus problemas.
Olhou a agenda do dia. Precisava estudar algumas medidas para no deixar que Eduard morresse de fome; sua esquizofrenia fazia com que fosse imprevisvel, e agora ele deixara de comer por completo. Dr. Igor j receitara alimentao intravenosa, mas no podia manter aquilo para sempre; Eduard tinha 28 anos, era forte, e mesmo com o soro ia terminar definhando, ficando com aspecto esqueltico.
Qual seria a reao do pai de Eduard, um dos mais conhecidos embaixadores da jovem repblica eslovena, um dos artfices das delicadas negociaes com a Iugoslvia, no comeo dos anos 90? Afinal, este homem havia conseguido trabalhar durante anos para Belgrado, sobrevivera aos seus detratores - que o acusavam de haver servido ao inimigo - e continuava no corpo diplomtico, s que desta vez representando um pas diferente. Era um homem poderoso e influente, temido por todos.
Dr. Igor se preocupou um instante - como antes se preocupara com o escudo do chaveiro - mas logo afastou o pensamento da cabea: para o embaixador, tanto fazia que seu filho tivesse uma boa ou m aparncia; no pretendia lev-lo a festas oficiais, ou fazer com que o acompanhasse pelos lugares do mundo para onde era designado como representante do Governo. Eduard estava em Villete - e ali continuaria para sempre, ou pelo tempo que o pai continuasse ganhando aqueles salrios enormes.
Dr. Igr decidiu que retiraria a alimentao intravenosa, e deixaria Eduard definhar mais um pouco, at que tivesse, por ele mesmo, vontade de comer. Se
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a situao piorasse, faria um relatrio e passaria a responsabilidade ao conselho de mdicos que administrava Villete. "Se voc no quiser entrar em apuros, sempre divida a responsabilidade", lhe ensinara seu pai, tambm ele um mdico que tivera vrias mortes em suas mos, mas nenhum problema com as autoridades.
Uma vez receitada a interrupo do medicamento de Eduard, Dr. Igor passou para o prximo caso: o relatrio dizia que a paciente Zedka Mendel j terminara seu perodo de tratamento, e podia receber alta. Dr. Igor queria conferir com seus prprios olhos: afinal, nada pior para um mdico que receber reclamaes da famlia dos doentes que passavam por Villete. E isso quase sempre acontecia - depois de um perodo num hospital para doentes mentais, raramente um paciente conseguia adaptar-se novamente  vida normal.
No era culpa do sanatrio. Nem de nenhum de todos os sanatrios espalhados-s o bom Deus sabia - pelos quatro cantos do mundo, onde o problema de readaptao dos internos era exatamente igual. Assim como a priso nunca corrigia o preso - apenas o ensinava a cometer mais crimes, os sanatrios faziam com que os doentes se acostumassem com um mundo totalmente irreal, onde tudo era permitido, e ningum precisava ter responsabilidade por seus atos.
De modo que s restava uma sada: descobrir a cura para a Insanidade. E o Dr. Igor estava empenhado nisso at a raiz dos cabelos, desenvolvendo uma tese que iria revolucionar o meio psiquitrico. Nos asilos, os doentes provisrios em convivncia com pacientes
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irrecuperveis iniciavam um processo de degenerao social, que, uma vez comeado, era impossvel detlo. A tal Zedka Mendel terminaria voltando ao hospital - desta vez por vontade prpria, queixando-se de males inexistentes, s para estar perto de pessoas que pareciam compreend-la melhor que o mundo l fora.
Se ele descobrisse, porm, como combater o Vitrolo - para o Dr. Igor, o veneno responsvel pela loucura - seu nome entraria para a Histria, e a Eslovnia seria definitivamente colocada no mapa. Naquela semana, uma chance cada dos cus aparecera, sob a forma de uma suicida potencial; ele no estava disposto a desperdiar esta oportunidade por nenhum dinheiro do mundo.
Dr. Igor ficou contente. Embora, por razes econmicas, ainda fosse obrigado a aceitar tratamentos que h muito tinham sido condenados pela medicina - como o choque de insulina- tambm por motivos financeiros, Villete estava inovando o tratamento psiquitrico. Alm de possuir tempo e elementos para a pesquisa do Vitrolo, ele ainda contava com o apoio dos donos para manter no asilo o grupo chamado de "A Fraternidade". Os acionistas da instituio tinham permitido que fosse tolerada - note bem, no encorajada, mas tolerada - uma internao maior do que o tempo necessrio. Eles argumentavam que, por razes humanitrias, devia-se dar ao recm-curado a opo de decidir qual o melhor momento de reintegrar-se ao mundo, e isso permitira que um grupo de pessoas resolvesse permanecer em Villete, como em
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um hotel seletivo, ou um clube onde se renem aqueles que tm algumas afinidades em comum. Assim, o Dr. Igor conseguia manter loucos e sos no mesmo ambiente, fazendo com que os ltimos influenciassem positivamente os primeiros. Para evitar que as coisas degenerassem - e os loucos terminassem contagiando negativamente os que tinham sido curados, todo membro da Fraternidade devia sair do sanatrio pelo menos uma vez por dia.
Dr. Igor sabia que os motivos dados pelos acionistas para permitir a presena de pessoas curadas no asilo "razes humanitrias", diziam - eram apenas uma
desculpa. Eles tinham medo de que Lubljana, a pequena e charmosa capital da Eslovnia, no tivesse um nmero suficiente de loucos ricos, capazes de sustentar toda aquela estrutura cara e moderna. Alm do mais, o sistema de sade pblica contava com asilos de primeira qualidade, o que deixava Villete em situao de desvantagem diante do mercado de problemas mentais.
Quando os acionistas transformaram o antigo quartel em sanatrio, tinham como pblico alvo os possveis homens e mulheres afetados pela guerra com a Iugoslvia. Mas a guerra durara muito pouco. Os acionistas apostaram que a guerra ia voltar, mas no voltou.
Depois, em recente pesquisa, descobriram que as guerras faziam suas vtimas mentais, mas em escala muito menor que a tenso, o tdio, as enfermidades congnitas, a solido e a rejeio. Quando uma coletividade tinha um grande problema para enfrentar como no caso de uma guerra, ou de uma hiperinflao, ou de uma peste - notava-se um pequeno aumento
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no nmero de suicdios, mas uma grande diminuio nos casos de depresso, parania, psicoses. Estes voltavam a seus ndices normais logo que tal problema havia sido ultrapassado, indicando - assim entendia o Dr. Igor - que o ser humano s se d ao luxo de ser louco quando tem condies para isso.
Diante de seus olhos, estava outra pesquisa recente, desta vez vinda do Canad - eleito recentemente por um jornal americano como o pas do mundo onde o nvel de vida era mais elevado. O Dr. Igor leu:
* De acordo com a Statistics Canada, j sofreram algum tipo de doena mental:
40% das pessoas entre l5 e 34 anos; 33% das pessoas entre 35 e 54 anos; 20 % das pessoas entre 55 e 64 anos.
* Estima-se que um em cada cinco indivduos sofra algum tipo de desordem psiquitrica.
* Um em cada oiro canadenses ser hospitalizado por distrbios mentais pelo menos uma vez na vida.
"Excelente mercado, melhor que aqui", pensou. "Quanto mais felizes as pessoas podem ser, mais infelizes ficam.
Dr. Igor analisou mais alguns casos, ponderando cuidadosamente sobre os que devi dividir com o Conselho, e os que podia resolver sozinho. Quando terminou, o dia j tinha raiado por completo, e ele apagou a luz.
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Em seguida mandou entrar a primeira visita - a me da tal paciente que tentara o suicdio.
- Sou a me de Veronika. Qual o estado de minha filha?
O Dr. Igor pensou se devia dizer a verdade, e poup-la de surpresas inteis - afinal de contas, tinha uma filha com o mesmo nome. Mas decidiu que era melhor ficar calado.
- Ainda no sabemos - mentiu. - Precisamos de mais uma semana.
- No sei por que Veronika fez isso - dizia a mulher a sua frente, em prantos. - Ns samos pais carinhosos, tentamos dar a ela,  custa de muito sacrifcio, a melhor educao possvel. Embora tivssemos nossos problemas conjugais, mantivemos nossa famlia unida, como exemplo de perseverana diante das adversidades. Ela tem um bom emprego, no  feia, e mesmo assim...
- ... e mesmo assim tentou matar-se - interrompeu o Dr. Igor. - No fique surpresa, minha senhora,  assim mesmo. As pessoas so incapazes de entender a felicidade. Se desejar, posso Ihe mostrar as estatsticas do Canad.
- Canad?
A mulher olhou-o com surpresa. Dr. Igor viu que havia conseguido distra-la, e continuou.
- Veja bem: a senhora vem at aqui no para saber como vai sua. filha, mas para desculpar-se pelo fato de que ela tentou cometer suicdio. Quantos anos ela tem?
- Vinte e quatro.
SG
- Ou sja: uma mulher madura, vivida, que j sabe bem o que deseja, e  capaz de fazer suas escolhas. O que isso tem a ver com seu casamento, ou com o sacrifcio que a senhora e seu marido fizeram? H quanto tempo ela mora sozinha?
- Seis anos.
- Est vendo? Independente at a raiz da alma. Mesmo assim, porque um mdico austraco - Dr. Sigmund Freud, tenho certeza que a senhora j ouviu falar dele - escreveu sobre estas relaes doentias entre pais e filhos, at hoje todo mundo se culpa de tudo. Os ndis acham que o filho que se tornou assassino  uma vtima da educao de seus pais? Responda.
- No tenho a menor idia - respondeu a mulher, cada vez mais surpresa com o mdico. Talvez ele tivesse sido contagiado pelos prprios pacientes.
- Pois eu vou lhe dizer a resposta - disse o Dr. Igor. - Os ndios acham que o assassino  culpado, e no a sociedade, nem seus pais, nem seus antepassados. Os japoneses cometem suicdio porque um filho deles resolveu se drogar e sair atirando? A resposta tambm  a mesma: No! E olha que, segundo me consta, os japoneses cometem suicdio por qualquer motivo; outro dia mesmo li uma notcia de que um jovem se matou porque no conseguiu passar no vestibular.
- Ser que eu posso falar com a minha filha? perguntou a mulher, que no estava interessada em japoneses, ndios ou canadenses.
- J, j - disse o Dr. Igor, meio irritado com a interrupo. - Mas antes, eu quero que a senhora entenda utria coisa: afora alguns casos patolgicos graves, as pessoas enlouquecem quando tentam fugir da rotina. A senhora entendeu?
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- Entendi muito bem - respondeu. - E se o senhor est achando que no serei capaz de cuidar dela pode ficar tranqilo: nunca tentei mudar a minha vida.
- Que bom - o Dr. Igor mostrava um certo alvio. -A senhora j imaginou um mundo onde, por exemplo, no fssemos obrigados a repetir todos os dias de nossas vidas a.mesma coisa? Se resolvssemos, por exemplo, comer s na hora em que tivssemos fome: como as donas de casa e os restaurantes se organizariam?
"Seria mais normal comer s quamdo estivssemos com fome", penso a mulher, que no disse nada, com medo que lhe proibissem falar com Veronika.
- Seria uma confuso muito grande - disse ela. - Eu sou dona de casa, e sei do que est falando.
- Ento temos o caf da manh, o almoo, o jantar. Temos que acordar em determinada hora todos os dias, e descansar uma vez por semana. Existe o Natal para dar presentes, a pscoa para passar trs dias no lago. A senhora ficaria contente se o seu marido, s porque foi tomado de um sbito impulso de paixo, resolvesse fazer amor na sala?
"De que este homem est falando? Eu vim aqui ver minha filha!"
- Ficaria triste - respondeu ela, com todo cuidado, esperando ter acertado.
- Muito bem - bradou o Dr. Igor. - Lugar de fazer amor  na cama. Seno, estaremos dando mau exemplo e disseminando a anarquia.
- Posso ver minha filha? - interrompeu a mulher. O Dr. Igor resignou-se; esta camponesa nunca ia entender do que estava falando, no estava interessada em discutir a loucura do ponto de vista filosfico
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mesmo sabendo que sua filha tentara o suicdio para valer, e entrara em coma.
Tocou uma campainha, e sua secretria apareceu. - Mande chamar a moa do suicdio - disse. - Aquela da carta aos jornais, dizendo que se matava para mostrar onde era a Eslovnia.
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Do lado de fora da janela gradeada, o cu estava coberto de estrelas, com uma lua em quarto cres
cente subindo por trs das montanhas. Os poetas gostavam da lua cheia, escreviam milhares de versos sobre ela, mas Veronika era apaixonada por aquela meia-lua, porque
ainda havia espao para aumentar,
, expandir-se, preencher de luz toda a sua superfcie
antes da inevitvel decadncia.
Teve vontade de ir at o piano na sala de estar, e celebrar aquela noite com uma linda sonata que aprendera no colgio; olhando o cu, tinha uma indescritvel sensao
de bem-estar, como se o infinito do Universo mostrasse tambm sua prpria eternidade. Mas estava separada de seu desejo por uma porta de ao, e uma mulher que nunca
terminava de ler o seu livro. Alm do mais, ningum tocava piano quela hora da noite - terminaria acordando a vizinhana
mteira. Veronika riu. A "vizinhana" eram as enfermarias
repletas de loucos, estes loucos, por sua vez, repletos de remdios para dormir.
A sensao de bem-estar, entretanto, continuava. Levantou-se e foi at o leito de Zedka, mas ela estava dormindo profundamente, talvez para recuperar-se da horrvel
experinia pela qual passara.
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- Volte para a cama - disse a enfermeira. Meninas boas esto sonhando com os anjinhos ou os namorados.
- No me trate como criana. No sou uma louca mansa, que tem medo de tudo. Sou furiosa, tenho ataques histricos, no respeito nem minha vida, nem a vida dos outros.
Hoje, ento, estou atacada. Olhei a lua, e quero conversar com algum.
A enfermeira olhou-a, surpresa com a reao. - Voc tem medo de mim? - insistiu Veronika. - Faltam um ou dois dias para a minha morte, o que tenho a perder?
- Por que voc no vai dar um passeio, mocinha, e me deixa terminar o livro?
- Porque existe uma priso, e uma carcereira, que finge ler um livro, apenas para mostrar aos outros que  uma mulher inteligente. Na verdade, porm, ela est atenta
a cada movimento dentro da enfermaria, e guarda as chaves da porta como se fossem um tesouro. O regulamento deve dizer isso, e ela obedece, porque assim pode mostrar
a autoridade que no tem em sua vida diria, com seu marido e filhos.
Veronika tremia, sem entender direito por qu. - Chaves? - perguntou a enfermeira. -A porta est sempre aberta. Imagine se vou ficar aqui dentro
, trancada com um bando de doentes mentais!
"Como a porta est aberta? H alguns dias eu quis sair daqui, e esta mulher foi at o banheiro me vigiar. O que ela est dizendo?"
- No me leve a srio - continuou a enfermeira. - O fato  que no precisamos de muito controle,
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por causa dos comprimidos para dormir. Voc est tremendo de frio?
- No sei. Acho que deve ser coisa do meu corao.
- Se quiser, v dar o seu passeio.
- Na verdade, o que eu gostaria mesmo era tocar piano.
- A sala de estar  isolada, e seu piano no perturbaria ningum. Faa o que tiver vontade.
O tremor de Veronika transformou-se em soluos baixos, tmidos, contdos. Ela ajoelhou-se, e colocou a cabea no colo da mulher, chorando sem parar.
A enfermeira deixou o livro, acariciou seus cabelos, deixando que a onda de tristeza e pranto fosse embora naturalmente. Ali ficaram as duas, por quase meia hora:
uma que chorava sem dizer por que, outra que consolava sem saber o motivo.
Os soluos finalmente terminaram. A enfermeira levantou-a, pegou-a pelo brao, e conduziu-a at a porta.
- Tenho uma filha da sua idade. Quando voc chegou aqui, cheia de soros e tubos, fiquei imaginando por que uma moa bonita, jovem, que tem a vida pela frente, resolve
matar-se.
"Logo comearam a correr histrias: a carta que deixou - e que nunca acreditei ser o real motivo e os dias contados por causa de um problema incurvel no corao.
A imagem da minha filha no saa de minha cabea: e se ela resolve fazer alguma coisa igual? Por que certas pessoas tentam ir contra a ordem natural da vida - que
 lutar para sobreviver de qualquer maneira?
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- Por isso eu estava chorando - disse Veronika. - Quando tomei os comprimidos, eu queria matar algum que detestava. No sabia que existiam, dentro de mim, outras
Veronikas que eu saberia amar.
- O que faz uma pessoa detestar a si mesma? - Talvez a covardia. Ou o eterno medo de estar errada, de no fazer o que os outros esperam. H alguns minutos estava
alegre, esqueci minha sentena de morte; quando voltei a entender a situao em que me encontro, fiquei assustada.
A enfermeira abriu a porta, e Veronika saiu.
Ela no podia ter me perguntado isso. O que ela quer, entender por que eu chorei? Ser que no sabe que sou uma pessoa absolutamente normal, com desejos e medos
comuns a todo mundo, e que este tipo de pergunta - agora que j  tarde - pode me fazer entrar em pnico?
Enquanto caminhava pelos corredores, iluminados pela mesma lmpada fraca que vira na enfermaria, Veronika se dava conta de que era tarde demais: j no conseguia
controlar seu medo.
Preciso me controlar. Sou algum que leva at o fim qualquer coisa que decide fazer."
Era verdade que levara at as ltimas conseqncias muitas coisas em sua vida, mas s o que no era importante - como prolongar brigas que um pedido de desculpa
resolveria, ou deixar de lgar para um homem pelo qual estava apaixonada, por achar que aquela relao no ia levar a nada. Fora intransigente justamente naquilo
que era mais fcil: mostrar para si mesma sua fora e indiferena, quando na verdade era
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uma mulher frgil, que jamais conseguira destacar-se nos estudos, nas competies esportivas de sua escola, na tentativa de manter a harmonia em seu lar.
Superara os seus defeitos simples, s para ser derrotada nas coisas importantes e fundamentais. Conseguia passar a aparncia da mulher independente
, quando necessitava desesperadamente de uma companhia. Chegava nos lugares. e todos a olhavam, mas geralmente terminava a noite sozinha, no convento, olhando a
televiso que nem sequer sintonizava os canais direito. Dera a todos os seus amigos a impresso de ser um modelo que eles deviam invejar - e gastara o melhor de
suas energias tentando se comportar  altura da imagem que criara para si mesma.
Por causa disso, nunca lhe sobraram foras para ser ela mesma- uma pessoa que, como todas as outras do mundo, necessitava dos outros para ser feliz. Mas os outros
eram to difceis! Tinham reaes imprevisveis, viviam cercados de defesas, comportavam-se tambm como ela, mostrando indiferena a tudo. Quando chegava algum
mais aberto para a vida, ou o rejeitavam imediatamente, ou o faziam sofrer, considerando-o inferior e "ingnuo".
Muito bem: podia ter impressionado muita gente com sua fora e determinao, mas aonde havia chegado? No vazio. Na solido completa. Em Villete. Na ante-sala da
morte.
O remorso pela tentativa de suicdio voltou, e Veronika tornou a afast-lo com firmeza. Porque agora estava sentindo algo que nunca se permitira: dio.
dio. Algo quase to fsico como paredes, ou pianos, ou enfermeiras - ela quase podia tocar a energia destruidora que saa do seu corpo. Deixou que
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o sentimento vesse, sem se preocupar se era bom ou no - bastava de autocontrole, de mscaras, de posturas convenientes, Veronika agora queria passar seus dois
ou trs dias de vida sendo a mais inconveniente possvel.
Comeara dando um tapa no rosto de um homem mais velho, tivera um ataque com o enfermeiro, recusara-se a ser simptica e conversar com os outros quando queria ficar
sozinha, e agora era livre o suficiente para sentir dio - embora esperta o bastante para no comear a quebrar tudo a sua volta, e ter que passar o final de sua
vida sob o efeito de sedativos, , numa cama da enfermaria.
Odiou tudo o que pde naquele momento. A si mesma, o mundo, a cadeira que estava na sua frente, a calefao quebrada num dos corredores, as pessoas perfeitas, os
criminosos. Estava internada num hospcio, e podia sentir cosas que os seres humanos escondem de si mesmos - porque somos todos educados apenas para amar, aceitar,
tentar descobrir uma sada, evitar o conflito. Veronika odiava tudo, mas odiava principalmente a maneira como conduzira sua vida - sem jamais descobrir as centenas
de outras Veronikas que habitavam dentro dela, e que eram interessantes, loucas, curiosas, corajosas, arriscadas.
Em dado momento, comeau a sentir dio tambm pela pessoa que mais amava no mundo: sua me. A excelente esposa que trabalhava de dia e lavava os pratos de noite,
sacrificando sua vida para que a filha tivesse uma boa educao, soubesse tocar piano e violino, se vestisse como uma princesa, comprasse os tnis e calas de marca,
enquanto ela remendava o velho vestido que usava h anos.
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" "Como posso odiar quem apenas me deu amor?
, pensava Veronika, confusa, e querendo corrigir seus sentimentos. Mas j era tarde demais, o dio estava solto
, ela abrira as portas do seu inferno pessoal. Odiava o amor que Ihe tinha sido dado - porque no pedia nada em troca- o que  absurdo, irreal, contra as leis da
natureza.
O amor que no pedia nada em troca consegia ench-la de culpa, de vontade de corresponder s suas expectativas, mesmo que isso significasse abrir mo de tudo que
sonhara para si mesma. Era um amor que tentara Ihe esconder, durante anos, os desafios e a podrido do mundo - ignorando que um dia ela iria se dar conta disso,
e no teria defesas para enfrent-los.
E seu pai? Odiava seu pai, tambm. Porque, ao contrrio de sua me que trabalhava o tempo todo, ele sabia viver, a levava aos bares e ao teatro, divertiam-se juntos,
e quando ainda era jovem ela o amara em segredo, no como se ama um pai, mas um homem. Odiava-o porque ele fora sempre to encantador e to aberto com todo mundo
- menos com sua me, a nica que realmente merecia o melhor.
Odiava tudo. A biblioteca com seu monte de livros cheios de explicaes sobre a vida, o colgio onde fora obrigada a gastar noites inteiras aprendendo lgebra, embora
no conhecesse nenhuma pessoa - exceto os professores e matemticos - que precisasse de lgebra para ser mais feliz. Por que Ihe tinham feito estudar tanto lgebra,
ou geometria, ou aquela montanha de coisas absolutamente inteis?
Veronika empurrou a porta da sala de estar, chegou diante do piano, abriu sua tampa, e - com
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toda a fora - bateu com as mos no teclado. Urri acorde louco, sem nexo, irritante, ecoando pelo ambiente vazio, batendo nas paredes, voltando aos seus ouvidos
sob a forma de um rudo agudo, que parecia arranhar sua alma. Mas isso era o melhor retrato de sua alma naquele momento.
Tornou a bater com as mos, e mais uma vez as notas dissonantes reverberaram por toda parte.
Sou louca. Posso fazer isso. Posso odiar, e posso espancar o piano. Desde quando os doentes mentais sabem colocar as notas em ordem?
Bateu no piano uma, duas, dez, vinte vezes - e a cada vez que fazia isso, seu dio parecia diminuir, at que passou por completo.
Ento, novamente, uma profunda paz inundoua, e Veronika tornou a olhar o cu estrelado, com a lua em quarto crescente - sua favorita - enchendo de luz suave o lugar
onde se encontrava. Veio de novo a sensao de que Infinito e Eternidade andavam de mos dadas, e bastava contemplar um deles - como o Universo sem limites - para
notar a presena do outro, o Tempo que no termina nunca, que no passa, que permanece no Presente, onde esto todos os segredos da vida. Entre a enfermaria e a
sala ela fora capaz de odiar, to forte  to intensamente, que no Ihe sobrara nenhum rancor no corao. Deixara que seus sentimentos negativos, represados durante
anos em sua alma, viessem finalmente  tona. Ela os tinha
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sentido, e agora no eram mais necessrios - podiam partir.
Ficou em silncio, vivendo seu momento Presente, deixando que o amor ocupasse o espao vazio que 0 dio deixara. Quando sentiu que chegara o momento, virou-se para
a lua e tocou uma sonata em sua homenagem - sabendo que ela a escutava, ficava orgulhosa, e isto provocava cimes nas estrelas. Tocou ento uma msica para as estrelas,
outra para o jardim, e uma terceira para as montanhas que no podia ver de noite, mas sabia que estavam l.
No meio da msica para o jardim, outro louco apareceu - Eduard, um esquizofrnico que estava alm da possibilidade de cura. Ela no se assustou com sua presena:
ao contrrio, sorriu, e para sua surpresa ele sorriu de volta.
Tambm no seu mundo distante, mais distante do que a lua, a msica era capaz de penetrar e fazer milagres.
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enho que comprar um novo chaveiro", pensava o Dr. I or, en uanto abria a orta do seu e
g q P P queno consultrio no Sanatrio de Villete. O antigo estava caindo aos pedaos, e o pequeno escudo de metal que o enfeitava acabara de cair no cho.
Dr. Igor abaixou-se e pegou-o. O que iria fazer 3
com este escudo, mostrando o braso de Lubljana? Melhor jogar fora. Mas podia mandar consert-lo pedindo que fizessem uma nova ala de couro - ou podia d-lo a seu
neto, para brincar. Ambas as alternativas Ihe pareceram absurdas; um chaveiro custava muito barato, e seu neto no tinha o menor interesse em escudos - passava o
tempo todo vendo televiso, ou divertindo-se com jogos eletrnicos importados da Itlia. Mesmo assim, no jogou fora; colocou-o no bolso, para decidir mais tarde
o que fazer com ele.
Por isso era um diretor de sanatrio, e no um doente; porque refletia muito antes de tomar qualquer atitude.
Acendeu a luz - amanhecia cada vez mais tarde,  medida que avanava o inverno. A ausncia de luz, assim como as mudanas de casa ou os divrcios eram os principais
responsveis pelo aumento do nmero de casos de depresso. Dr. Igor torcia para que a pri
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mavera chegasse logo, e resolvesse metade dos seus problemas.
Olhou a agenda do dia. Precisava estudar algumas medidas para no deixar que Eduard morresse de fome; sua esquizofrenia fazia com que fosse imprevisvel, e agora
ele deixara de comer por completo. Dr. Igor j receitara alimentao intravenosa, mas no podia manter aquilo para sempre; Eduard tinha 28 anos, era forte, e mesmo
com o soro ia terminar definhando, ficando com aspecto esqueltico.
Qual seria a reao do pai de Eduard, um dos mais conhecidos embaixadores da jovem repblica eslovena, um dos artfices das delicadas negociaes com a Iugoslvia,
no comeo dos anos 90? Afinal, este homem havia conseguido trabalhar durante anos para Belgrado, sobrevivera aos seus detratores - que o acusavam de haver servido
ao inimigo - e continuava no corpo diplomtico, s que desta vez representando um pas diferente. Era um homem poderoso e influente, temido por todos.
Dr. Igor se preocupou um instante - como antes se preocupara com o escudo do chaveiro - mas logo afastou o pensamento da cabea: para o embaixador, tanto fazia que
seu filho tivesse uma boa ou m aparncia; no pretendia lev-lo a festas oficiais, ou fazer com que o acompanhasse pelos lugares do mundo para onde era designado
como representante do Governo. Eduard estava em Villete - e ali continuaria para sempre, ou pelo tempo que o pai continuasse ganhando aqueles salrios enormes.
Dr. Igr decidiu que retiraria a alimentao intravenosa, e deixaria Eduard definhar mais um pouco, at que tivesse, por ele mesmo, vontade de comer. Se
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a situao piorasse, faria um relatrio e passaria a responsabilidade ao conselho de mdicos que administrava Villete. "Se voc no quiser entrar em apuros, sempre
divida a responsabilidade", lhe ensinara seu pai, tambm ele um mdico que tivera vrias mortes em suas mos, mas nenhum problema com as autoridades.
Uma vez receitada a interrupo do medicamento de Eduard, Dr. Igor passou para o prximo caso: o relatrio dizia que a paciente Zedka Mendel j terminara seu perodo
de tratamento, e podia receber alta. Dr. Igor queria conferir com seus prprios olhos: afinal, nada pior para um mdico que receber reclamaes da famlia dos doentes
que passavam por Villete. E isso quase sempre acontecia - depois de um perodo num hospital para doentes mentais, raramente um paciente conseguia adaptar-se novamente
 vida normal.
No era culpa do sanatrio. Nem de nenhum de todos os sanatrios espalhados-s o bom Deus sabia - pelos quatro cantos do mundo, onde o problema de readaptao dos
internos era exatamente igual. Assim como a priso nunca corrigia o preso - apenas o ensinava a cometer mais crimes, os sanatrios faziam com que os doentes se acostumassem
com um mundo totalmente irreal, onde tudo era permitido, e ningum precisava ter responsabilidade por seus atos.
De modo que s restava uma sada: descobrir a cura para a Insanidade. E o Dr. Igor estava empenhado nisso at a raiz dos cabelos, desenvolvendo uma tese que iria
revolucionar o meio psiquitrico. Nos asilos, os doentes provisrios em convivncia com pacientes
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irrecuperveis iniciavam um processo de degenerao social, que, uma vez comeado, era impossvel detlo. A tal Zedka Mendel terminaria voltando ao hospital - desta
vez por vontade prpria, queixando-se de males inexistentes, s para estar perto de pessoas que pareciam compreend-la melhor que o mundo l fora.
Se ele descobrisse, porm, como combater o Vitrolo - para o Dr. Igor, o veneno responsvel pela loucura - seu nome entraria para a Histria, e a Eslovnia seria
definitivamente colocada no mapa. Naquela semana, uma chance cada dos cus aparecera, sob a forma de uma suicida potencial; ele no estava disposto a desperdiar
esta oportunidade por nenhum dinheiro do mundo.
Dr. Igor ficou contente. Embora, por razes econmicas, ainda fosse obrigado a aceitar tratamentos que h muito tinham sido condenados pela medicina - como o choque
de insulina- tambm por motivos financeiros, Villete estava inovando o tratamento psiquitrico. Alm de possuir tempo e elementos para a pesquisa do Vitrolo, ele
ainda contava com o apoio dos donos para manter no asilo o grupo chamado de "A Fraternidade". Os acionistas da instituio tinham permitido que fosse tolerada -
note bem, no encorajada, mas tolerada - uma internao maior do que o tempo necessrio. Eles argumentavam que, por razes humanitrias, devia-se dar ao recm-curado
a opo de decidir qual o melhor momento de reintegrar-se ao mundo, e isso permitira que um grupo de pessoas resolvesse permanecer em Villete, como em
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um hotel seletivo, ou um clube onde se renem aqueles que tm algumas afinidades em comum. Assim, o Dr. Igor conseguia manter loucos e sos no mesmo ambiente, fazendo
com que os ltimos influenciassem positivamente os primeiros. Para evitar que as coisas degenerassem - e os loucos terminassem contagiando negativamente os que tinham
sido curados, todo membro da Fraternidade devia sair do sanatrio pelo menos uma vez por dia.
Dr. Igor sabia que os motivos dados pelos acionistas para permitir a presena de pessoas curadas no asilo "razes humanitrias", diziam - eram apenas uma
desculpa. Eles tinham medo de que Lubljana, a pequena e charmosa capital da Eslovnia, no tivesse um nmero suficiente de loucos ricos, capazes de sustentar toda
aquela estrutura cara e moderna. Alm do mais, o sistema de sade pblica contava com asilos de primeira qualidade, o que deixava Villete em situao de desvantagem
diante do mercado de problemas mentais.
Quando os acionistas transformaram o antigo quartel em sanatrio, tinham como pblico alvo os possveis homens e mulheres afetados pela guerra com a Iugoslvia.
Mas a guerra durara muito pouco. Os acionistas apostaram que a guerra ia voltar, mas no voltou.
Depois, em recente pesquisa, descobriram que as guerras faziam suas vtimas mentais, mas em escala muito menor que a tenso, o tdio, as enfermidades congnitas,
a solido e a rejeio. Quando uma coletividade tinha um grande problema para enfrentar como no caso de uma guerra, ou de uma hiperinflao, ou de uma peste - notava-se
um pequeno aumento
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no nmero de suicdios, mas uma grande diminuio nos casos de depresso, parania, psicoses. Estes voltavam a seus ndices normais logo que tal problema havia sido
ultrapassado, indicando - assim entendia o Dr. Igor - que o ser humano s se d ao luxo de ser louco quando tem condies para isso.
Diante de seus olhos, estava outra pesquisa recente, desta vez vinda do Canad - eleito recentemente por um jornal americano como o pas do mundo onde o nvel de
vida era mais elevado. O Dr. Igor leu:
* De acordo com a Statistics Canada, j sofreram algum tipo de doena mental:
40% das pessoas entre l5 e 34 anos; 33% das pessoas entre 35 e 54 anos; 20 % das pessoas entre 55 e 64 anos.
* Estima-se que um em cada cinco indivduos sofra algum tipo de desordem psiquitrica.
* Um em cada oiro canadenses ser hospitalizado por distrbios mentais pelo menos uma vez na vida.
"Excelente mercado, melhor que aqui", pensou. "Quanto mais felizes as pessoas podem ser, mais infelizes ficam.
Dr. Igor analisou mais alguns casos, ponderando cuidadosamente sobre os que devi dividir com o Conselho, e os que podia resolver sozinho. Quando terminou, o dia
j tinha raiado por completo, e ele apagou a luz.
s5
Em seguida mandou entrar a primeira visita - a me da tal paciente que tentara o suicdio.
- Sou a me de Veronika. Qual o estado de minha filha?
O Dr. Igor pensou se devia dizer a verdade, e poup-la de surpresas inteis - afinal de contas, tinha uma filha com o mesmo nome. Mas decidiu que era melhor ficar
calado.
- Ainda no sabemos - mentiu. - Precisamos de mais uma semana.
- No sei por que Veronika fez isso - dizia a mulher a sua frente, em prantos. - Ns samos pais carinhosos, tentamos dar a ela,  custa de muito sacrifcio, a melhor
educao possvel. Embora tivssemos nossos problemas conjugais, mantivemos nossa famlia unida, como exemplo de perseverana diante das adversidades. Ela tem um
bom emprego, no  feia, e mesmo assim...
- ... e mesmo assim tentou matar-se - interrompeu o Dr. Igor. - No fique surpresa, minha senhora,  assim mesmo. As pessoas so incapazes de entender a felicidade.
Se desejar, posso Ihe mostrar as estatsticas do Canad.
- Canad?
A mulher olhou-o com surpresa. Dr. Igor viu que havia conseguido distra-la, e continuou.
- Veja bem: a senhora vem at aqui no para saber como vai sua. filha, mas para desculpar-se pelo fato de que ela tentou cometer suicdio. Quantos anos ela tem?
- Vinte e quatro.
SG
- Ou sja: uma mulher madura, vivida, que j sabe bem o que deseja, e  capaz de fazer suas escolhas. O que isso tem a ver com seu casamento, ou com o sacrifcio
que a senhora e seu marido fizeram? H quanto tempo ela mora sozinha?
- Seis anos.
- Est vendo? Independente at a raiz da alma. Mesmo assim, porque um mdico austraco - Dr. Sigmund Freud, tenho certeza que a senhora j ouviu falar dele - escreveu
sobre estas relaes doentias entre pais e filhos, at hoje todo mundo se culpa de tudo. Os ndis acham que o filho que se tornou assassino  uma vtima da educao
de seus pais? Responda.
- No tenho a menor idia - respondeu a mulher, cada vez mais surpresa com o mdico. Talvez ele tivesse sido contagiado pelos prprios pacientes.
- Pois eu vou lhe dizer a resposta - disse o Dr. Igor. - Os ndios acham que o assassino  culpado, e no a sociedade, nem seus pais, nem seus antepassados. Os japoneses
cometem suicdio porque um filho deles resolveu se drogar e sair atirando? A resposta tambm  a mesma: No! E olha que, segundo me consta, os japoneses cometem
suicdio por qualquer motivo; outro dia mesmo li uma notcia de que um jovem se matou porque no conseguiu passar no vestibular.
- Ser que eu posso falar com a minha filha? perguntou a mulher, que no estava interessada em japoneses, ndios ou canadenses.
- J, j - disse o Dr. Igor, meio irritado com a interrupo. - Mas antes, eu quero que a senhora entenda utria coisa: afora alguns casos patolgicos graves, as
pessoas enlouquecem quando tentam fugir da rotina. A senhora entendeu?
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- Entendi muito bem - respondeu. - E se o senhor est achando que no serei capaz de cuidar dela pode ficar tranqilo: nunca tentei mudar a minha vida.
- Que bom - o Dr. Igor mostrava um certo alvio. -A senhora j imaginou um mundo onde, por exemplo, no fssemos obrigados a repetir todos os dias de nossas vidas
a.mesma coisa? Se resolvssemos, por exemplo, comer s na hora em que tivssemos fome: como as donas de casa e os restaurantes se organizariam?
"Seria mais normal comer s quamdo estivssemos com fome", penso a mulher, que no disse nada, com medo que lhe proibissem falar com Veronika.
- Seria uma confuso muito grande - disse ela. - Eu sou dona de casa, e sei do que est falando.
- Ento temos o caf da manh, o almoo, o jantar. Temos que acordar em determinada hora todos os dias, e descansar uma vez por semana. Existe o Natal para dar presentes,
a pscoa para passar trs dias no lago. A senhora ficaria contente se o seu marido, s porque foi tomado de um sbito impulso de paixo, resolvesse fazer amor na
sala?
"De que este homem est falando? Eu vim aqui ver minha filha!"
- Ficaria triste - respondeu ela, com todo cuidado, esperando ter acertado.
- Muito bem - bradou o Dr. Igor. - Lugar de fazer amor  na cama. Seno, estaremos dando mau exemplo e disseminando a anarquia.
- Posso ver minha filha? - interrompeu a mulher. O Dr. Igor resignou-se; esta camponesa nunca ia entender do que estava falando, no estava interessada em discutir
a loucura do ponto de vista filosfico
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mesmo sabendo que sua filha tentara o suicdio para valer, e entrara em coma.
Tocou uma campainha, e sua secretria apareceu. - Mande chamar a moa do suicdio - disse. - Aquela da carta aos jornais, dizendo que se matava para mostrar onde
era a Eslovnia.
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 No quero v-la. Eu j cortei os meus laos com o mundo.
Fora difcil dizer isso ali na sala de estar, na presena de todo mundo. Mas o enfermeiro tampouco fora discreto, e avisara em voz alta que sua me a estava esperando
- como se fosse um assunto que interessasse a todos.
No queria ver a me porque as duas iam sofrer. Era melhor que j a considerasse morta; Veronika sempre odiara as despedidas.
O homem desapareceu por onde viera, e ela voltou a olhar as montanhas. Depois de uma semana, o sol tinha finalmente retornado - e ela j sabia isso desde a noite
anterior, porque a lua Ihe dissera, enquanto tocava piano.
"No, isso  loucura, estou perdendo o controle. Os astros no falam - exceto para aqueles que se dizem astrlogos. Se a lua conversou com algum, foi com aquele
esquizofrnico."
i:.
Mal terminara de pensar isso, sentiu uma pontada no peito, e um brao ficou dormente. Veronika viu o ,,.
teto rodar: o ataque de corao!
Entrou numa espcie de euforia, como se a morte a libertasse do medo de morrer. Pronto, estava tudo acabado! Talvez sentisse alguma dor, mas o que eram cinco minutos
de agonia, em troca de uma eternidade
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em silncio? A nica atitude que tomou foi a de fechar os olhos: o que mais lhe horrorizava era ver, nos filmes, os mortos de olhos abertos.
Mas o ataque de corao parecia ser diferente daquilo que imaginara; a respirao comeou a ficar difcil, e, horrorizada, Veronika comeou a descobrir que estva
prestes a experimentar o pior de seus medos: a asfixia. Ia morrer como se estivesse sendo enterrada viva, ou fosse puxada de repente para o fundo do mar.
Cambaleou, caiu, sentiu a pancada forte no rosto, continuou fazendo um esforo gigantesco para respirar - mas o ar no entrava. Pior que tudo, a morte no vinha,
estava inteiramente consciente do que se passava a sua volta, continuava vendo as cores e as formas. Tinha dificuldade apenas de escutar o que os outros diziam -
os gritos e as exclamaes pareciam distantes, como se vindos de um outro mundo. Afora isso, tudo o mais era real, o ar no vinha, simplesmente no obedecia aos
comandos dos ,seus pulmes e de seus msculos - e a conscincia no ia embora.
Sentiu que algum a pegava e a virava de costas - mas agora havia perdido o controle do movimento dos olhos, e eles rodopiavam, enviando centenas de imagens diferentes
ao seu crebro, misturando a sensao de sufocamento com uma completa confuso visual.
Aos poucos as imagens foram ficando tambm distantes - e, quando a agonia atingiu seu ponto mximo, o ar finalmente entrou, emitindo um rudo
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tremendo, que. fez com que todos na sala ficassem paralisados de medo.
Veronika comeou a vomitar descontroladamente. Passado o momento da quase tragdia, alguns loucos comearam a rir da cena - e ela sentia-se humilhada, perdida, incapaz
de reagir.
Um enfermeiro entrou correndo, e aplicou-lhe uma injeo no brao.
- Fique tranqila. J passou.
- Eu no morri! - ela comeou a gritar, avanando em direo aos internos, e sujando o cho e os mveis com seu vmito. - Eu continuo nesta droga de hospcio, sendo
obrigada a conviver com vocs! Vivendo mil mortes a cada dia, a cada noite - sem que ningum tenha misericrdia de mim!
Virou-se para o enfermeiro, arrancou a seringa de sua mo e atirou-a em direo ao jardim.
- O que voc quer? Por que no me aplica veneno, sabendo que eu j estou mesmo condenada? Onde esto seus sentimentos?
Sem conseguir controlar-se, tornou a sentar no cho e comeou a chorar compulsivamente, gritando, soluando alto, enquanto alguns dos internos riam e comentavam
sobre sua roupa toda suja.
- D-lhe um calmante! - disse uma mdica , entrando s pressas. - Controle esta situao!
O enferineiro, porm, estava paralisado. A mdica tornou a sair, voltando com mais dois enfermeiros ,
e uma nova seringa. Os homens agarraram a criatura histrica que se debatia no meio da sala, enquanto a mdica aplicava at a ltima gota de calmante na veia de
um brao imundo.
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stava no consultrio do Dr. Igor, deitada em uma  cama imaculadamente branca, com o lenol novo.
Ele escutava seu corao. Ela fingiu que ainda estava dormindo, mas algo dentro do peito havia mudado, porque o mdico falou corn a certeza de que estava sendo ouvido.
- Fique tranqila - disse. - Com a sade que voc tem, pode viver cem anos.
Veronika abriu os olhos. Algum havia trocado sua roupa. Teria sido o Dr. Igor? Ele a vira nua? Sua cabea no estava funcionando direito.
- O que o senhor disse?
- Falei que ficasse tranqila. .
- No. O senhor disse que eu ia viver cem anos. O mdico foi at sua escrivaninha.
- O senhor disse que eu ia viver cem anos insistiu Veronika.
- Na medicina, nada  definitivo - disfarou o Dr. Igor. - Tudo  possvel.
- Como est o meu corao? - Igual.
Ento no precisava mais nada. Os mdicos , diante de um caso grave, dizem "voc vai conseguir
" , , " "
viver cem anos , ou no e nada serio , ou voce tem um corao e uma presso de menino", ou ainda
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"precisamos refazer os exames". Parece que temem que o paciente v quebrar o consultrio inteiro.
Ela tentou levantar-se, mas no conseguiu: a sala inteira comeara a rodar.
- Fique a mais um pouco, at sentir-se melhor. Voc no est me incomodando.
Que bom, pensou Veronika. Mas, e se estivesse?
Como experiente mdico que era, Dr. Igor permaneceu em silncio algum tempo, fingindo-se interessado nos papis que esiavam em sua mesa. Quando estamos diante de
outra pessoa, e ela no diz nada, a situao torna-se irritante, tensa, insuportvel. O Dr. Igor tinha a esperana que a menina comeasse a falar - e ele pudesse
colher mais dados para a sua tese sobre a loucura, e o mtodo de cura que estava desenvolvendo.
Mas Veronika no disse uma palavra. "Talvez j esteja num grau de envenenamento muito grande pelo Vitrolo", pensou o Dr. Igor, enquanto resolvia quebrar o silncio
- que estava se tornando tenso, irritante, insuportvel.
- Parece que voc gosta de tocar piano - disse ele, procurando ser o mais casual possvel.
- E os loucos gostam de ouvir. Ontem teve um que ficou grudado, escutando.
- Eduard. Ele comentou com algum que tinha adorado. Quem sabe, volta a alimentar-se como uma pessoa normal.
- Um esquizofrnico gosta de msica? E comenta isso com os outros?
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- Sim. E aposto que voc no tem a menor idia do que est dizendo.
, Aquele mdico - que mais parecia um paciente
com seus cabelos tingidos de preto - tinha razo. Veronika escutara a palavra muitas vezes, mas no tinha idia do que significava.
- Tem cura? - quis saber, tentando ver se conseguia mais informaes sobre os esquizofrnicos. - Tem controle. Ainda no se sabe direito o que
se passa no mundo da loucura: tudo  novo, e os processos mudam a cada dcada. Um esquizofrnico  uma pessoa que j tem uma tendncia natural para ausentar-se deste
mundo, at que um fato - grave ou superficial, dependendo do caso de cada um - faz com que crie uma realidade s para ele. O caso pode evoluir at a ausncia completa
- que ns chamamos de catatonia - ou pode ter melhoras, permitindo ao paciente trabalhar, levar uma vida praticamente normal. Depende de uma coisa s: o ambiente.
- Criar uma realidade s para ele - repetiu Veronika. - O que  a realidade?
-  o que a maioria achou que devia ser. No necessariamente o melhor, nem o mais lgico, mas o que se adaptou ao desejo coletivo. Voc est vendo 0 que tenho no
pescoo?
- Uma gravata.
- Muito bem. Sua resposta  lgica, coerente com uma pessoa absolutamente normal: uma gravata! "Um louco, porm, diria que eu tenho no pesco
o um pano colorido, ridculo, intil, amarrado de uma maneira complicada, que termina dificultando os movimentos da cabea e exigindo um esforo maior para que
o ar possa entrar nos pulmes. Se eu me
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distrair quando estiver perto de um ventilador, posso morrer estrangulado por este pano.
" Se um louco me perguntar para que serve uma gravata, eu terei que responder: para absolutamente nada. Nem mesmo para enfeitar, porque hoje em dia ela tornou-se
o smbolo de escravido, poder, distanciamento. A nica utilidade da gravata consiste em chegar em casa e retir-la, dando a sensao de que estamos livres de alguma
coisa que nem sabemos o que .
"Mas sensao de alvio justifica a existncia da gravata? No. Mesmo assim, se eu perguntar para um louco e para uma pessoa normal o que  isso, ser considerado
so aquele que responder: uma gravata. No importa quem est certo - importa quem tem razo."
- Donde o senhor conclui que eu no sou louca, pois dei o nome certo ao pano colorido.
                No, voc no  louca, pensou o Dr. Igor, uma
                autoridade no assunto, com vrios diplomas pendu-
                rados na parede de seu consultrio. Atentar contra a
                prpria vida era prprio do ser humano - conhecia
                muita gente que fazia isso, e mesmo assim continuava
        i        l fora, aparentando inocncia e normalidade, apenas
        ..
                porque no tinham escolhido o escandaloso mtodo
                do suicdio. Matavam-se aos poucos, envenenando-se
                com aquilo que o Dr. Igor chamava de Vitrolo.
                O Vitrolo era um produto txico, cujos sintomas
                ele havia identificado em suas conversas com os homens
                e mulheres que conhecia. Estava agora escrevendo uma
                tese sobre o assunto, que submeteria  Academia de
                Cincias da Eslovnia para estudo. Era o passo mais
        ;
                importante no terreno da insanidade, desde que o
        ,.....
9G
Dr. Pinel mandara retirar as correntes que aprisionavam os doentes, estarrecendo o mundo da medicina com a idia de que alguns deles tinham possibilidade de cura.
Assim como a libido - uma reao qumica responsvel pelo desejo sexual que o Dr. Freud reconhecera, mas nenhum laboratrio fora jamais capaz de isolar, o Vitrolo
era destilado pelos organismos de seres humanos que se encontravam em situao de medo - embora ainda passasse despercebido nos modernos testes de espectrografia.
Mas era facilmente
reconhecido pelo seu sabor, que no era nem doce nem i. salgado - o sabor amargo. Dr. Igor - descobridor
ainda no reconhecido deste veneno mortal - batizara-o com o nome de um veneno que fora muito utili
j:. zado no passado por imperadores, reis, e amantes de
i todos os tipos, quando precisavam afastar definitiva
mente uma pessoa incmoda. ' Bons tempos aqueles, de imperadores e reis: na
quela poca vivia-se e morria-se com romantismo. O assassino convidava a vtima para um belo jantar, o garom entrava com duas taas lindas, uma delas com Vitrolo
misturado na bebida: quanta emoo des
, pertavam os gestos da vtima - pegando a taa
dizendo algumas palavras doces ou agressivas, bebendo como se fosse mais um drinque saboroso, olhando surpresa para o anfitrio, e caindo fulminada no solo!
Mas este veneno, hoje caro e difcil de encontrar no mercado, foi substitudo por processos mais seguros de extermnio - como revlveres, bactrias, etc. Dr. Igor,
um romntico por natureza, resgatara o nome quase esquecido para batizar a doena de alma que ele conseguira diagnosticar, e cuja descoberta em breve assustaria
o mundo.
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Era curioso que ningum jamais tivesse se referido ao Vitrolo como um txico mortal, embora a maioria das pessoas afetadas identificasse seu sabor, e se referisse
ao processo de envenenamento como Amargura. Todos os seres tinham Amargura em seu organismo - em maior ou menor grau - assim como quase todos temos o bacilo da tuberculose.
Mas estas duas doenas s atacam quando o paciente acha-se debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doena aparece quando se cria o medo da
chamada "realidade".
Certas pessoas, no af de querer construir um mundo onde nenhuma ameaa externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior - gente
estranha, novos lugares, experincias diferentes - e deixam o interior desguarnecido.  a partir da que a Amargura comea a causar danos irreversveis.
O grande alvo da Amargura (ou Vitrolo, como preferia o Dr. Igor) era a vontade. As pessoas atacadas deste mal iam perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos j
no conseguiam sair de seu mundo - pois tinham gasto enormes reservas de energia construindo altas muralhas para que a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse.
Ao evitar o ataque externo, tinham tambm limitado o crescimento interno. Continuavam indo ao trabalho, vendo televiso, reclamando do trnsito e tendo filhos, mas
tudo isso acontecia automaticamente, e sem qualquer grande emoo interior- porque, afinal, tudo estava sob controle.
O grande problema do envenenamento por Amargura era que as paixes - dio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade - tambm no se manifestavam mais. Depois de
algum tempo, j no restava ao
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amargo qualquer desejo. No tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.
Por isso, para os amargos, os heris e os loucos eram sempre fascinantes: eles no tinham medo de viver ou morrer. Tanto os heris como os loucos eram indiferentes
diante do perigo, e seguiam adiante apesar de todos dizerem para no fazerem aquilo. O louco se suicidava, o heri se oferecia ao martrio em nome de uma causa -
mas ambos morriam, e os amargos passavam muitas noites e dias comentando o absurdo e a glria dos dois tipos. Era o nico momento em que o amargo tinha fora para
galgar sua muralha de defesa e olhar um pouquinho para fora; mas logo as mos e os ps cansavam, e ele voltava para a vida diria.
O amargo crnico s notava a sua doena uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como no tinha o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebia
que alguma coisa estava muito errada - j que a paz daquelas tardes era infernal, o tempo no passava nunca, e uma constante irritao manifestavase livremente.
Mas a segunda-feira chegava, e o amargo logo esquecia os seus sintomas - embora blasfemasse contra o fato de que nunca tinha tempo para descansar, e reclamasse que
fins de semana passavam muito rpido.
A nica grande vantagem da doena, do ponto de vista social,  que j se transformara numa regra ;
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portanto, a internao no se fazia mais necessria exceto nos casos onde a intoxicao era to forte que o comportamento do doente comeava a afetar os outros.
Mas a maioria dos amargos podiam continuar l fora, sem constituir ameaa  sociedade ou aos outros, j que - por causa das altas muralhas construdas ao redor de
si mesmos - estavam totalmente isolados do mundo, embora parecessem partilhar dele.
O Dr. Sigmund Freud descobrira a libido e a cura para os problemas causados por ela - inventando a psicanlise. Alm de descobrir a existncia do Vitrolo
, o Dr. Igor precisava provar que, tambm neste caso, a cura era possvel. Queria deixar seu nome na histria da medicina, embora no se iludisse quanto s dificuldades
que teria que enfrentar para impor suas idias - j que os "normais" estavam contentes com suas vidas, e jamais admitiriam sua doena, enquanto os "doentes" movimentavam
uma gigantesca indstria de asilos, laboratrios, congressos, etc.
" Sei que o mundo no reconhecer agora meu esforo", disse para si mesmo, orgulhoso de ser incompreendido. nal, este era o preo que os gnios precisavam pagar.
- O que aconteceu com o senhor? - perguntou a moa a sua frente. - Parece que entrou no mundo de seus pacientes.
Dr. Igor ignorou o comentrio desrespeitoso. - Voc pode ir agora - disse.
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eronika no sabia se era dia ou noite - o Dr. Igor T estava com a luz acesa, mas ele fazia isso todas as
manhs. Entretanto, ao chegar no corredor, viu a lua, e deu-se conta que dormira mais tempo do que o que
imagmara. No caminho para a enfermaria, reparou uma
foto emoldurada na parede: era a praa central de Lubljana, ainda sem a esttua do poeta Preseren, mostrando casais passeando - provavelmente num domingo.
Verificou a data da foto: vero de 1910.
Vero de 1910. Ali estavam aquelas pessoas, cujos
filhos e netos j tinham morrido, capturadas num mo- "' mento de suas vidas. As mulheres usavam pesados
vestidos, e os homens estavam todos de chapu, palet, gravata (ou pano colorido, como chamavam os loucos), polainas e guarda-chuva no brao.
E o calor? A temperatura devia ser a mesma dos veres de hoje, 35  sombra. Se chegasse um ingls de bermudas e mangas de camisa - vestimenta muito mais apropriada
para o calor - o que estas pessoas pensariam?
"Um louco."
Tinha entendido perfeitamente bem o que o Dr. Igor quisera dizer. Da mesma maneira, entendia
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que sempre tivera em sua vida muito amor, carinho, proteo, mas Ihe faltara um elemento para tornar tudo isto em uma bno: devia ter sido um pouco mais louca.
Seus pais continuariam a am-la de qualquer maneira, mas ela no ousara pagar o preo de seu sonho, com medo de feri-los. Aquele sonho que estava enterrado no fundo
de sua memria, embora vez por outra fosse despertado num concerto, ou num belo disco que escutava ao acaso. Entretanto, sempre que o seu sonho era despertado, o
sentimento de frustrao era to grande, que ela logo o fazia adormecer de novo.
Veronika sabia, desde criana, qual era sua verdadeira vocao: ser pianista!
Sentira isso desde a primeira aula, com doze anos de idade. Sua professora tambm percebera seu talento, e a incentivara a tornar-se uma profissional. Entretanto,
quando - contente com um concurso que acabara de ganhar - dissera  me que ia largar tudo para dedicar-se apenas ao piano, ela a olhara com carinho, e respondera:
"ningum vive de tocar piano
, "
meu amor.
"Mas voc me fez ter aulas!"
"Para desenvolver seus dons artsticos, s isso. Os ;
' maridos apreciam, e voc pode destacar-se nas festas. ,..
_ Esquea esta histria de ser pianista, e v estudar ;
advocacia: esta  a profisso do futuro."
Veronika fizera o que a me pedira, certa de que ela tinha experincia suficiente para entender o que era realidade. Terminou os estudos, entrou na faculdade,
l saiu da faculdade com um diploma e notas altas mas s conseguiu um emprego de bibliotecria.
io2
"Devia ter sido mais louca." Mas - como devia acontecer com a maioria das pessoas - descobrira tarde demais.
Virou-se para continuar seu caminho, quando algum segurou-a no brao. O poderoso calmante que lhe haviam aplicado ainda corria em suas veias, por isso no reagiu
quando Eduard, o esquizofrnico delicadamente comeou a conduzi-la numa direo diferente - para a sala de estar.
A lua continuava em quarto crescente, e Veronika j se sentara ao piano - o pedido silencioso de Eduard - quando comeou a ouvir uma voz que vinha do refeitrio.
Algum que falava com sotaque estrangeiro, e Veronika no se lembrava de ter escutado aquele sotaque em Villete.
- No quero tocar piano agora, Eduard. Quero saber o que est acontecendo no mundo, o que conversam aqui ao lado, que homem estranho  esse.
Eduard sorria, talvez sem entender uma s palavra do que estava dizendo. Mas ela lembrou-se do Dr. Igor: os esquizofrnicos podiam entrar e sair de suas realidades
separadas.
- Eu vou morrer - continuou, na esperana de que suas palavras fizessem sentido. - A morte roou suas asas no meu rosto hoje, e deve estar batendo na minha porta
amanh, ou depois. Voc no deve se acostumar a escutar um piano todas as noites.
"Ningum pode se acostumar com nada, Eduard. Veja s: eu estava gostando de novo do sol, das monta
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nhas, dos problemas - estava mesmo aceitando que a falta de sentido da vida no era culpa de ningum
, exceto minha. Queria de novo ver a praa de Lubljana, sentir dio e amor, desespero e tdio, todas estas coisas simples e tolas que fazem parte do cotidiano, mas
que do gosto  existncia. Se algum dia pudesse sair daqui
, iria permitir-me ser louca, porque todo mundo  e piores so aqueles que no sabem que so, porque ficam repetindo apenas o que os outros mandam.
"Mas nada disso  possvel, entendeu? Da mesma maneira, voc no pode passar o dia inteiro esperando que venha a noite, e que uma das internas toque piano - porque
isso acabar logo. Meu mundo e o seu esto no final."
Levantou-se, tocou carinhosamente no rosto do rapaz, e foi at o refeitrio.
Ao abrir a porta, deparou-se com uma cena inslita; as mesas e cadeiras tinham sido empurradas para a parede, formando um grande espao vazio no centro. Ali, sentados
no cho, estavam os membros da Fraternidade, escutando um homem de terno e gravata.
... ento convidaram o grande mestre da tradio sufi, Nasrudin, para dar uma palestra - dizia ele. Quando a porta se abriu, todos na sala olharam
para Veronika. O homem de terno virou-se para ela. - Sente-se.
Ela sentou-se no cho, junto  senhora de cabelos brancos, Mari - que fora to agressiva em seu primei~ ro encontro. Para sua surpresa, Mari deu um sorriso de boas-vindas.
O homem de terno contnuou:
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- Nasrudin marcou a conferncia para as duas
horas da tarde, e foi um sucesso: os mil lugares foram I'a, i todos vendidos, e ficaram mais de seiscentas pessoas
., do lado de fora, acompanhando a palestra por um cir
cuito fechado de televiso.
"As duas em ponto, entrou um assistente de Nasrudin, dizendo que, por motivo de fora maior, a palestra ia atrasar. Alguns levantaram-se indignados, pediram a devoluo
do dinheiro, e saram. Mesmo assim ainda continuou muita gente dentro e fora da sala.
"A partir das quatro da tarde, o mestre sufi ainda no tinha aparecido, e as pessoas foram - pouco a pouco - deixando o local, e pegando seu dinheiro de volta: afinal
de contas, o expediente de trabalho estava terminando, era chegado o momento de voltar para casa. Quando deu seis horas, os 1.700 espectadores originais estavam
reduzidos a menos de cem.
"Neste momento, Nasrudin entrou. Parecia completamente bbado, e comeou a dizer gracinhas a uma bela jovem que sentara-se na primeira fila.
"Passada a surpresa, as pessoas comearam a ficar indignadas: como, depois de esperar quatro horas seguidas, esse homem se comportava de tal maneira?
, Alguns murmrios de desaprovao se fizeram ouvir
mas o mestre sufi no deu nenhuma importncia: continuou, aos brados, a dizer como a menina era sexy, "
e convidou-a para viajar com ele para a Frana.
Que mestre, pensou Veronika. Ainda bem que nunca acreditei nestas coisas.
"Depois de dizer alguns palavres contra as pessoas que reclamavam, Nasrudin tentou levantar-se e caiu pesadamente no cho. Revoltadas, as pessoas resolveram ir
embora, dizendo que tudo aquilo no
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

passava de charlatanismo, que iriam aos jornais denunciar o espetculo degradante.
" Nove pessoas continuaram na sala. E, assim que o grupo de revoltados deixou o recinto, Nasrudin levantou-se; estava sbrio, seus olhos irradiavam luz, e havia em torno dele uma aura de respeitabilidade e sabedoria. `Vocs que esto aqui so os que tm que me ouvir', disse. `Passaram pelos dois testes mais duros no caminho espiritual: a pacincia para esperar o momento certo, e a coragem de no se decepcionar com o que encontraram. A vocs eu vou ensinar.'
"E Nasrudin compartilhou com eles algumas das tcnicas sufi."
O homem fez uma pausa, e tirou uma flauta estranha do bolso.
- Vamos agora descansar um pouco, e depois faremos a nossa meditao.
O grupo ficou de p. Veronika no sabia o que fazer. - Levante-se tambm - disse Mari, pegando-a pela mo. - Temos cinco minutos de recreio.
- Vou embora, no quero atrapalhar. Mari levou-a para um canto.
- Ser que voc no aprendeu nada, nem mesmo com a proximidade da morte? Pare de pensar o tempo todo que est causando algum constrangimento, que est perturbando seu prximo! Se as pessoas no gostarem, elas reclamaro! E se no tiverem coragem de reclamar, o problema  delas!
- Aquele dia, quando me aproximei de vocs, estava fazendo algo que nunca ousara antes.
- E se deixou acovardar com uma mera brincadeira de loucos. Por que no continuou adiante? O que tinha a perder?
lOG
- Minha dignidade. Estar onde no sou bemvinda.
- O que  dignidade?  querer que todo mundo ache que voc  boa, bem-comportada, cheia de amor ao prximo? Respeite a natureza; veja mais filmes de animais, e repare como eles lutam por seu espao. Todos ns ficamos contentes com aquele tapa que voc deu.
Veronka no tnha mas tempo para lutar por nenhum espao, e mudou de assunto; perguntou quem era aquele homem.
- Est melhorando -, riu Mari. - Faz perguntas, sem medo de que pensem que  indiscreta. Este homem  um mestre sufi.
- O que quer dizer su - L.
Veronika no entendeu. L?
- O sufismo  uma tradio espiritual dos dervixes, onde os mestres no procuram mostrar sabedoria, e os discpulos danam, rodopiam, e entram em transe.
- Para que serve isso?
- No estou bem certa; mas nosso grupo resolveu viver todas as experincias proibidas. Durante toda a minha vida, o governo nos educou dizendo que a busca espiritual existia apenas para afastar o homem dos seus problemas reais. Agora me responda o seguinte: voc no acha que tentar entender a vida  um problema real?
Sim. Era um problema real. Alm do mais, j no tinha mais certeza do que a palavra realidade queria dizer.
l07
O homem de terno - um mestre sufi, segundo Mari - pediu que todos sentassem em crculo. De um dos vasos do refeitrio, tirou todas as flores - com exceo de uma rosa vermelha - e colocou-o no centro do grupo.
- Veja o que conseguimos - disse Veronika para Mari. - Algum louco resolveu que era possvel criar flores no inverno, e hoje em dia temos rosas o ano inteiro, em toda a Europa. Voc acha que um mestre sufi, com todo o seu conhecimento,  capaz de fazer isso?
Mari pareceu adivinhar seu pensamento. - Deixe as crticas para depois.
- Tentarei. Porque tudo que tenho  o presente, por sinal, muito curto.
-  tudo que todo mundo tem, e  sempre muito curto - embora alguns achem que possuem um passado; onde acumularam coisas, e um futuro, onde acumularo ainda mais. Por sinal, falando em momento presente, voc j se masturbou muito?
Embora o calmante ainda estivesse fazendo efeito, Veronika lembrou-se da primeira frase que escutara em Villete.
- Quando eu entrei em Villete, ainda cheia de tubos de respirao artificial, ouvi claramente algum me perguntar se queria ser masturbada. Que  isso? Por que vivem pensando nestas coisas aqui?
- Aqui e l fora. S que, no nosso caso, no precisamos esconder.
- Foi voc quem me perguntou?
- No. Mas acho que devia saber at onde pode ir seu prazer. Da prxima vez, com um ouco de p
paciencia, poder levar o seu parceiro at l, ao invs
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de ficar sendo guiada por ele. Mesmo que s Ihe restem dois dias de vida, acho que no deve partir daqui sem saber aonde poderia ter chegado.
- S se for com o esquizofrnico que me est esperando para escutar piano.
- Pelo menos, ele  um homem bonito.
O homem de terno pediu silncio, interrompendo a conversa. Mandou que todos se concentrassem na rosa, e esvaziassem suas mentes.
- Os pensamentos vo voltar, mas procurem evit-los. Vocs tm duas escolhas: dominar suas mentes, ou serem dominados por ela. J viveram esta segunda alternativa - deixaram-se levar pelos medos, neuroses, insegurana - porque o homem tem esta tendncia  autodestruio.
"No confundam a loucura com a perda de controle. Lembrem-se que, na tradio sufi, o principal mestre - Nasrudin -  o que todos chamam de louco. E justamente porque a sua cidade o considera insano, Nasrudin tem a possibilidade de dizer tudo 0 que pensa, e fazer o que Ihe d vontade. Assim era com os bobos da corte, na poca medieval; podiam alertar o rei sobre todos os perigos que os ministros no ousavam comentar, porque temiam perder os seus cargos.
"Assim deve ser com vocs; mantenham-se loucos, mas comportem-se como pessoas normais. Corram o risco de serem diferentes - mas aprendam a fazer isso sem chamar a ateno. Concentrem-se nesta
" flor, e deixem que o verdadeiro Eu se manifeste.
- O que  o verdadeiro Eu? - interrompeu Veronika. Talvez todos ali soubessem, mas isso no
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		importava: ela devia preocupar-se menos com a his-
		tria de incomodar os outros.
			O homem pareceu surpreso com a interrupo,
		mas respondeu:
			-  aquilo que voc , no o que fizeram de voc.
			Veronika resolveu fazer o exerccio, empenhan-
		do-se ao mximo para descobrir quem era. Nestes dias
		em Villete, sentira coisas que nunca havia experimen-
		tado com tanta intensidade - dio, amor, desejo de
		viver, medo, curiosidade. Talvez Mari tivesse razo:
		ser que conhecia mesmo 0 orgasmo? Ou s tinha che-
		gado at onde os homens a quiseram levar?
			O senhor de terno comeou a tocar a flauta. Aos
		poucos a msica foi acalmando sua alma, e ela conse-
		guiu fixar-se na rosa. Podia ser o efeito do calmante,
		mas o fato  que, desde que sara do consultrio do
		Dr. Igor,sentia-se muito bem.
			Sabia que ia morrer logo: para que sentir medo?
		No ajudaria em nada, nem evitaria o ataque fatdico
		do corao; o melhor era aproveitar os dias, ou horas
		que restavam, fazendo o que nunca tinha feito.
			A msica vinha suave, e a luz embaada do refei-
		trio criara uma atmosfera quase religiosa. Religio:
		por que no tentava mergulhar dentro de si, e ver o
		que sobrara de suas crenas e de sua f?
	,		Porque a msica a conduzia para um outro lado:
		esvaziar a cabea, deixar de relletir sobre tudo, e apenas
		SER. Veronika entregou-se, contemplou a rosa, viu
		quem era, gostou, e ficou com pena de ter sido to
		precipitada.
I10
uando a meditao terminou e o mestre sufi ,
partiu, Mari ainda ficou um pouco no refeitrio conversando com a Fraternidade. A menina queixouse de cansao  foi logo embora - afinal, o calmante que tomara aquela manh era forte o bastante para fazer dormir um touro, e mesmo assim ela conseguira foras para ficar acordada at aquela hora.
"Juventude  assim mesmo, estabelece os prprios limites sem perguntar se o corpo agenta. E o corpo "
sempre agenta.
, Mari estava sem sono; tinha dormido at tarde
depois resolveu dar um passeio em Lubljana - Dr. Igor exigia que os membros da Fraternidade sassem de Villete todo dia. Fora ao cinema, e tornara a dormir na poltrona, com um filme. aborrecidssimo sobre conflitos entre marido e mulher. Ser que no tinham outro tema? Por que repetir sempre as mesmas histrias - marido com amante, marido com mulher e filho doente, marido com mulher, amante e filho doente? Havia coisas mais importantes no mundo para contar.
A conversa no refeitrio durou pouco; a meditao relaxara o grupo, e todos resolveram voltar para os
Ill
dormitrios - menos Mari, que saiu para dar um passeio no jardim. No caminho, passou pela sala de estar e viu que a menina no tinha ainda conseguido ir at o quarto: estava tocando para Eduard, o esquizofremco, que possivelmente ficara esperando todo este tempo ao lado do piano. Os loucos, como as crianas, s arredavam o p depois de verem seus desejos satisfeitos.
O ar estava gelado. Mari voltou, apanhou um agasalho e tornou a sair. L fora, longe dos olhos de todos, acendeu um cigarro. Fumou sem culpa e sem pressa, refletindo sobre a menina, o piano que escutava, e a vida do lado de fora dos muros de Villete que estava ficando insuportavelmente difcil para todo mundo.
Na opinio de Mari, esta dificuldade no se devia ao caos, ou  desorganizao, ou  anarquia - e sim ao excesso de ordem. A sociedade tinha cada vez mais regras - e leis para contrariar as regras - e novas regras para contrariar as leis; isso deixava as pessoas assustadas, e elas j no davam um passo sequer fora do regulamento invisvel que guiava a vida de todos.
Mari entendia do assunto; passara quarenta anos de sua vida trabalhando como advogada, at que sua doena a trouxera a Villete. Logo no incio de sua carreira, perdera rapidamente a ingnua viso da Justia, e passara a entender que as leis no haviam sido criadas para resolver problemas, e sim para prolongar indefinidamente uma briga.
Pena que Allah, Jeovah, Deus - no importa que nome Ihe dessem - no tivesse vivido no mundo de
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hoje. Porque, se assm fosse, ns todos anda estaramos no Paraso, enquanto Ele estaria ainda respondendo a recursos, apelos, rogatras, precatrias, mandados de segurana, liminares - e teria que explicar em inmeras audincias sua deciso de expulsar Ado e Eva do Paraso - apenas por transgredir uma lei arbitrria, sem nenhum fundamento jurdico: no comer o fruto do Ben e do Mal.
Se Ele no queria que isso acontecesse, por que colocou a tal rvore no meio do Jardim - e no fora dos muros do Paraso? Se fosse chamada para defender o casal, Mari seguramente acusaria Deus de "omisso administrativa", porque, alm de colocar a rvore em lugar errado, no a cercou com avisos, barreiras, deixando de adotar os mnimos requisitos de segurana
, e expondo todos que passavam ao perigo.
Mari tambm podia acus-lo de "induo ao crime": chamou a ateno de Ado e Eva para o exato local onde se encontrava. Se no tivesse dito nada, geraes e geraes passariam por esta Terra sem que ningum se interessasse pelo fruto proibido - j que devia estar numa floresta, cheia de rvores iguais, e portanto sem nenhum valor especfico.
Mas Deus no agira assim. Pelo contrrio, escreveu a lei e achou um jeito de convencer algum a transgredi-la, s para poder inventar o Castigo. Sabia que Ado e Eva terminariam entediados com tanta coisa perfeita, e - mais cedo ou mais tarde - iriam testar Sua pacincia. Ficou ali esperando, porque talvez tambm Ele - Deus Todo-Poderoso - estava entediado com as coisas funcionando perfeitamente: se Eva no tivesse comido a ma, o que teria acontecido de interessante nestes bilhes de anos?
lI3
	Nada.
	Quando a lei foi violada, Deus - o Juiz Todo-
	Poderoso - ainda simulara uma perseguio, como
	se no conhecesse todos os esconderijos possveis.
	Com os anjos olhando o divertindo-se com a brinca-
	deira (a vida para eles tambm devia ser muito abor-
	recida, desde que Lcifer deixara o Cu), Ele comeou
	a caminhar. Mari imaginava como aquele trecho da
	Bblia daria uma bela cena num filme de suspense: os
	passos de Deus, os olhares assustados que o casal tro-
	cava entre si, os ps que subitamente paravam ao lado
	do esconderijo.
"Onde ests?'; perguntara Deus. "
Ouvi seu passo no jardim, tive medo e me escondi, porque estou nu", respondera Ado, sem saber que, a partir desta afirmao, passava a ser ru confesso de um crime.
Pronto. Atravs de um simples truque, em que aparentava no saber onde Ado estava, nem o motivo de sua fuga, Deus conseguira o que desejava. Mesmo assim, para no deixar nenhuma dvida  platia de anjos que assistia atentamente o episdio, Ele resolvera ir mais adiante.
"Como sabes que ests nu?'; dissera Deus, sabendo que esta pergunta s teria uma resposta possvel: porque comi da rvore que me permite entender isso.
Com aquela pergunta, Deus mostrou aos seus anjos que era justo, e estava condenando o casal com base em todas as provas existentes. A partir dali, no importava mais saber se a culpa era da mulher, nem pedir para ser perdoado; Deus precisava de um exemplo, de modo que nenhum outro ser - terrestre ou celeste - tivesse de novo o atrevimento de ir contra Suas decises.
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Deus expulsou o casal, seus filhos terminaram pagando tambm pelo crime (como acontece at hoje com os filhos de criminosos), e o sistema judicirio fora inventado: lei, transgresso da lei (lgica ou absurda no tinha importncia), julgamento (onde o mais experiente vencia o ingnuo) e castigo.
Como toda a humanidade fora condenada sem direito de reviso de sentena, os seres humanos decidiram criar mecanismos de defesa - para a eventualidade de Deus resolver de novo demonstrar Seu poder arbitrrio. Mas, no decorrer de milnios de estudos, os homens inventaram tantos recursos que terminaram exagerando na dose -- e agora a Justia era um emaranhado de clusulas, jurisprudncias, textos contraditrios que ningum conseguia entender direito.
Tanto  assim que, quando Deus resolveu mudar de idia e mandar o Seu Filho para salvar o mundo, o que acontecera? Cara nas malhas da Justia que Ele havia inventado.
O emaranhado de leis terminou fazendo tanta confuso, que o Filho acabara pregado numa cruz. No foi um processo simples: de Ans para Caifs, dos sacerdotes para Pilatos, que alegou no ter leis suficientes segundo o Cdigo Romano. De Pilatos para Herodes, que - por sua vez - alegou que o cdigo j udeu no permitia a sentena de morte. De Herodes para Pilatos de novo, que ainda tentou uma apelao, oferecendo um acordo jurdico ao povo: aoitou-o e mostrou suas feridas, mas no funcionou.
Como fazem os modernos promotores, Pilatos resolveu promover-se s custas do condenado: ofere
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ceu-se para trocar Jesus por Barrabs, sabendo que a Justia, a esta altura, j se havia convertido num grande espetculo onde  preciso um final apotetico, com a morte do ru.
Finalmente, Pilatos usou o artigo que facultava ao juiz - e no a quem estava sendo julgado - o benefcio da dvida: lavou as mos, o que quer dizer "nem sim, nem no". Era mais um artifcio para preservar o sistema jurdico romano, sem ferir o bom relacionamento com os magistrados locais, e ainda podendo transferir o peso da deciso para o povo no caso daquela sentena terminar criando problemas, fazendo com que algum inspetor da capital do Imprio fosse verificar pessoalmente o que estava acontecendo.
Justia. Direito. Embora fosse indispensvel para ajudar os inocentes, nem sempre funcionava da maneira que todos gostariam. Mari ficou contente de estar longe desta confuso toda, embora esta noite com aquele piano tocando - no estivesse to certa se Villete era o lugar indicado para ela.
` `Se eu decidir sair de vez deste lugar, nunca mais me meto em Justia, no vou mais conviver com loucos que se julgam normais e importantes - mas cuja unica funo na vida  fazer tudo mais difcil para os outros. Vou ser costureira, bordadeira, vou vender frutas em frente ao Teatro Municipal; j cumpri a minha parte de loucura intil."
Em Villete era permitido fumar, mas era proibido jogar o cigarro na grama. Com prazer, ela fez o que era proibido, porque a grande vantagem de estar ali era
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no respeitar regulamentos, e - mesmo assim - no ter que agentar maiores conseqncias.
Aproximou-se da porta de entrada. O guarda sempre havia um guarda ali, afinal esta era a lei cumprimentou-a com um aceno de cabea, e abriu a porta.
- No vou sair - disse ela.
- Belo piano - respondeu o guarda. - Tem acontecido quase todas as noites.
- Mas vai acabar logo - disse, afastando-se rpido para no ter que explicar a razo.
Lembrou-se do que lera nos olhos da moa, no momento em que ela entrou no refeitrio: medo. Medo. Veronika podia sentir insegurana, timi
dez, vergonha, constrangimento, mas por que medo? Este sentimento s justifica-se diante de uma ameaa concreta - como animais ferozes, pessoas armadas, terremotos - jamais de um grupo reunido num refeitrio.
"Mas o ser humano  assim", consolou-se. "Substitui grande parte de suas emoes pelo medo.
E Mari sabia muito bem do que estava falando, porque este fora o motivo que a levara at Villete: a sndrome do pnico.
Mari mantinha no seu quarto uma verdadeira coleo de artigos sobre a doena. Hoje j se falava abertamente do tema, e recentemente vira um programa de televiso alem onde algumas pessoas relatavam as experincias que haviam passado. Neste mesmo
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programa, uma pesquisa revelava que parte significativa da populao humana sofre de sndome do pnico, embora quase todos os afetados procurassem esconder os sintomas, com medo de serem considerados loucos.
Mas na poca em que Mari tivera seu primeiro ataque, nada disso era conhecido. "Foi o inferno. O verdadeiro inferno", pensou, acendendo outro cigarro.
O piano continuava tocando, a moa parecia ter energia suficiente para passar a noite em claro.
Desde que aquela menina entrara no sanatrio , muitos internos haviam sido afetados - e Mari era um deles. No comeo, tinha procurado evit-la, temendo despertar sua vontade de viver; era melhor que continuasse desejando a morte, porque no podia mais fugir. O Dr. Igor deixara escapar o boato de que, embora continuasse lhe dando injees todos os dias, o estado da moa deteriorava a olhos vistos, e no conseguiria salv-la de jeito nenhum.
Os internos haviam entendido o recado, e mantinham distncia da mulher condenada. Mas - sem que ningum soubesse exatamente por que - Veronika comeara a lutar por sua vida, embora apenas duas pessoas se aproximassem dela: Zedka, que iria embora amanh, e no era de falar muito. E Eduard.
Mari precisava ter uma conversa com Eduard: ele sempre a escutava com respeito. Ser que o rapaz no entendia que a estava trazendo de volta ao mundo? E que isso era a pior coisa que podia fazer com uma pessoa sem esperana de salvao?
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Considerou mil possibilidades de explicar o assunto: todas elas envolviam coloc-lo com sentimento
i
A de culpa, e isto ela no faria nunca. Mari refletiu um
i pouco e resolveu deixar as coisas correrem seu ritmo
normal; j no advogava mais, e no queria dar o mau exemplo de criar novas leis de comportamento, num
, :, local onde devia reinar a anarquia.
Mas a presena da menina tinha afetado muita gente ali, e alguns estavam dispostos a repensar suas vidas. Num dos encontros da Fraternidade, algum tentara explicar o que estava acontecendo: os faleci
mentos em Villete aconteciam de repente, sem dar ; tempo de ningum pensar a respeito, ou no final de
uma longa doena - quando a morte sempre  uma bno.
No caso daquela menina, porm, a cena era dramtica - porque era jovem, estava desejando viver de novo, e todos sabiam que isso era impossvel. Algumas pessoas se perguntavam: "e se isso estivesse acontecendo comigo? Como eu tenho uma chance, ser que a "
estou utilizando?
Alguns no se incomodavam com a resposta; h muito tinham desistido, e j faziam parte de um mundo onde no existe nem vida nem morte, nem espao nem tempo. Outros, porm, estavam sendo forados a refletir, e Mari era um deles.
ll9
eronika parou de tocar por um instante, e olhou T Mari l fora, enfrentando o frio noturno com um casaco leve; ser que ela queria se matar?
"No. Quem quis se matar fui eu."
Voltou ao piano. Nos seus ltimos dias de vida, realizara finalmente o grande sonho: tocar com alma e corao, o tempo que quisesse, na altura que achasse melhor. No tinha importncia se a sua nica platia era um rapaz esquizofrnico; ele parecia entender a msica, e isso era o que contava.
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Mari nunca quisera se matar. Ao contrrio, h cinco anos atrs, dentro do mesmo cinema onde fora
hoje, ela assistia horrorizada um filme sobre a misria em El Salvador, e perlsava o quanto sua vida era importante. Nesta poca - com os filhos grandes e encaminhados em suas profisses - estava decidida a largar o aborrecido e interminvel trabalho de advocacia, para dedicar o resto de seus dias numa entidade humanitria. Os rumores de guerra civil no pas cresciam a cada momento, mas Mari no acreditava neles: era impossvel que, no final do sculo, a Comunidade Europia deixasse ocorrer uma nova guerra em suas
portas. Do outro lado do mundo, porm, a escolha das
tragdias era farta: e entre estas tragdias estava a de EI Salvador, com suas crianas passando fome na rua, e sendo obrigadas a prostituir-se.
- Que horror - disse ao marido, sentado na poltrona ao lado.
Ele concordou com a cabea.
Mari vinha adiando a deciso h muito tempo , mas talvez fosse a hora de conversar com ele. J tinham recebido tudo que a vida podia oferecer de bom: casa, trabalho, bons filhos, conforto necessrio, divertimento e cultura. Por que no fazer agora algo pelo prxi
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mo? Mari tinha contatos na Cruz Vermelha, sabia que voluntrios eram desesperadamente necessrios em muitas partes do mundo.
Estava farta de trabalhar com burocracia, processos, sendo incapaz de ajudar gente que passava anos de sua vida para resolver um problema que no havia criado. Trabalhar na Cruz Vermelha, porm, iria dar resultados imediatos.
Resolveu que, assim que sassem do cinema, iria convid-lo para um caf, e discutir a idia.
A tela mostrava algum funcionrio do governo salvadorenho dando uma desculpa desinteressante para determinada injustia, e - de repente - Mari sentiu que seu corao acelerava.
Disse para si mesma que no era nada. Talvez o ar abafado do cinema a estivesse asfixiando; se o sintoma persistisse, ia at a sala de espera respirar um pouco.
Mas, numa sucesso rpida de acontecimentos, o corao comeou a bater mais e mais forte, e ela comeou a suar frio.
Assustou-se, e tentou prestar ateno no filme, para ver se tirava qualquer tipo de pensamento negativo da cabea. Mas viu que j no conseguia acompanhar o que estava acontecendo na tela; as imagens continuavam, os letreiros eram visveis, enquanto Mari parecia haver entrado numa realidade completamente diferente, onde tudo aquilo era estranho, fora de lugar, pertencendo a um mundo onde jamais estivera antes.
- Estou passando mal - disse ao marido. Procurara evitar ao mximo fazer este comentrio, porque significava admitir que algo estava errado com ela. Mas era impossvel adi-lo mais.
- Vamos at l fora - respondeu ele.
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Quando pegou na mo da mulher para ajud-la i a levantar-se, notou que estava gelada. 
- No vou conseguir chegar at l fora. Por favor, me diga o que est acontecendo.
O marido assustou-se. O rosto de Mari estava coberto de suor, e seus olhos tinham um brilho diferente.
- Fique calma. Eu vou sair, e chamar um mdico.
Ela desesperou-se. As palavras faziam sentido, mas todo o resto - o cinema, a penumbra, as pessoas sentadas lado a lado e olhando para uma tela brilhante - tudo aquilo parecia ameaador. Tinha certeza de que estava viva, podia at mesmo tocar a vida ao seu redor, como se fosse slida. E nunca antes passara por aquilo.
- No me deixe aqui sozinha, de maneira nenhuma. Vou levantar, e vou sair com voc. Ande devagar.
Os dois pediram licena aos espectadores que se encontravam na mesma fila, e comearam a caminhar em direo ao fundo da sala, onde estava a porta de sada. O corao de Mari agora estava completamente disparado, e ela tinha certeza, absoluta certeza, de que nunca ia conseguir deixar aquele local. Tudo que fazia, cada gesto seu - colocar um p diante do outro, pedir licena, agarrar-se ao brao do marido, inspirar e expirar - parecia consciente e pensado, e aquilo era aterrador.
Nunca sentira tanto medo em sua vida. Vou morrer dentro de um cinema."
E julgou entender o que estava passando, porque uma amiga sua morrera dentro de um cinema, h
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muitos anos atrs: um aneurisma havia estourado em seu crebro.
Os aneurismas cerebrais so como bombas-relgio. Pequenas varizes que se formam nos vasos sangneos - como bolhas em pneus usados - e que podem passar ali toda a existncia de uma pessoa, sem que nada acontea. Ningum sabe se tem um aneurisma, at que ele  descoberto sem querer - como no caso de uma radiografia do crebro por outros motivos ou no momento em que ele explode, inundando tudo de sangue, colocando a pessoa imediatamente em coma, e geralmente fazendo com que morra em pouco tempo.
Enquanto caminhava pelo corredor da sala escura, Mari lembrava-se da amiga que perdera. O mais estranho, porm, era como a exploso do aneurisma estava afetando a sua percepo: ela parecia ter sido transportada para um planeta diferente, vendo cada coisa familiar como se fosse a primeira vez.
E o medo aterrador, inexplicvel, o pnico de estar s naquele outro planeta. A morte.
"No posso pensar. Tenho que fingir que tudo est bem, e tudo ficar bem."
Procurou agir naturalmente, e por alguns segundos a sensao de estranheza diminuiu. Desde o momento em que tivera o primeiro sintoma de taquicardia, at a hora que alcanou a porta, havia passado os dois minutos mais aterradores de sua vida.
Quando chegaram  sala de espera iluminada, porm, tudo pareceu voltar. As cores eram fortes, o rudo da rua l fora parecia entrar por todos os cantos,
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e as coisas eram absolutamente irreais. Comeou a
reparar em detalhes que nunca antes havia notado: a i nitidez da viso, por exemplo, que cobre apenas uma ; pequena rea onde concentramos nossos olhos, en- '
; quanto o resto fica totalmente desfocado.
i Foi mais longe ainda: sabia que tudo aquilo que
via a sua volta no passava de uma cena criada por impulsos eltricos dentro de seu crebro, utilizando impulsos de luz que atravessavam um corpo gelatinoso, chamado "olho".
No. No podia comear a pensar nisso. Se enveredasse por a, ia terminar completamente louca.
A esta altura, o medo do aneurisma j tinha passado; ela sara da sala de projeo e continuava viva - enquanto sua amiga no tivera nem tempo de mover-se da cadeira.
- Chamarei uma ambulncia - disse o marido ao ver o rosto plido e os lbios sem cor de sua mulher. - Chame um txi - pediu, escutando o som
que saa de sua boca, consciente da vibrao de cada corda vocal.
Ir para o hospital significava aceitar que estava realmente muito mal: Mari estava decidida a lutar at o ltimo minuto para que as coisas voltassem a ser o que eram.
Saram da sala de espera, e o frio cortante pareceu surtir algum efeito positivo; Mari recuperou um pouco o controle de si mesma, embora o pnico, o terror inexplicvel, continuasse. Enquanto o marido, desesperado, tentava encontrar um txi quela hora da noite, ela sentou-se no meio-fio e procurou no olhar o que havia a sua volta- porque os garotos brincando, os nibus passando, a msica que vinha de um parque
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de diverses nas cercanias, tudo aquilo parecia absolutamente surrealista, assustador, irreal.
Um txi finalmente apareceu.
- Para o hospital - disse o marido, ajudando a mulher a entrar.
- Para casa, pelo amor de Deus - pediu ela. No queria mais lugares estranhos, precisava desesperadamente de coisas familiares, iguais, capazes de diminuir o medo que sentia.
Enquanto o txi se dirigia ao destino indicado, a taquicardia foi diminuindo, e a temperatura de seu corpo comeou a voltar ao normal.
- Estou melhorando - disse para o marido. Deve ter sido alguma coisa que comi.
Quando chegaram em casa, o mundo parecia de novo o mesmo que conhecera desde sua infncia. Ao ver o marido dirigir-se ao telefone, perguntou o que ia fazer.
- Chamar um mdico.
- No h necessidade. Olhe para mim, veja que estou bem.
A cor de seu rosto havia voltado, o corao batia normalmente, e o medo incontrolvel tinha desaparecido.
Mari dormiu pesadamente aquela noite, e acordou com uma certeza; algum colocara alguma droga no caf que haviam bebido antes de entrar no cinema. Tudo no passara de uma brincadeira perigosa, e ela estava disposta - no final da tarde - a chamar um
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promotor e ir at o bar para tentarem descobrir o irresponsvel autor da idia.
Foi para o trabalho, despachou alguns processos que estavam pendentes, procurou ocupar-se com os mais diversos assuntos - a experincia do dia anterior ainda a deixava um pouco assustada, e precisava mostrar a si mesma que aquilo no se repetiria nunca mais.
Discutiu com um dos seus scios o filme sobre El Salvador e mencionou - de passagem - que j estava cansada de fazer todo dia a mesma coisa.
- Talvez tenha chegado a hora de me aposentar. - Voc  uma das melhores que temos - disse o scio. - E o Direito  uma das raras profisses onde a idade sempre conta a favor. Por que no tira umas frias prolongadas? Tenho certeza que voltar com ,
entusiasmo para ca.
- Quero dar uma guinada na minha vida. Viver uma aventura, ajudar os outros, fazer algo que nunca fiz. A conversa acabou por ali. Foi at a praa, almo
ou num restaurante mais caro do que aquele em que costumava almoar sempre, e voltou mais cedo para o escritrio - a partir daquele momento, estava comeando a sua retirada.
O resto dos funcionrios ainda no voltara, e Mari aproveitou para ver o trabalho que ainda estava em sua mesa. Abriu a gaveta para pegar uma caneta que sempre colocava no mesmo lugar, e no conseguiu encontr-la. Por uma frao de segundo, pensou que talvez estivesse agindo de maneira estranha, pois no havia recolocado sua caneta onde devia.
Foi o suficiente para que o corao tornasse a disparar, e o terror da noite anterior voltasse com toda a sua fora.
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Mari ficou paralisada. O sol que entrava pelas persianas dava a tudo uma cor diferente, mais viva, mais agressiva, mas ela tinha a sensao de que ia morrer no prximo minuto; tudo aquilo ali era absolutamente estranho, o que estava fazendo naquele escritrio?
"Meu Deus, eu no acredito em voc, mas me ajuda."
Comeou de novo a suar frio, e viu que no conseguia controlar seu medo. Se algum entrasse ali, naquele momento, ia notar seu olhar assustado, e ela estaria perdida.
"O frio."
O frio tinha feito com que se sentisse melhor no dia anterior, mas como chegar at a rua? De novo estava percebendo cada detalhe que se passava com ela - o ritmo da respirao (havia momentos em que sentia que, se no inspirasse e expirasse, o corpo seria incapaz de fazer isso por si mesmo), o movimento da cabea (as imagens mudavam de lugar como se houvesse uma cmara de televiso girando), o corao disparando cada vez mais, o corpo sendo banhado por um suor gelado e pastoso.
E o terror. Sem qualquer explicao, um medo gigantesco de fazer qualquer coisa, dar qualquer passo, sair de onde estava sentada.
"Vai passar."
Tinha passado no dia anterior. Mas agora estava no trabalho, o que fazer? Olhou o relgio - que Ihe pareceu tambm um mecanismo absurdo, com duas agulhas girando em torno do mesmo eixo, indicando uma medida de tempo que ningum jamais dissera por
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que devia ser 12, e no 10 - como todas as outras medidas do homem.
"No posso pensar nestas coisas. Elas me deixam louca. '
Louca. Talvez esta fosse a palavra certa para o que estava lhe acontecendo; juntando toda a sua vontade, Mari levantou-se e caminhou para o banheiro. Felizmente o escritrio continuava vazio, e ela conseguiu chegar aonde queria em um minuto - que lhe pareceu uma eternidade. Lavou o rosto, e a sensao de estranhamento diminuiu, mas o medo continuava.
"Vai passar", dizia para si mesma. "Ontem ,
passou. Lembrava-se que, no dia anterior, tudo havia demorado aproximadamente uns 30 minutos. Trancou-se dentro de um dos toaletes, sentou-se no vaso, e colocou a cabea entre as pernas. A posio fez com que o som de seu corao fosse ampliado, e Mari logo ergueu o corpo.
"Vai passar."
Ficou ali, achando que no conhecia mais a si mesma, estava irremediavelmente perdida. Escutou passos de gente entrando e saindo do banheiro, torneiras sendo abertas e fechadas, conversas inteis sobre temas banais. Mais de uma vez algum tentou abrir a porta do toalete onde estava, mas ela dava um murmrio, e ningum insistia. Os rudos das descargas soavam como algo apavorante, capaz de derrubar o edifcio e levar todas as pessoas para o inferno.
Mas - conforme previra - o medo foi passando, e seu corao foi voltando ao normal. Ainda bem que sua secretria era incompetente o bastante para
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sequer notar a sua falta, ou j todo o escritrio estaria no banheiro, perguntando se ela estava bem.
Quando viu que conseguia manter de novo 0 controle de si mesma, Mari abriu a porta, lavou o rosto por um longo tempo, e voltou para o escritrio.
- A senhora est sem maquiagem - disse uma estagiria. - Quer que eu Ihe empreste a minha? Mari no se deu ao trabalho de responder. Entrou
no escritrio, pegou sua bolsa, seus pertences pessoais, e disse para a secretria que ia passar o resto do dia em casa.
- Mas existem muitos encontros marcados! protestou a secretria.
- Voc no d ordens: recebe. Faa exatamente o que estou mandando: desmarque os encontros.
A secretria acompanhou com os olhos aquela mulher, com quem trabalhava h quase trs anos, e que nunca fora grosseira. Algo muito srio devia estar acontecendo com ela: talvez algum Ihe tivesse dito que o marido estava em casa com uma amante, e ela queria provocar um flagrante de adultrio.
" uma advogada competente, sabe como agir", disse a moa para si mesma. Com certeza, amanh a doutora Ihe pediria desculpas.
No houve amanh. Naquela noite, Mari teve uma longa conversa com o marido, e descreveu-lhe todos os sintomas do que passara a sentir. Juntos, chegaram  concluso que as palpitaes no corao o suor frio, a estranheza, impotncia e descontrole tudo podia ser resumido numa s palavra: medo.
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Marido e mulher estudaram juntos o que estava acontecendo. Ele pensou em um cncer na cabea, mas no disse nada: Ela pensou que estava tendo premonies de algo terrvel, e tampouco disse. Procuraram um terreno comum para conversar, com a lgica e a razo de gente madura.
- Talvez seja bom voc fazer uns exames.
Mari concordou, sob uma condio: ningum, nem mesmo os seus filhos, podiam saber de nada. No dia seguinte solicitou - e recebeu - uma
licena no-remunerada de 30 dias no escritrio de advocacia. O marido pensou em lev-la para a ustria ,
onde estavam os grandes especialistas de doenas no crebro, mas ela recusava-se a sair de casa - os ataques agora eram mais freqentes, e demoravam mais tempo.
Com muito custo, e  base de calmantes, os dois foram at um hospital de Lubljana, e Mari submeteu-se a uma quantidade enorme de exames. Nada de anormal foi encontrado - nem mesmo um aneurisma, o que tranqilizou Mari pelo resto dos anos seguintes.
Mas os ataques de pnico continuavam. Enquanto o marido ocupava-se das compras e cozinhava, Mari fazia uma limpeza diria e compulsiva na casa, para manter a mente concentrada em outras coisas. Comeou a ler todos os livros de psiquiatria que podia encontrar, e parou de ler logo em seguida - porque parecia identificar-se com cada uma das doenas que eram descritas ali.
O mais terrvel de tudo  que os ataques j no eram mais novidade, e mesmo assim ela continuava sentindo pavor, estranhamento diante da realidade, incapacidade de controlar a si mesma. Alm disso
, comeou a culpar-se pela situao do marido, que era
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obrigado a trabalhar dobrado, suprindo suas prprias tarefas como dona de casa - exceto a limpeza.
Com os dias passando, e a situao no se resolvendo, Mari comeou a sentir - e externar - uma irritao profunda. Tudo era motivo para que perdesse a calma e comeasse a gritar, terminando invariavelmente num choro compulsivo.
Depois de trinta dias, o scio de Mari no escritrio apareceu em sua casa. Ele ligava todos os dias, mas ela no atendia o telefone, ou mandava o marido dizer que estava ocupada. Naquela tarde, ele simplesmente ficou tocando a campainha, at que ela abrisse a porta.
Mari tinha passado uma manh tranqila. Preparou um ch, conversaram sobre o escritrio, e ele perguntou quando ela voltaria a trabalhar.
- Nunca mais.
Ele recordou a conversa sobre El Salvador.
- Voc sempre deu o melhor de si, e tem o direito de escolher o que quiser - disse ele, sem qualquer rancor na voz. - Mas penso que o trabalho, nestes casos,  a melhor de todas as terapias. Faa as suas viagens, conhea o mundo, seja til onde acha que esto precisando de voc, mas as portas do escritrio esto abertas, esperando sua volta.
Ao ouvir isso, Mari caiu em prantos - como costumava fazer agora, com muita facilidade.
O scio esperou at que ela se acalmasse. Como bom advogado, no perguntou nada; sabia que tinha mais chances de conseguir uma resposta com o seu silncio, do que com uma pergunta.
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E assim foi. Mari contou a histria, desde o que acontecera no cinema, at os seus recentes ataques histricos com o marido, que tanto a apoiava.
- Estou louca - disse.
-  uma possibilidade - respondeu ele, com ar de quem entende tudo, mas com ternura em sua voz. - Neste caso, voc tem duas coisas a fazer: tratar-se
, ou continuar doente.
- No h tratamento para o que estou sentindo. Continuo em pleno domnio de minhas faculdades mentais, e estou tensa porque esta situao j se prolonga por muito tempo. Mas no tenho os sintomas clssicos da loucura - como ausncia da realidade
, desinteresse, ou agressividade descontrolada. Apenas medo.
-  o que todos os loucos dizem: que so normais.
Os dois riram, e ela preparou um pouco mais de ch. Conversaram sobre o tempo, o sucesso da independncia eslovena, as tenses que agora surgiam entre a Crocia e a Iugoslvia. Mari assistia TV o dia inteiro, e estava muito bem informada sobre tudo.
Antes de se despedir, o scio tornou a tocar no assunto.
- Acabam de abrir um sanatrio na cidade disse. - Capital externo, e tratamento de primeiro mundo.
- Tratamento de qu?
- Desequilbrios, vamos dizer assim. E medo em exagero  um desequilbrio.
Mari prometeu pensar no assunto, mas no tomou nenhuma deciso neste seritido. Continuou a ter ataques de pnico por mais um ms, at entender que
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no apenas sua vida pessoal, mas seu casamento estava vindo abaixo. De novo pediu alguns calmantes, e ousou sair de casa- pela segunda vez em sessenta dias.
Tomou um txi, e foi at o novo sanatrio. No caminho, o motorista perguntou se ia visitar algum. - Falam que  muito confortvel, mas dizem
tambm que os loucos so furiosos, e que os tratamentos incluem choques eltricos.
- Vou visitar algum - respondeu Mari.
Bastou apenas uma hora de conversa para que dois meses de sofrimento de Mari terminassem. O chefe da instituio - um homem alto com cabelos tingidos de negro, que atendia pelo nome de Dr. Igor - explicou que tratava-se de apenas um caso de Sndrome do Pnico, doena recm-admitida nos anais da psiquiatria universal.
- No quer dizer que a doena seja nova explicou, com o cuidado de ser bem compreendido. - Acontece que as pessoas afetadas costumavam escond-la, com medo de serem confundidos com loucos.  apenas um desequilbrio qumico no organismo
, como  o caso da depresso.
Dr. Igor escreveu uma receita, e pediu que voltasse para casa.
- No quero voltar agora - respondeu Mari. - Mesmo com tudo que o senhor me disse, no vou ter coragem de sair na rua. Meu casamento virou um inferno, e preciso deixar que meu marido tambm se recupere destes meses que passou cuidando de mim.
Como sempre acontecia em casos como este j que os acionistas queriam manter o hospcio fun
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cionando em plena capacidade - o Dr. Igor aceitou a internao, embora deixando bem claro que no era ,.
necessaria.
Mari recebeu a medicao adequada, teve um acompanhamento psicolgico, e os sintomas diminuram - terminando por passar completamente.
Neste meio tempo, porm, a histria da internao de Mari correu a pequena cidade de Lubljana. O seu scio, amigo de muitos anos, companheiro de no se sabe quantas horas de alegria e medo, veio visit-la em Villete. Cumprimentou-a pela coragem de aceitar seu conselho, e procurar ajuda. Mas logo disse a razo por que viera:
- Talvez seja mesmo hora de voc se aposentar. Mari entendeu o que estava por trs daquelas palavras: ningum ia querer confiar seus negcios a . uma advogada que j tinha sido internada num hos,.
picio. _ - Voc disse que o trabalho era a melhor terapia.
Eu preciso voltar, nem que seja por um tempo muito curto.
Ela aguardou qualquer reao, mas ele no disse nada. Mari continuou:
- Voc mesmo sugeriu que eu me tratasse. Quando eu pensava em aposentadoria, estava pensando em sair vitoriosa, realizada, por minha livre e espontnea vontade. No quero largar meu emprego assim, porque fui derrotada. D-me pelo menos uma chance de recuperar minha auto-estima, e ento eu peo a aposentadoria.
O advogado pigarreou.
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- Eu sugeri que voc se tratasse, no que se internasse.
- Mas era uma questo de sobrevivncia. Eu simplesmente no conseguia sair na rua, o meu casamento estava acabando.
Mari sabia que estava jogando suas palavras fora. Nada do que fizesse iria conseguir dissuadi-lo - afinal de contas, era o prestgio do escritrio que estava em jogo. Mesmo assim, tentou mais uma vez.
- Eu aqui dentro tenho convivido com dois tipos de pessoas: gente que no tem chance de voltar  sociedade, e gente que est absolutamente curada, mas prefere fingir-se de louca, para no ter que enfrentar as responsabilidades da vida. Eu quero, eu preciso voltar a gostar de mim mesma, devo convencer-me que sou capaz de tomar minhas prprias decises. No posso ser empurrada para coisas que no escolhi.
- Ns podemos cometer muitos erros em nossas vidas - disse o advogado. - Menos um: aquele que nos destri.
No adiantava continuar a conversa: na opinio dele, Mari havia cometido o erro fatal.
Dois dias depois, anunciaram a visita de outro advogado - desta vez de um escritrio diferente
, considerado o melhor rival dos seus agora ex-companheiros. Mari animou-se: talvez ele soubesse que ela estava livre para aceitar um novo emprego, e ali estava a chance de recuperar o seu lugar no mundo.
O advogado entrou na sala de visitas, sentou-se diante dela, sorriu, perguntou se j estava melhor, e tirou vrios papis da mala.
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- Estou aqui por causa do seu marido - disse. - Isto  um pedido de divrcio.  claro, ele pagar suas despesas de hospital pelo tempo que permanecer aqui.
Desta vez, Mari no reagiu. Assinou tudo, mesmo sabendo que - de acordo com a Justia que havia aprendido - podia prolongar indefinidamente aquela briga. Em seguida, foi at o Dr. Igor, e disse que os sintomas de pnico haviam retornado.
Dr. Igor sabia que ela estava mentindo, mas prolongou a internao por tempo indeterminado.
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eronika resolveu se deitar, mas Eduard continuava  de p, ao lado do piano.
- Estou cansada, Eduard. Preciso dormir. Gostaria de continuar tocando para ele, retirando de sua memria anestesiada todas as sonatas, rquiens, adgios que conhecia - porque ele sabia admirar sem exigir. Mas seu corpo no agentava mais.
Ele era um homem to bonito! Se pelo menos sasse um pouco de seu mundo e a olhasse como uma mulher, ento as suas ltimas noites nesta terra podiam ser as mais belas de sua vida, porque Eduard era o nico capaz de entender que Veronika era uma artista. Conseguira com aquele homem um tipo de ligao como jamais conseguira com algum-atravs da emoo pura de uma sonata ou de um minueto.
Eduard era o homem ideal. Sensvel, educado, que destrura um mundo desinteressante para recri-lo de novo em sua cabea, desta vez com novas cores, personagens, histrias. E este mundo novo inclua uma mulher, um piano, e uma lua que continuava a
	crescer.
	- Eu podia me apaixonar agora, entregar tudo
	que tenho a voc - disse, sabendo que ele no podia
	entend-la. - Voc me pede apenas um pouco de
	msica, mas eu sou muito mais do que pensava que
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era, e gostaria de dividir outras coisas que passei a entender.
Eduard sorriu. Ser que tinha compreendido? Veronika ficou com medo - o manual do bom comportamento diz que no se deve falar de amor de uma maneira to direta, e jamais com um homem que vira to poucas vezes. Mas resolveu continuar, porque no tinha nada a perder.
- Voc  o nico homem na face da Terra pelo qual eu posso me apaixonar, Eduard. Simplesmente porque, quando eu morrer, voc no sentir minha falta. No sei o que um esquizofrnico sente, mas certamente no deve ser saudades de algum.
"Talvez, no incio, voc estranhe o fato de que no existe mais msica durante a noite; entretanto, sempre que a lua aparecer, haver algum disposto a tocar sonatas, principalmente num sanatrio - j que
todos ns aqui somos `lunticos'." '.: No sabia qual a relao entre os loucos e a lua,
mas devia ser muito forte, pois usavam uma palavra daquelas para descrever os doentes mentais.
- E eu tampouco vou sentir falta de voc , Eduard, porque vou estar morta, longe daqui. E como no tenho medo de perd-lo, no me importo com o que voc vai pensar ou no de mim, eu hoje toquei para voc como uma mulher apaixonada. Foi timo. Foi o melhor momento de minha vida.
Olhou para Mari l fora. Lembrou-se de suas palavras. E tornou a olhar para o rapaz a sua frente.
Veronika tirou o suter, aproximou-se de Eduard - se tivesse que fazer algo, que fosse agora. Mari no
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ia agentar o frio l fora por muito tempo, e logo tornaria a entrar.
Ele recuou. A pergunta em seus olhos era outra: quando iria voltar para o piano? Quando tocaria uma nova msica, para encher sua alma com as mesmas cores, sofrimentos, dores, e alegrias daqueles compositores loucos, que tinham atravessado tantas geraes com suas obras?
-A mulher l fora me disse: "masturbe-se. Saiba onde quer chegar". Ser que posso ir mais longe do que sempre fui?
Ela pegou sua mo, e quis conduzi-lo at o sof, mas Eduard polidamente recusou. Preferia ficar de p onde estava, ao lado do piano, esperando pacientemente que ela voltasse a tocar.
Veronika ficou desconcertada, e logo se deu conta que nada tinha a perder. Estava morta, de que adiantava ficar alimentando medos ou preconceitos com que sempre limitaram a sua vida? Tirou a blusa, a cala, o suti, a calcinha, e ficou nua diante dele.
Eduard riu. Ela no sabia de que, mas reparou que ele rira. Delicadamente, pegou sua mo, e colocou-a em seu sexo; a mo ficou ali, imvel. Veronika desistiu da idia, e retirou-a.
Algo a estava excitando muito mais do que um contato fsico com aquele homem: o fato de que podia fazer o que quisesse, de que no havia limites - exceto pela mulher l fora, que podia entrar a qualquer hora, ningum mais devia estar acordado.
O sangue comeou a correr mais rpido, e o frio - sentira ao se despir - foi desaparecendo. Os dois
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estavam de p, frente a frente, ela nua, ele totalmente vestido. Veronika desceu a mo at o seu sexo, e comeou a masturbar-se; j fizera aquilo antes, sozinha ou com alguns parceiros - mas nunca numa situao como esta, onde o homem no demonstrava qualquer interesse pelo que estava acontecendo.
E isso era excitante, muito excitante. De p, com as pernas abertas, Veronika tocava seu sexo, seus seios, seus cabelos, entregando-se como nunca se entregara, nem tanto porque queria ver aquele rapaz saindo do seu mundo distante, mas porque nunca tinha experimentado isto.
Comeou a falar, a dizer coisas impensveis, que seus pais, seus amigos, seus ancestrais considerariam o que havia de mais sujo no mundo. Veio o primeiro orgasmo, e ela mordeu os lbios para no gritar de prazer.
Eduard a encarava. Havia um brilho diferente nos seus olhos, parecia que estava compreendendo alguma coisa, nem que fosse a energia, o calor, o suor, o cheiro que exalava do seu corpo. Veronika ainda no estava satisfeita. Ajoelhou-se, e comeou a masturbar-se de
novo. Queria morrer de gozo, de prazer, pensando e
realizando tudo que sempre lhe fora proibido: implorou ao homem que a tocasse, que a submetesse, que a usasse para tudo o que tinha vontade. Quis que Zedka estivesse tambm ali, porque uma mulher sabe como tocar o corpo da outra como nenhum homem consegue, j que conhece todos os seus segredos.
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De joelhos, diante daquele homem em p, ela sentiu-se possuda e tocada, e usou palavras pesadas para descrever o que queria que ele Ihe fizesse. Um novo orgasmo foi chegando, desta vez mais forte que nunca, como se tudo a sua volta fosse explodir. Lembrou-se do ataque do corao que tivera aquela manh, mas isto no tinha mais nenhuma importncia, ia morrer gozando, explodindo. Sentiu-se tentada a segurar o sexo de Eduard, que se encontrava bem diante do seu rosto, mas no queria correr nenhum risco de estragar aquele momento; estava indo longe, muito longe, exatamente como Mari dissera.
Imaginou-se rainha e escrava, dominadora e dominada. Em sua fantasia, fazia amor com brancos, negros, amarelos, homossexuais, mendigos. Era de todos, e todos podiam fazer tudo. Teve um, dois, trs orgasmos seguidos. Imaginou tudo que nunca imaginara antes - e entregou-se ao que havia de mais vil e mais puro. Finalmente, no conseguiu mais conter-se e gritou muito, de prazer, da dor dos orgasmos seguidos, dos muitos homens e mulheres que tinham entrado e sado do seu corpo, usando as portas de sua mente.
Deitou-se no cho, e deixou-se ficar ali, inundada de suor, com a alma cheia de paz. Escondera seus desejos ocultos de si mesma, sem nunca saber direito por que - e no precisava de uma resposta. Bastava ter feito o que fizera: entregar-se.
Pouco a pouco, o Universo foi voltando ao seu lugar, e Veronika levantou-se. Eduard se mantivera imvel o tempo todo, mas algo nele parecia ter muda
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do: seus olhos demonstravam ternura, uma ternura muito prxima deste mundo.
"Foi to bom que consigo ver amor em tudo. At mesmo nos olhos de um esquizofrnico."
Comeou a colocar suas roupas, e sentiu uma terceira presena na sala.
Mari estava ali. Veronika no sabia quando ela havia entrado, o que escutara ou vira, mas mesmo assim no sentia vergonha ou medo. Apenas olhou-a, com a mesma distncia com que se olha uma pessoa prxima demais.
- Fiz o que voc sugeriu - disse. - Cheguei longe.
Mari permaneceu em silncio; tinha acabado de revier momentos muito importantes de sua vida, e sentia um certo mal-estar. Talvez fosse hora de voltar para o mundo, enfrentar as coisas l fora, dizer que todos podiam ser membros de uma grande Fraternidade, mesmo sem nunca terem conhecido um hos,.
picio. Como aquela garota, por exemplo - cuja nica razo por estar em Villete era ter atentado contra a prpria vida. Ela jamais conhecera o pnico, a depresso, as vises msticas, as psicoses, os limites que a mente humana nos pode levar. Embora conhecesse tantos homens, nunca experimentara o que h de mais oculto em seus desejos - e o resultado  que no conhecia nem metade de sua vida. Ah, se todos pudessem conhecer e conviver com sua loucura interior! O mundo seria pior? No, as pessoas seriam mais justas e mais felizes.
- Por que nunca fiz isso antes?
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- Ele quer que voc toque mais uma msica disse Mari, olhando para Eduard. - Acho que merece.
- Farei isso, mas responda: por que nunca tinha feito isso antes? Se sou livre, se posso pensar em tudo que quero, por que sempre evitei imaginar situaes proibidas?
- Proibidas? Escute: eu j fui advogada, e conheo as leis. Tambm j fui catlica, e sabia de cor grande parte da Bblia. O que voc quer dizer com "proibida"?
Mari aproximou-se dela, e ajudou-a a vestir o suter.
- Olhe bem nos meus olhos, e no esquea o que vou lhe dizer. S existem duas coisas proibidas uma pela lei do homem, outra pela lei de Deus. Nunca force uma relao com algum, que  considerado estupro. E nunca tenha relaes com crianas, porque este  o pior dos pecados. Afora isto, voc  livre. Sempre existe algum querendo exatamente a mesma coisa que voc deseja.
Mari no estava com pacincia de ensinar coisas importantes a algum que iria morrer logo. Com um sorriso, disse "boa-noite" e retirou-se.
Eduard no se moveu, esperando sua msica. Veronika precisava recompens-lo pelo imenso prazer que ele lhe dera, s pelo fato de permanecer diante dela, olhando sua loucura sem pavor ou repulsa. Sentou-se no piano e recomeou a tocar.
Sua alma estava leve, e nem mesmo o medo da morte lhe atormentava mais. Tinha vivido o que sempre escondera de si mesma. Tinha experimentado
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os prazeres de virgem e de prostituta, de escrava e rainha - mais de escrava do que de rainha.
Naquela noite, como por milagre, todas as canes que sabia voltaram a sua mente, e ela fez com que Eduard tivesse quase tanto prazer quanto ela.
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	uando acendeu a luz, o Dr. Igor ficou surpreso
	ao ver a moa sentada na sala de espera do seu
	con ultrio.
	- Ainda  muito cedo. E estou com o dia cheio.
	- Sei que  cedo - disse ela. - E o dia ainda
	no comeou. Preciso falar um pouco, s um pouco.
	Preciso de ajuda.
Ela estava com olheiras, a pele sem brilho, sintomas tpicos de quem passara a noite inteira em claro.
Dr. Igor resolveu deix-la entrar.
Pediu que sentasse, acendeu a luz do consultrio , e abriu as cortinas. Ia amanhecer em menos de uma hora, e logo poderia economizar os gastos com eletricdade; os acionistas sempre se importavam com despesas, por mais insignificantes que fossem.
Deu uma rpida olhada em sua agenda: Zedka j havia tomado seu ltimo choque de insulina, e reagira bem - ou melhor, conseguira sobreviver ao tratamento desumano. Ainda bem que, naquele caso especfico, o Dr. Igor exigira que o Conselho do hospital assinasse uma declarao, responsabilizando-se pelos resultados.
Passou a examinar os relatrios. Dois ou trs pacientes tinham se comportado de maneira agressiva
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durante a noite, segundo relato de enfermeiros
g,,: entre eles Eduard, que voltara para sua enfermaria s
quatro horas da manh, e recusara-se tomar os comprimidos para dormir. Dr. Igor precisava tomar uma providncia; por mais liberal que Villete fosse do lado de dentro, era preciso manter as aparncias de uma instituio conservadora e severa.
- Tenho algo muito importante para pedir disse a moa.
Mas o Dr. Igor no lhe deu ateno. Pegando um estetoscpio, comeou a auscultar o seu pulmo e corao. Testou seus reflexos, e examinou o fundo da retina com uma pequena lanterna porttil. Viu que ela quase no tinha mais sinais de envenenamento por Vitrolo - ou Amargura, como todos preferiam chamar.
Em seguida, foi at o telefone e pediu para a enfermeira trazer um remdio de nome complicado. - Parece que voc no tomou sua injeo ontem  noite - disse ele.
- Mas estou me sentindo melhor.
- D para ver no seu rosto: olheiras, cansao, falta de reflexos imediatos. Se voc quer aproveitar o pouco tempo que lhe resta, por favor faa o que eu mando.
- Justamente por isso que estou aqui. Quero aproveitar o pouco tempo, mas  minha maneira. Quanto tempo sobra?
O Dr. Igor olhou-a por sobre os culos.
- O senhor pode me responder - insistiu ela. - J no tenho medo, nem indiferena, nem nada. Tenho vontade de viver, mas sei que isso no basta, e estou conformada com meu destino.
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			- Ento o que quer?
	'		A enfermeira entrou com a injeo. Dr. Igor f
		um sinal com a cabea; ela levantou delicadamente
		manga do suter de Veronika.
			- Quanto tempo me resta? - repetiu Veronik
		enquanto a enfermeira aplicava a injeo.
			- Vinte e quatro horas. Talvez menos.
			Ela abaixou os olhos, e mordeu os lbios. Ms
		manteve o controle.
			- Quero pedir dois favores. O primeiro, que m
		d um remdio, uma injeo, seja o que for - d
		modo que eu posso ficar acordada, e aproveitar cad
		minuto do que sobrou de minha vida. Eu estou cor
		muito sono, mas no quero mais dormir, tenho muir
		o que fazer - coisas que sempre deixei para o futurc
		quando pensava que a vida era eterna. Coisas pela
		quais perdi o interesse, quando passei a acreditar qu
		a vida no valia a pena.
			- Qual o seu segundo pedido?
			- Sair daqui, e morrer l fora. Preciso subir n
		castelo de Lubljana, que sempre esteve ali, e nunca tiv
		a curiosidade de v-lo de perto. Preciso conversar cor
		a mulher que vende castanhas no inverno, e flores n
		primavera; quantas vezes nos cruzamos, e eu nunca lh
		perguntei como passava? Quero andar na neve ser
		casaco, sentindo o frio extremo - eu, que sempre e;
		tive bem agasalhada, com medo de pegar um resfriadc
	i '		"Enfim, Dr. Igor, eu preciso apanhar chuva n
	;	rosto, sorrir para os homens que me interessam, aceita
		todos os cafs para os quais me convidam. Tenho qu
		beijar minha me, dizer que a amo, chorar no seu col
		- sem vergonha de mostrar meus sentimentos, po
		que eles sempre existiram, e eu os escondi.
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"Talvez eu entre na igreja, olhe aquelas imagens que nunca me disseram nada, e elas terminem me dizendo alguma coisa. Se um homem interessante me convdar para uma boate, eu vou aceitar, e vou danar a noite inteira, at cair exausta. Depois irei para a cama com ele - mas no da maneira como fui com outros, ora tentando manter o controle, ora fingindo coisas que no sentia. Quero me entregar a um homem,  cidade,  vida e, finalmente,  morte."
Houve um pesado silncio quando Veronika acabou de falar. Mdico e paciente se olhavam nos olhos
, absortos, talvez distrados com as muitas possibilidades que simples 24 horas podiam oferecer.
- Posso lhe dar alguns medicamentos estimulantes, mas no aconselho seu uso - disse finalmente o Dr. Igor. - Eles afastaro o sono, mas tambm levaro embora a paz que voc necessita para viver tudo sso.
Veronika comeou a sentir-se mal; sempre que tomava aquela injeo, atgo de ruim acontecia no seu corpo.
- Voc est ficando mais plida. Talvez seja melhor ir para a cama, e voltaremos a conversar amanh.
Ela sentiu de novo vontade de chorar, mas continuou mantendo o controle.
- No haver amanh, e o senhor sabe disso. Estou cansada, Dr. Igor, extremamente cansada. Por isso , pedi os comprimidos. Passei a noite em claro, entre o desespero e a aceitao. Podia ter um novo ataque histrico de medo, como aconteceu ontem, mas
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de que adiantaria? Se ainda tenho vinte e quatro horas de vida, e h tantas coisas diante de mim, decidi que era melhor deixar o desespero de lado.
"Por favor, Dr. Igor, deixe-me viver o pouco tempo que me resta - porque ns dois sabemos que amanh pode ser tarde."
- V dormir - insistiu o mdico. - E volte aqui ao meio-dia. Tornaremos a conversar.
Veronika viu que no havia sada.
- Vou dormir, e voltarei. Mas ainda temos alguns minutos?
- Alguns poucos minutos. Estou muito ocupado hoje.
- Vou ser direta. Ontem  noite, pela primeira vez, eu me masturbei de uma maneira completamente livre. Pensei em tudo que nunca ousara pensar, tive prazer em coisas que antes me assustavam ou me repeliam.
O Dr. Igor assumiu a postura mais profissional possvel. No sabia onde esta conversa podia levar, e no queria problemas com seus superiores.
- Descobri que sou uma pervertida, doutor. Quero saber se isso colaborou para que eu tentasse suicdio. H muitas coisas que eu desconhecia em mim mesma.
"Bem,  apenas uma resposta", pensou ele. "No preciso chamar a enfermeira para testemunhar a conversa, e evitar futuros processos por abuso sexual."
- Todos ns queremos fazer coisas diferentes respondeu. - E os nossos parceiros tambm. O que h de errado?
- Responda o senhor.
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- H tudo de errado. Porque quando todos sonham e s alguns poucos realizam, o mundo inteiro sente-se covarde.
- Mesmo que estes poucos estejam certos?
- Quem est certo  quem  mais forte. Neste caso, paradoxalmente, os covardes so mais corajosos, e conseguem impor suas idias.
Dr. Igor no queria ir mais longe.
- Por favor, v descansar um pouco, porque tenho outros pacientes a atender. Se voc colaborar ,
verei o que posso fazer com relao ao seu segundo pedido.
	A moa saiu. Sua prxima paciente era Zedka
	,
	que deveria receber alta, mas Dr. Igor pediu que
	esperasse um pouco; precisava tomar algumas notas
	sobre a conversa que acabara de ter.
	Era necessrio incluir um extenso captulo sobre
	sexo na sua dissertao sobre o Vitrolo. Afinal, grande
	parte das neuroses e psicoses provinham dali - segun-
	do ele, as fantasias so impulsos eltricos no crebro
	,
	e, uma vez no sendo realizadas, terminam descarre-
	gando sua energia em outras reas.
	Durante seu curso de medicina, Dr. Igor lera um
	interessante tratado sobre as minorias sexuais: sadis-
	mo, masoquismo, homossexualismo, coprofagia, voy-
	eurismo, desejo de dizer palavras srdidas - enfim, a
	lista era muito extensa. No incio, achava que aquilo
	era apenas o desvio de algumas pessoas desajustadas,
	que no conseguiam ter um relacionamento saudvel
	com seu parceiro.
	151
Entretanto,  medida que ia avanando na profisso de psiquiatra - e entrevistando seus pacientes dava-se conta que todo mundo tinha algo de diferente para contar. Sentavam-se na confortvel poltrona de seu escritrio, olhavam para baixo, e comeavam uma longa dissertao sobre o que chamavam de "doenas" (como se no fosse ele o mdico!) ou "perverses" (como se no fosse ele o psiquiatra encarregado de decidir!).
E, uma por uma, as pessoas "normais" descreviam fantasias que constavam do famoso livro sobre as minorias erticas - um livro, alis, que defendia o direito de cada um ter o orgasmo que quisesse, desde que no violentasse o direito do seu parceiro.
Mulheres que tinham estudado em colgios de freira sonhavam em serem humilhadas; homens de terno e gravata, funcionrios pblicos de alto escalo, dizendo que gastavam fortunas com prostitutas rumenas para que apenas pudessem lamber-Ihes os ps. Rapazes apaixonados por rapazes, moas enamoradas pelas amigas de colgio. Maridos que queriam ver suas mulheres possudas por estranhos, mulheres que se masturbavam cada vez que encontravam uma pista do adultrio do seu homem. Mes que precisavam controlar o impulso de entregar-se ao primeiro homem que tocava a campainha para entregar algo, pais que contavam aventuras secretas com os rarssimos travestis que conseguiam passar o rigoroso controle da fronteira.
E orgias. Parecia que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, desejava participar de uma orgia. Dr. Igor largou um pouco a caneta, e refletiu
sobre si mesmo: ele tambm? Sim, ele tambm gostaria. A orgia, tal qual a imaginava, devia ser algo
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completamente anrquico, alegre, onde o sentimento de posse no existia mais - apenas o prazer e a confuso.
Seria este um dos principais motivos para a grande quantidade de pessoas envenenadas pela Amargura? Casamentos restritos a um monotesmo forado, onde o desejo sexual - segundo estudos que o Dr. Igor guardava cuidadosamente em sua biblioteca mdica - desaparecia no terceiro ou quarto ano de convivncia. A partir dali, a mulher sentia=se rejeitada, o homem sentia-se escravo do casamento - e o Vitrolo
, a Amargura, comeava a destruir tudo.
As pessoas, diante de um psiquiatra, falavam mais abertamente do que diante de um padre - porque o mdico no pode ameaar com inferno. Durante sua longa carreira de psiquiatra, Dr. Igor j tinha uvido praticamente tudo que elas tinham para contar.
Contar. Raramente fazer. Mesmo depois de vrios anos de profisso, ele ainda se perguntava por que tanto medo de ser diferente.
Quando procurava saber a razo, a resposta que mais escutava era: "meu marido vai pensar que sou uma prostituta". Quando era um homem que estava na sua frente, este invariavelmente dizia: "minha mulher merece respeito".
E a conversa geralmente parava por a. No adiantava dizer que todas as pessoas tinham um perfil sexual diferente, to distinto como as suas impresses digitais: ningum queria acreditar nisso. Era muito arriscado ser livre na cama, com medo de que o outro ainda fosse escravo de seus preconceitos.
"No vou mudar o mundo", resignou-se, pedindo que a enfermeira mandasse entrar a ex-depressiva.
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"Mas pelo menos posso dizer o que penso em minha tese."
Eduard viu que Veronika saa do consultrio do Dr. Igor, e encaminhava-se para a enfermaria. Teve vontade de contar seus segredos, abrir sua alma para ela, com a mesma honestidade e liberdade com que na noite anterior - ela abrira seu corpo para ele.
Tinha sido uma das mais duras provas por que passara - desde que ingressara em Villete como esquizofrnico. Mas conseguira resistir, e estava contente - embora seu desejo de voltar a este mundo comeasse a incomod-lo.
"Todo mundo aqui sabe que esta moa no resistir at o final da semana. No adiantaria nada."
Ou talvez, justamente por isso, fosse bom dividir com ela a sua histria. H trs anos conversava apenas com Mari, e mesmo assim no tinha certeza de que ela o compreendia perfeitamente; como me, ela devia achar que seus pais tinham razo, que desejavam apenas o melhor para ele, que as vises do paraso eram um sonho bobo de adolescente, totalmente fora do mundo real.
Vises do Paraso. Exatamente o que o levara ao inferno, s brigas sem fim com a famlia,  sensao de culpa to forte que o deixara incapaz de reagir, e o obrigara a refugiar-se num outro mundo. Se no fosse por Mari, ele ainda estaria vivendo nesta realidade separada.
Entretanto Mari aparecera, cuidara dele, fizera com que se sentisse de novo amado. Graas a isso,
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Eduard ainda era capaz de saber o que acontecia a sua volta.
H alguns dias atrs, uma moa de sua idade sentara-se ao piano para tocar "Sonata ao Luar". Sem saber se a culpa era da msica, ou da moa, ou da lua, ou do tempo que j passara em Villete, Eduard sentira que as vises do Paraso comeavam a incomod-lo de novo.
Ele a seguiu at a enfermaria de mulheres, onde foi barrado por um enfermeiro.
-Aqui voc no pode entrar, Eduard. Volte para o jardim; est amanhecendo, e vai fazer um dia lindo. Veronika olhou para trs.
- Vou dormir um pouco - ela Ihe disse, delicadamente. - Conversamos quando eu acordar. Veronika no entendia por que, mas aquele rapaz
passara a fazer parte do seu mundo - ou do pouco que restara dele. Tinha certeza que Eduard era capaz de compreender sua msica, admirar seu talento; mesmo que no conseguisse dar uma palavra, seus olhos diziam tudo.
Como neste momento, na porta da enfermaria, quando falavam coisas que ela no queria ouvir. Ternura. Amor.
"Esta convivncia com doentes mentais me fez enlouquecer rpido." Esquizofrnicos no sentem isso - no por seres deste mundo.
Veronika sentiu o impulso de voltar para lhe dar um beijo, mas controlou-se; o enfermeiro podia ver, contar ao Dr. Igor, e o mdico na certa no daria
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permisso para que uma mulher que beija esquizofrnicos sasse de Villete.
Eduard encarou o enfermeiro. Sua atrao por aquela moa era mais forte do que imaginava - mas precisava se controlar, ia aconselhar-se com Mari, a nica pessoa com quem dividia seus segredos. Na certa ela lhe diria que o que estava querendo sentir - amor - era perigoso e intil num caso como aqueles. Mari pediria para que Eduard deixasse de bobagem, e voltasse a ser um esquizofrnico normal (e depois daria uma risada gostosa, porque a frase no fazia qualquer sentido) .
Juntou-se aos outros internos no refeitrio, comeu o que lhe ofereceram, e saiu para o obrigatrio passeio no jardim. Durante o "banho de sol" (naquele dia a temperatura estava abaixo de zero), ele tentou aproximar-se de Mari. Mas ela estava com um jeito de algum que deseja ficar sozinho. No precisava dizerIhe nada, pois Eduard conhecia o suficiente da solido para saber respeit-la.
Um novo interno chegou perto de Eduard. Ainda no devia conhecer as pessoas.
"Deus puniu a humanidade", dizia. "E puniu com a peste. Entretanto, eu O vi em meus sonhos Ele pediu que eu viesse salvar a Eslovnia."
Eduard comeou a afastar-se, enquanto o homem gritava:
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"Voc acha que sou louco? Ento leia os evangelhos! Deus enviou Seu filho, e Seu filho volta pela ,
segunda vez!'
Mas Eduard j no 0 ouvia mais. Olhava as montanhas do lado de fora, e perguntava o que estava acontecendo com ele. Por que tinha vontade de sair dali, se encontrara finalmente a paz que tanto buscava? Por que arriscar-se a envergonhar de novo os seus pais, quando todos os problemas da famlia j estavam resolvidos? Comeou a ficar agitado, andando de um lado para o outro, esperando que Mari sasse de seu mutismo e pudessem conversar - mas ela parecia mais distante que nunca.
Sabia como fugir de Villete - por mais severa que a segurana pudesse parecer, tinha muitas falhas. Simplesmente porque, uma vez do lado de dentro, as pessoas tinham muito pouca vontade de voltar para o lado de fora. Havia um muro, do lado oeste, que podia ser escalado sem grandes dificuldades, j que estava cheio de rachaduras; quem resolvesse ultrapass-lo logo estaria num campo, e - cinco minutos depois, seguindo em direo norte - encontraria uma estrada para a Crocia. A guerra j tinha terminado, os irmos eram de novo irmos, as fronteiras no eram mais to vigiadas como antes; com um pouco de sorte, poderia estar em Belgrado em seis horas.
, Eduard j estivera vrias vezes naquela estrada
mas sempre resolvera voltar, porque ainda no havia recebido um sinal para ir adiante. Agora as coisas eram
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diferentes: este sinal finalmente chegara, sob a forma de uma moa de olhos verdes, cabelos castanhos, e jeito assustado de quem acredita que sabe o que quer.
Eduard pensou em ir direto para o muro, sair dali, e nunca mais ser visto na Eslovnia. Mas a moa dormia, ele precisava ao menos despedir-se dela.
No final do banho de sol, quando a Fraternidade se reuniu na sala de estar, Eduard juntou-se a eles.
- O que este louco est fazendo aqui? - perguntou o mais velho do grupo.
- Deixe-o - disse Mari. - Ns tambm somos loucos.
Todos riram, e comearam a conversar sobre a palestra do dia anterior. A questo era: ser que realmente a meditao sufi podia transformar o mundo? Apareceram teorias, sugestes, modos de usar, idias contrrias, crticas ao conferencista, maneiras de melhorar o que j havia sido testado por tantos sculos.
Eduard estava farto daquele tipo de discusso. As pessoas se trancavam num hospcio e ficavam salvando o mundo, sem se preocuparem em correr os riscos porque sabiam que l fora todos os chamariam de ridculos, mesmo que tivessem idias muito concretas. Cada uma daquelas pessoas tinha uma teoria especial sobre tudo, e acreditava que sua verdade era a nica que importava; passavam dias, noites, semanas, e anos conversando, sem jamais aceitarem a nica realidade que h por trs de uma idia: boa ou m, ela s existe quando algum tenta coloc-la em prtica.
O que era meditao sufi? O que era Deus? O que era a salvao, se  que o mundo precisava ser salvo?
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Nada. Se todos ali - e l fora - vivessem suas vidas e deixassem que os outros fizessem o mesmo, Deus estaria em cada instante, em cada gro de mostarda, no pedao de nuvem que se mostra e se desfaz no momento seguinte. Deus estava ali, e mesmo assim as pessoas acreditavam que era preciso continuar procurando, porque parecia simples demais aceitar que a vida era um ato de f.
Lembrou-se do exerccio to singelo, to simples, que escutara o mestre sufi ensinando, enquanto esperava Veronika voltar ao piano: olhar uma rosa. Era preciso mais que isso?
Mesmo assim, depois da experincia da meditao profunda, depois de terem chegado to perto das vises do paraso, ali estavam aquelas pessoas discutindo, argumentando, criticando, estabelecendo teorias.
Cruzou seus olhos com os de Mari. Ela evitou-o, mas Eduard estava decidido a terminar de vez com aquela situao; aproximou-se dela e segurou-a pelo brao.
Pare com isso, Eduard.
Ele podia dizer: "venha comigo". Mas no queria faz-lo na frente daquela gente, que ficaria surpresa com o tom firme de sua voz. Por isso, preferiu ajoelhar-se e implorar com seus olhos.
Os homens e mulheres riram.
- Voc virou uma santa para ele, Mari - algum comentou. - Foi a meditao de ontem.
Mas os anos de silncio de Eduard o tinham ensinado a falar com os olhos; era capaz de colocar toda a sua energia neles. Da mesma maneira que tinha absoluta certeza que Veronika percebera sua ternura e
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seu amor, sabia que Mari iria entender seu desespero, porque ele estava precisando muito dela.
Ela relutou mais um pouco. Finalmente, levantou-o e pegou-o pela mo.
- Vamos dar um passeio - disse. - Voc est nervoso.
Os dois tornaram a sair para o jardim. Assim que estavam a uma distncia segura, certos de que ningum assistia a conversa, Eduard quebrou o silncio.
- Durante anos permaneci aqui em Villete disse. - Deixei de envergonhar meus pais, deixei minhas ambies de lado, mas as vises do Paraso permaneceram.
- Sei disso - respondeu Mari. - J conversamos a respeito muitas vezes. E sei tambm onde voc quer chegar:  hora de sair.
Eduard olhou o cu; ser que ela sentia o mesmo? - E  por causa da garota - continuou Mari. - J vimos muita gente morrer aqui dentro, sempre no momento em que no esperavam, e geralmente depois de terem desistido da vida. Mas esta  a primeira vez que isso acontece com uma pessoa jovem, bonita, saudvel - com tanta coisa pela frente para viver.
"Veronika  a nica que no desejaria continuar em Villete para sempre. E isto nos fez perguntar: e ns? O que procuramos aqui?"
Ele fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Ento, ontem  noite, eu tambm me perguntei o que estava fazendo neste sanatrio. E achei que seria muito mais interessante estar na praa, nas Trs Pontes, no mercado em frente ao teatro - comprando
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mas e discutindo o tempo. Claro que estaria lidando com coisas j esquecidas - como contas a pagar, dificuldades com os vizinhos, olhar irnico de gente que no me compreende, solido, reclamaes de meus filhos. Mas penso que isso tudo faz parte da vida, e o preo de enfrentar estes pequenos problemas  bem menor que o preo de no reconhec-los como nossos.
"Estou pensando em ir  casa de meu ex-marido hoje, s para dizer `obrigada'. O que voc acha?"
- Nada. Ser que devia ir at a casa dos meus pais, e dizer o mesmo?
- Talvez. No fundo, a culpa de tudo que acontece em nossa vida  exclusivamente nossa. Muitas pessoas passaram pelas mesmas dificuldades que passamos, e reagiram de maneira diferente. Ns procuramos o mais fcil: uma realidade separada.
Eduard sabia que Mari tinha razo.
- Estou com vontade de recomear a viver, Eduard. Cometendo os erros que sempre desejei e nunca tive coragem. Enfrentando o pnico que pode voltar a surgir, mas cuja presena apenas me dar cansao, porque sei que no vou morrer ou desmaiar por causa dele. Posso arranjar novos amigos, e ensin-los a serem loucos, para que sejam sbios. Direi que no sigam o manual do bom comportamento, descubram suas prprias vidas, desejos, aventuras, e VIVAM! Citarei o Eclesiastes para os catlicos, o Coro para os islmicos, a Torah para os judeus, os textos de Aristteles para os ateus. Nunca mais quero ser advogada, mas posso usar minha experincia para dar conferncias sobre homens e mulheres que conheceram a verdade desta existncia, e cujos escritos podem ser resu
, midos em uma nica palavra: "Vivam". Se voc viver
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Deus viver com voc. Se voc se recusar a correr seus riscos, Ele retornar ao distante Cu, e ser apenas um tema de especulao filosfica.
"Todo mundo sabe disso. Mas ningum d o primeiro passo. Talvez por medo de ser chamado de louco. E, pelo menos, este medo ns no temos, Eduard. J passamos por Villete."
- S no podemos ser candidatos  Presidncia da Repblica. A oposio ia explorar muito o nosso passado.
Mari riu e concordou.
- Cansei desta vida. No sei se vou conseguir superar meu medo, mas estou farta da Fraternidade, deste jardim, de Villete, de fingir que sou louca.
- Se eu fizer isso, voc faz? - Voc no far isso.
- Quase fiz, h alguns minutos atrs.
- No sei. Cansei disso tudo, mas j estou acostumada.
- Quando entrei aqui, com diagnstico de esquizofrenia, voc passou dias, meses, me dando ateno e me tratando como um ser humano. Eu tambm estava me acostumando com a vida que decidira levar, com a outra realidade que crei, mas voc no deixou. Eu a odiei, e hoje a amo. Quero que voc saia de Villete, Mari, como eu sa do meu mundo separado.
Mari afastou-se sem dar resposta.
Na pequena- e nunca freqentada- biblioteca de Villete, Eduard no achou o Coro, nem Aristteles, nem outros filsofos que Mari se referira. Mas ali estava o texto de um poeta:
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"Por isso disse para mim mesmo:  sorte do insensato ser tambm a minha.'
"Vai, come teu po com alegria, e bebe gostosamente o teu vinho porque Deus j aceitou tuas obras.
Que tuas vestes sejam brancas todo o tempo, e nunca falte perfume em tua cabea. Desfruta a vida com a mulher amada
em todos os teus dias de vaidade que Deus te concedeu debaixo do sol. Porque esta  tua poro na vida
e no trabalho que te afadigas debaixo do sol. Segue os caminhos do teu corao
e o desejo dos teus olhos, sabendo que Deus te pedir contas. "
- Deus pedir contas no final - disse Eduard em voz alta - E eu direi: "por algum tempo da minha vida fiquei olhando o vento, me esqueci de semear, no desfrutei meus dias, nem sequer bebi o vinho que me era oferecido. Mas um dia me julguei pronto, e voltei ao meu trabalho. Contei aos homens as minhas vises do Paraso, como Bosch, Van Gogh, Wagner, Beethoven, Einstein, e outros loucos fizeram antes de mim." Bom, Ele dir que eu sa do hospcio para no ver uma menina morrendo, mas ela estar l no cu, e interceder por mim.
- O que voc est dizendo? - interrompeu o encarregado da biblioteca.
- Quero sair de Villete agora - respondeu Eduard, num tom de voz mais alto do que o normal. - Tenho o que fazer.
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O empregado apertou uma campainha, e em pouco tempo dois enfermeiros apareceram.
- Quero sair - repetiu Eduard, agitado. Estou bem, deixe-me falar com o Dr. Igor.
Mas os dois homens j o tinham agarrado, um por cada brao. Eduard tentava soltar-se dos braos dos enfermeiros, mesmo sabendo que era intil.
- Voc est tendo uma crise, fique tranqilo disse um deles. - Vamos cuidar disso.
Eduard comeou a debater-se.
- Deixem-me falar com o Dr. Igor. Tenho muito o que dizer a ele, tenho certeza que vai entender!
Os homens j o arrastavam para a enfermaria. - Soltem-me! - gritava. - Deixem-me falar pelo menos um minuto!
O caminho para a enfermaria passava pelo meio da sala de estar, e todos os outros internos estavam ali reunidos. Eduard debatia-se, e o ambiente comeou a ficar agitado.
- Deixe-o livre! Ele  louco!
Alguns riam, outros batiam com as mos nas mesas e cadeiras.
- Isto  um hospcio! Ningum  obrigado a se comportar como vocs!
Um dos homens sussurrou para o outro:
- Precisamos assust-los, ou daqui a pouco a situao se tornar incontrolvel.
- S h um jeito.
- Dr. Igor no vai gostar.
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- Ser pior ver este bando de manacos quebrando seu sanatrio adorado.
Veronika acordou sobressaltada, suando frio. O barulho l fora era grande, e ela precisava de silncio para continuar a dormir. Mas a barulheira continuava.
Levantou-se meio tonta, e caminhou at a sala de estar, a tempo de ver Eduard sendo arrastado, enquanto outros enfermeiros chegavam s pressas com seringas preparadas.
- O que vocs esto fazendo? - gritou. - Veronika!
O esquizofrnico tinha falado com ela! Tinha dito o seu nome! Numa mistura de vergonha e surpresa, tentou aproximar-se, mas um dos enfermeiros a impediu.
- O que  isso? Eu no estou aqui porque sou louca! Vocs no podem me tratar assim!
Conseguiu empurrar o enfermeiro, enquanto os outros internos gritavam e faziam uma algazarra que a deixou com medo. Ser que devia procurar o Dr. Igor
, e ir embora imediatamente?
- Veronika!
Ele dissera de novo o seu nome. Num esforo sobre-humano, Eduard conseguiu livrar-se dos dois homens. Ao invs de sair correndo, ficou em p, imvel, da mesma maneira que ficara na noite anterior. Como num passe de mgica, todo mundo parou
, esperando o prximo movimento.
Um dos enfermeiros tornou a aproximar-se, mas Eduard olhou-o, usando de novo toda a sua energia.
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- Vou com vocs. J sei aonde esto me levando ,
e sei tambm que desejam que todos saibam. Esperem apenas um minuto.
O enfermeiro decidiu que valia a pena correr o risco; afinal de contas, tudo parecia haver voltado ao normal.
- Eu acho que voc... eu acho que voc  importante para mim - disse Eduard para Veronika.
- Voc no pode falar. Voc no vive neste mundo, no sabe que eu me chamo Veronika. Voc no esteve comigo ontem  noite, por favor, diga que no esteve!
- Estive.
Ela pegou sua mo. Os loucos gritavam, aplaudiam, diziam coisas obscenas.
- Onde esto te levando? - Para um tratamento. - Eu vou com voc.
- No vale a pena. Voc vai ficar assustada , mesmo que eu lhe garanta que no di, no se sente nada. E  muito melhor que os calmantes, porque a lucidez volta mais rpido.
Veronika no sabia do que ele estava falando. Arrependera-se de ter segurado sua mo, queria ir embora o mais rpido possvel, esconder sua vergonha, nunca mais ver aquele homem que presenciara o que havia de mais srdido nela - e mesmo assim continuava a trat-la com ternura.
Mas, de novo, lembrou-se das palavras de Mari: no precisava dar explicaes de sua vida para ningum, nem mesmo para o rapaz a sua frente.
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- Eu vou com voc.
Os enfermeiros acharam que talvez fosse melhor assim: o esquizofrnico j no precisava ser dominado ,
estava indo por vontade prpria.
Quando chegaram no dormitrio, Eduard deitou-se voluntariamente na cama. J havia mais dois homens esperando, com uma estranha mquina e uma bolsa com tiras de pano.
Eduard virou-se para Veronika, e pediu que sentasse na cama ao lado.
- Em alguns minutos, a histria vai correr por Villete inteira. E as pessoas ficaro calmas, porque mesmo a mais furiosa das loucuras carrega sua dose de medo. S quem j passou por isso,  que sabe que no  to terrvel assim.
Os enfermeiros escutaram a conversa, e no acreditaram no que o esquizofrnico dizia. Devia doer muito - mas ningum pode saber o que se passa na cabea de um louco. A nica coisa que o rapaz dissera de sensato era sobre o medo: a histria correria por Villete, e a calma voltaria rapidamente.
- Voc se deitou antes da hora - disse um deles. Eduard levantou-se, e eles estenderam uma espcie de cobertor de borracha. "Agora sim, pode dei"
tar. Ele obedeceu. Estava tranqilo, como se tudo aquilo no passasse de rotina.
Os enfermeiros amarraram algumas tiras de pano em torno do corpo de Eduard, e colocaram uma borracha em sua boca.
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-  para que ele no morda involuntariamente a lngua - disse um dos homens para Veronika, contente de dar uma informao tcnica junto com uma advertncia.
Colocaram a estranha mquina - no muito maior que uma caixa de sapatos, com alguns botes e trs visores com ponteiros - numa cadeira ao lado da cama. Dois fios saam da sua parte superior, e terminavam em algo parecido com fones de ouvido.
Um dos enfermeiros colocou os fones nas tmporas de Eduard. O outro pareceu regular o mecanismo, torcendo alguns botes, ora para a direita, ora para a esquerda. Embora rio podendo falar por causa da borracha na boca, Eduard mantinha seus olhos nos dela, e parecia dizer: "no se preocupe, no se assuste".
- Est regulado para 130 volts em 0.3 segundos - disse o enfermeiro que cuidava da mquina. L vai.
Ele apertou um boto, e a mquina emitiu um zumbido. Neste mesmo momento, os olhos de Eduard ficaram vidrados, seu corpo retorceu-s.e na cama com tal fria que - se no fosse pelas tiras de pano amarradas - teria partido a coluna.
- Parem com isso! - gritou Veronika.
- J paramos - respondeu o enfermeiro, retirando os fones da cabea de Eduard. Mesmo assim, o corpo continuava a contorcer-se, a cabea balanando de um lado para o outro, com tal violncia que um dos homens resolveu agarr-la. O outro guardou a mquina numa sacola, e sentou-se para fumar um
cigarro.
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A cena durou alguns minutos. O corpo parecia voltar ao normal, e logo recomeavam os espasmos enquanto um dos enfermeiros redobrava sua fora para manter firme a cabea de Eduard. Aos poucos, as contraes foram diminuindo, at que cessaram por completo. Eduard mantinha os olhos abertos, e um dos homens fechou-os, como se faz com os mortos.
Depois tirou a borracha da boca do rapaz, desamarrou-o, e guardou as tiras de pano na sacola onde ,
estava a maquna.
- O efeito do eletrochoque dura uma hora disse para a moa, que j no gritava mais, e parecia hipnotizada pelo que estava vendo. ~ Est tudo bem
, ele logo voltar ao normal, e estar mais calmo.
Assim que a descarga eltrica atngiu-o, Eduard sentiu o que j experimentara antes: a viso normal ia diminuindo, como se algum fechasse uma cortinaat que tudo desaparecia por completo. No havia qualquer dor ou sofrmento - mas j assistra a outros loucos sendo tratados por eletrochoque, e sabia o quanto horrvel parecia a cena.
Eduard agora estava em paz. Se, momentos antes, estava reconhecendo algum tipo de sentimento novo em seu corao, se comeava a perceber que o amor no era apenas aquilo que seus pas lhe davam, o eletrochoque - ou Terapia Eletroconvulsiva (TEC), como preferiam chamar os especialistas- com certeza iria faz-lo voltar ao normal.
O principal efeito da TEC era o esquecimento das memrias recentes. Eduard no podia alimentar sonhos impossveis. No podia ficar olhando para um
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	futuro que no existia; seus pensamentos deviam per-
	manecer voltados para o passado, ou ia terminar que-
	rendo retornar novamente  vida.
Uma hora mais tarde, Zedka entrou na enfermaria quase deserta - exceto por um leito, onde um rapaz estava deitado. E por uma cadeira, onde uma moa estava sentada.
Quando chegou perto, viu que a moa havia vomitado de novo, e sua cabea estava baixa, pendendo para a direita.
Zedka virou-se para chamar socorro, mas Veronika levantou a cabea.
- No  nada - disse. - Tive outro ataque , .,
mas a passou.
Zedka pegou-a carinhosamente, e levou-a at o banheiro.
-  um banheiro de homens - disse a moa. - No h ningum aqui, no se preocupe. Retirou o suter imundo, lavou-o, e colocou-o
em cima do radiador de calefao. Depois, tirou sua prpria blusa de l, e vestiu-a em Veronika.
- Fique com isso. Vim aqui para despedir-me. A menina parecia distante, como se nada a interessasse mais. Zedka a conduziu de volta  cadeira onde ela estava sentada.
- Eduard vai acordar daqui a pouco. Talvez custe a se lembrar do que aconteceu, mas a memria retornar rpido. No fique assustada se ele no a reconhecer nos primeiros instantes.
- No ficarei - respondeu Veronika. - Porque tampouco reconheo a mim mesma.
i7o
Zedka puxou uma cadeira, e sentou-se ao lado dela. Ficara em Villete tanto tempo, que no custava permanecer mais alguns minutos com aquela menina.
- Lembra-se de nosso primeiro encontro? Naquele dia eu lhe contei uma histria, para tentar explicar que o mundo  exatamente da maneira que o vemos. Todos achavam o rei louco, porque ele queria impor uma ordem que j no existia na mente dos seus sditos.
"Entretanto, h coisas na vida que, no importa de que lado as enxerguemos, continuam sempre as mesmas - e valem para todo mundo. Como o amor, "
por exemplo.
Zedka notou que os olhos de Veronika haviam mudado. Resolveu continuar.
- Eu diria que, se algum tem muito pouco tempo de vida, e resolve passar este pouco tempo que lhe resta diante de uma cama, olhando um homem dormindo, h algo de amor. Diria mais: se durante este tempo, esta pessoa teve um ataque cardaco, e ficou em silncio - s para no ter que sair de perto daquele homem -  porque este amor pode crescer muito.
- Pode ser tambm desespero - disse Veronika. - Uma tentativa de provar que, afinal de contas, no h motivos para se continuar lutando debaixo do sol. No posso estar apaixonada por um homem que vive em outro mundo.
- Todos ns vivemos em nosso prprio mundo. Mas se voc olhar para o cu estrelado, ver que todos estes mundos diferentes se combinam, formando constelaes, sistemas solares, galxias.
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	Veronika levantou-se e foi at a cabeceira de Eduard.
	Carinhosamente, passou as mos nos seus cabelos. Estava
	contente por ter algum com quem conversar.
	- H muitos anos atrs, quando eu era uma
	criana e minha me me obrigava a aprender piano,
	eu dizia a mim mesma que s seria capaz de toc-lo
	bem quando estivesse apaixonada. Ontem  noite, pela
	primeira vez na minha vida, senti que as notas saam
	de meus dedos como se eu no tivesse controle algum
	sobre o que fazia.
	"Uma fora me guiava, construa melodias e acor-
	des que nunca pensei ser capaz de tocar: Eu me entre-
	gara ao piano porque tinha acabado de me entregar a
	este homem, sem que ele tivesse tocado um fio sequer
	do meu cabelo. Ontem eu no fui eu mesma, nem
	quando me entreguei ao sexo, nem quando toquei
	piano. Mesmo assim, acho que fui eu mesma."
	Veronika balanou a cabea.
	- Nada do que estou dizendo faz sentido.
Zedka lembrou-se de seus encontros no espao, com todos aqueles seres que flutuavam em dimenses diferentes. Quis contar para Veronika, mas ficou com medo de confundi-la mais ainda.
- Antes que voc repita que vai morrer, quero dizer algo: h gente que passa a vida inteira procurando um momento como o que voc teve ontem  noite, e no consegue. Por isso, se voc tiver que morrer agora, morra com o corao cheio de amor.
Zedka levantou-se.
- Voc no tem nada a perder. Muita gente no se perrrite amar justamente por causa disso - porque h muita coisa, muito futuro e passado em jogo. No seu caso, existe apenas o presente.
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Ela aproximou-se, e deu um beijo em Veronika. - Se eu ficar aqui por mais tempo, vou terminar
desistindo de ir embora. Estou curada da minha depresso, mas descobri, aqui dentro, outros tipos de loucura. Quero carreg-los comigo, e comear a ver a vida com meus prprios olhos.
"Quando entrei, era uma mulher deprimida. Hoje, sou uma mulher louca, e tenho muito orgulho disso. L fora, me comportarei exatamente como os outros. Farei as compras no supermercado, conversarei trivialidades com minhas amigas, perderei algum tempo importante diante da televiso. Mas sei que minha alma est livre, e eu posso sonhar e conversar com outros mundos que, antes de entrar aqui, nem sonhava que existiam.
"Vou me permitir fazer algumas bobagens, s para que as pessoas digam: ela saiu de Villete! Mas sei que minha alma estar completa, porque minha vida tem um sentido. Poderei olhar um pr-do-sol e acreditar que Deus est por trs dele. Quando algum me aborrecer muito, eu direi alguma barbaridade, e no vou me incomodar com o que pensam, j que todos diro: ela saiu de Villete!
"Vou olhar os homens na rua, dentro de seus olhos, sem vergonha de me sentir desejada. Mas, logo depois, passarei numa loja de produtos importados, comprarei os melhores vinhos que meu dinheiro puder comprar, e farei meu marido beber junto comigo, porque quero rir com ele - a quem tanto amo.
"Ele me dir, rindo: voc est louca! E eu responderei: claro, estive em Villete! E a loucura me libertou. Agora, meu adorado marido, voc tem que pedir frias todos os anos, e me levar a conhecer algumas monta
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nhas perigosas, porque preciso correr o risco de estar viva.
As pessoas vo dizer: ela saiu de Villete, e est enlouquecendo o marido! E ele entender que as pessoas tm razo, e dar graas a Deus porque o nosso casamento est comeando agora, e ns somos loucos - como so loucos os que inventaram o amor."
Zedka saiu, cantarolando uma msica que Veronika nunca havia escutado.
174
dia estava sendo exaustivo, mas recompensador.  O Dr. Igor procurava manter a fleugma e a indiferena de um cientista, mas quase no consegma controlar seu entusiasmo: os testes para a cura do envenenamento por Vitrolo estavam dando resultados surpreendentes!
- Voc no tem hora marcada hoje - disse para Mari, que havia entrado sem bater na porta.
- No vou demorar muito. Na verdade, gostaria de pedir apenas uma opinio.
"Hoje todos esto querendo apenas uma opinio", pensou o Dr. Igor, lembrando-se da menina e sua pergunta sobre sexo.
- Eduard acaba de receber um choque eltrico. - Terapia Eletroconvulsiva; por favor use o nome correto, ou vai parecer que somos um grupo de brbaros. - Dr. Igor conseguira disfarar a surpresa
, mas depois iria apurar quem tinha decidido aquilo. E se voc quer minha opinio sobre o assunto, devo esclarecer que a TEC no  aplicada hoje como era antigamente.
- Mas  perigoso.
- Era muito perigoso; no sabiam a voltagem exata, o local certo onde colocar os eletrodos, e muita gente morreu de derrame cerebral durante o tratamen
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	to. Mas as coisas mudaram: hoje em dia, a TEC est
	voltando a ser utilizada com muito mais preciso tc-
	nica, e tem a vantagem de provocar uma amnsia
	rpida, evitando a intoxicao qumica por uso pro-
	longado de medicamentos. Leia algumas revistas psi-
	quitricas, por favor, e no confunda a TEC com os
	choques eltricos dos torturadores sul-americanos.
	"Pronto. A opinio pedida est dada. Agora tenho
	que voltar ao trabalho."
	Mari no se mexeu.
- No foi isso que vim perguntar. Na verdade, o que quero saber  se posso sair daqui.
- Voc sai quando quer, e volta porque assim deseja- e porque seu marido ainda tem dinheiro para mant-la num lugar caro como este. Talvez voc devesse me perguntar: estou curada? E minha resposta  outra pergunta: curada de qu?
"Voc dir: curada do meu medo, da Sndrome de Pnico. E eu responderei: bem, Mari, h trs anos voc no sofre mais disso."
- Ento estou curada.
- Claro que no. Sua doena no  essa. Na tese que estou escrevendo para apresentar  Academia de Cincias da Eslovnia (Dr. Igor no queria entrar em detalhes sobre o Vitrolo), procuro estudar o comportamento humano dito "normal". Muitos mdicos antes de mim j fizeram este estudo, chegando  conclu
'. so que a normalidade  apenas uma questo de consenso; ou seja, se muita gente pensa que uma coisa est certa, esta coisa passa a estar certa.
"Existem coisas que so governadas pelo bom senso humano: colocar os botes na frente da camisa  uma questo lgica, j que ficaria muito difcil abo
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to-los de lado, e impossvel aboto-los se estivessem nas costas.
"Outras coisas, porm, vo se impondo porque cada vez mais gente acredita que elas tm que ser assim. Vou lhe dar dois exemplos: voc j se perguntou por que as letras de um teclado de mquina de escrever so colocadas naquela ordem?
- Nunca me perguntei isso.
- Chamemos este teclado de QWERTY, j que as letras da primeira linha esto dispostas assim. Eu me perguntei o porqu disso, e encontrei a resposta: a primeira mquina foi inventada por Christopher Scholes, em 1873, para melhorar a caligrafia. Mas ela apresentava um problema: se a pessoa datilografava com muita velocidade, os tipos se chocavam e travavam a mquina. Ento Scholes desenhou o teclado QWERTY, um teclado que obrigava os datilgrafos a andarem devagar.
- No acredito.
- Mas  verdade. Acontece que a Remington na poca, fabricante de mquinas de costura - usou o teclado QWERTY para suas primeiras mquinas de escrever. O que significa que mais pessoas foram obrigadas a aprender este sistema, e mais companhias passaram a fabricar estes teclados, at que ele se tornou o nico padro existente. Repetindo: o teclado das mquinas, e dos computadores, foi desenhado para
, que se digitasse mais lentamente, e no mais rpido
entendeu? V tentar trocar as letras de lugar, e no encontrar um comprador para o seu produto. Quando vira um teclado pela primeira vez, Mari
perguntara-se por que no estava em ordem alfabtica. Mas nunca mais repetira a pergunta - acreditava que
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	aquele era o melhor desenho para que as pessoas
	datilografassem rpido.
	- Voc conhece Florena? - perguntou o Dr.
	Igor.
	- No.
- Devia conhecer, no est muito longe, e ali est o meu segundo exemplo. Na Catedral de Florena, h um relgio belssimo, desenhado por Paolo Uccello em 1443. Acontece que este relgio tem uma curiosidade: embora marque as horas - como todos os outros - os ponteiros andam em sentido contrrio ao que estamos acostumados.
- O que isso tem a ver com minha doena?
- Eu vou chegar l. Paolo Uccello, ao criar este relgio, no estava tentando ser original: na verdade, naquele momento havia alguns relgios assim, e outros com os ponteiros andando no sentido que hoje conhecemos. Por alguma razo desconhecida, talvez porque o Duque tinha um relgio com os ponteiros andando no sentido que hoje conhecemos como "certo", este terminou se impondo como o nico sentido - e o relgio de Uccello passou a ser uma aberrao, uma loucura.
Dr. Igor fez uma pausa. Mas sabia que Mari estava acompanhando o seu raciocnio.
- Ento, vamos a sua doena: cada ser humano  nico, com suas prprias qualidades, instintos, formas de prazer, busca da aventura. Mas a sociedade termina impondo uma maneira coletiva de agir - e as pessoas no param para se perguntar por que precisam se comportar assim. Apenas aceitam, como os datilgrafos aceitaram o fato de que o QWERTY era o melhor teclado possvel. Voc conheceu algum, em
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toda a sua vida, que tenha perguntado por que os ponteiros de relgio andam numa direo, e no em sentido contrrio?
- No.
- Se algum perguntasse, provavelmente iria escutar: voc est louco! Se insistisse na pergunta, as pessoas tentariam achar uma razo, mas logo mudariam de assunto - porque no h qualquer razo alem da que expliquei.
"Ento eu volto a sua pergunta. Repita-a.
- Estou curada?
- No. Voc  uma pessoa diferente, querendo ser igual. E isto, no meu ponto de vista,  considerado uma doena grave.
-  grave ser diferente?
-  grave forar-se a ser igual: provoca neuroses, psicoses, paranias.  grave querer ser igual, porque isso  forar a natureza,  ir contra as leis de Deus que, em todos os bosques e florestas do mundo, no criou uma s folha igual a outra. Mas voc acha uma loucura ser diferente, e por isso escolheu Villete para viver. Porque, aqui, como todos so diferentes, voc passa a ser igual a todo mundo. Entendeu?
Mari fez que "sim" com a cabea.
- Por no terem coragem de ser diferentes, as pessoas vo contra a natureza, e o organismo comea a produzir o Vitrolo - ou Amargura, como  vulgarmente conhecido este veneno.
- O que  Vitrolo?
Dr. Igor percebeu que tinha se empolgado muito, e resolveu mudar de assunto.
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- No tem importncia o que  Vitrolo. O que quero dizer  o seguinte: tudo indica que voc no est curada.
Mari tinha anos de experincia nos tribunais, e resolveu coloc-los em prtica ali mesmo. A primeira ttica era fingir que estava de acordo com o oponente, para logo em seguida enred-lo num outro raciocnio.
- Concordo com o senhor. Eu vim aqui por um motivo muito concreto - a Sndrome do Pnico e terminei ficando por um motivo muito abstrato: incapacidade de encarar uma vida diferente, sem emprego e sem marido. Concordo com o senhor: eu tinha perdido a vontade de comear uma vida nova,  qual precisava me acostumar de novo. E vou mais longe: concordo que num hospcio, mesmo com os eletrochoques - perdo, TEC, como o senhor prefere -, os horrios, os ataques de histeria de alguns internos, as regras so mais fceis de aturar que as leis de um mundo que, como o senhor diz, Faz tudo para seriguaL
"Acontece que, ontem  noite, eu ouvi uma mulher tocando piano. Ela tocou magistralmente, como raramente ouvi. Enquanto escutava as msicas, pensava em todos que sofreram para compor aquelas sonatas, preldios, adgios: no ridculo que passaram quando foram mostrar suas peas - diferentes - aos que mandavam no mundo da msica. Na dificuldade e na humilhao de conseguir algum que financiasse uma orquestra. Nas vaias que podem ter recebido de um pblico que ainda no estava acostumado com tais harmonias.
" Pior que tudo isso, eu pensava: no apenas os compositores sofreram, mas esta moa os est tocando com tanta alma, porque sabe que vai morrer. E eu, no
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vou morrer tambm? Onde deixei minha alma, para poder tocar a msica de minha vida com o mesmo "
entusiasmo? Dr. Igor ouvia em silncio. Parece que tudo que havia pensado estava dando resultado, mas ainda era cedo para ter certeza.
- Onde deixei minha alma? - perguntou de novo Mari. - No meu passado. Naquilo que eu queria que fosse minha vida. Deixei minha alma presa naquele momento onde havia uma casa, um marido, um emprego do qual eu queria me livrar mas nunca tomava coragem.
"Minha alma estava em meu passado. Mas hoje ela chegou at aqui, e eu a sinto de novo em meu corpo ,
cheia de entusiasmo. No sei o que fazer; sei apenas que demorei trs anos para entender que a vida me empurrava para um caminho diferente, e eu no "
queria ir.
-Acho que noto alguns sintomas de melhoradisse o Dr. Igor.
- Eu no precisava pedir para deixar Villete. Bastava cruzar o porto, e nunca mais voltar. Mas precisava dizer tudo isso a algum, e estou dizendo ao senhor: a morte desta menina me fez entender minha vida.
- Penso que estes sintomas de melhora esto se transformando numa cura milagrosa- riu o Dr. Igor. - O que pretende fazer?
- Ir para El Salvador, cuidar das crianas.
- No precisa ir to longe: a menos de duzentos quilmetros daqui, est Sarajevo. A guerra terminou ,
mas os problemas continuam. - Irei para Sarajevo.
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O Dr. Igor tirou um formulrio da gaveta, preencheu-o cuidadosamente. Depois levantou-se, e conduziu Mari at a porta.
- V com Deus - disse ele, voltando para o escritrio e fechando logo a porta. No gostava de se afeioar aos seus pacientes, mas nunca conseguia evitar. Mari ia fazer falta em Villete.
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uando Eduard abriu os olhos, a moa ainda estava ali. Em suas primeiras sesses de eletrocho
que, passava muito tempo tentando se lembrar do que acontecera - afinal, este era justamente o efeito teraputico daquele tratamento: provocar uma amnsia parcial, de modo que o doente esquecesse o problema que o alligia, e permitir que ficasse mais calmo.
Entretanto,  medida que os eletrochoques eram aplicados com mais freqncia, seus efeitos no se faziam sentir por muito tempo; ele logo identificou a moa.
- Voc falou das vises do Paraso enquanto dormia - disse ela, passando a mo nos seus cabelos. Vises do Paraso? Sim, vises do Paraso. Eduard
olhou para ela. Queria contar tudo.
Neste momento, porm, uma enfermeira entrou, com uma injeo.
- Voc tem que tomar agora - disse para Veronika. - Ordens do Dr. Igor.
- J tomei hoje, no vou tomar nada - respondeu ela. - Tampouco me interessa sair deste lugar. No vou obedecer nenhuma ordem, nenhuma regra, nada que qiserem me forar a fazer.
A enfermeira parecia acostumada a este tipo de reao.
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		- Ento, infelizmente, teremos que dop-la.
		- Eu preciso conversar com voc - disse
	Eduard. - Tome a injeo.
		Veronika levantou as mangas do suter, e a enfer-
	meira aplicou a droga.
		- Boa menina - disse. - Por que no saem
	desta enfermaria lgubre, e vo passear um pouco l
	fora?
- Voc est envergonhada pelo que aconteceu ontem  noite - disse Eduard, enquanto caminhavam pelo jardim.
- J estive. Agora estou orgulhosa. Quero saber das vises do Paraso, porque estive muito prxima de uma delas.
- Preciso olhar mais longe, para alm dos prdios de Villete - disse.
- Faa isso.
Eduard olhou para trs, no para as paredes das enfermarias, ou para o jardim onde os internos caminhavam em silncio - mas para uma rua num outro continente, numa terra onde chovia muito ou no chovia nada.
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Eduard podia sentir o cheiro daquela terra - era o tempo da seca, e a poeira entrava pelo seu nariz e
lhe dava prazer, porque sentir a terra  sentir-se vivo. Pedalava uma bicicleta importada, tinha dezessete anos, e acabara de sair do colgio americano de Braslia, onde todos os outros filhos de diplomata estudavam.
Detestava Braslia, mas amava os brasileiros. Seu pai tinha sido nomeado embaixador da Iugoslvia dois anos antes, numa poca em que nem sequer sonhavam com a sangrenta diviso do pas. Milosevic ainda estava no poder; homens e mulheres viviam com suas diferenas, e procuravam harmonizar-se alm dos conflitos regionais.
O primeiro posto de seu pai fora exatamente o Brasil. Eduard sonhava com praias, carnaval, partidas ,
de futebol, msica - mas fora parar naquela capital , longe da costa, criada apenas para abrigar polticos burocratas, diplomatas, e os filhos de todos eles, que no sabiam direito o que fazer no meio disso tudo.
Eduard detestava viver ali. Passava o dia enfurnado nos estudos, tentando - mas no conseguindo relacionar-se com os colegas de classe. Procurando mas no encontrando - uma maneira de interessar-se por carros, tnis da moda, roupas de marca, nicos temas de conversa entre os jovens.
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Uma vez por outra havia uma festa, onde os rapazes ficavam bbados de um lado do salo, e as moas fingiam indiferena do outro lado. A droga corria sempre, e Eduard j experimentara praticamente todas as variedades possveis, sem jamais conseguir interessar-se por nenhuma delas; ficava agitado ou sonolento demais, e perdia o interesse pelo que estava acontecendo a sua volta.
Sua famlia vivia preocupada. Era necessrio prepar-lo para seguir a mesma carreira do pai, e embora Eduard tivesse quase todos os talentos necessrios vontade de estudar, bom gosto artstico, facilidade em aprender lnguas, interesse por poltica - faltava-Ihe uma qualidade bsica na diplomacia. Tinha dificuldades no contato com os outros.
Por mais que seus pais o levassem a festas, abrissem a casa para os seus amigos do colgio americano, e mantivessem uma boa mesada, eram raras as vezes que Eduard aparecia com algum. Um dia sua me lhe perguntou por que no trazia seus amigos para almoar ou jantar.
- J sei todas as marcas de tnis, j conheo 0 nome de todas as meninas com quem  fcil fazer amor. No temos mais nada de interessante para conversar.
At que apareceu a brasileira. O embaixador e sua mulher ficaram mais tranqilos quando o filho comeou a sair, voltando tarde para casa. Ningum sabia exatamente como ela tinha surgido, mas certa noite Eduard a levou para jantar em casa. A menina era educada, e eles ficaram contentes; o garoto finalmente
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ia desenvolver seu talento na relao com estranhos. Alm disso, ambos pensaram - mas no comentaram entre si - que a presena daquela garota tirava uma grande preocupao de seus ombros: Eduard no era homossexual!
Trataram Maria (este era seu nome) com a gentileza de futuros sogros, mesmo sabendo que em dois anos seriam transferidos para outro posto, e no tinham a menor inteno que seu filho casasse com algum de um pas to extico. Tinham planos para que seu filho encontrasse uma moa de boa famlia na Frana, ou na Alemanha, que pudesse acompanhar com dignidade a brilhante carreira diplomtica que o embaixador estava preparando para ele.
Eduard, porm, mostrava-se cada vez mais apaixonado. Preocupada, a me foi conversar com o marido.
- A arte da diplomacia consiste em fazer o oponente esperar - disse o embaixador. - Um primeiro amor pode no passar nunca, mas sempre acaba.
Mas Eduard dava sinais de haver mudad por completo. Comeou a aparecer em casa com livros estranhos, montou uma pirmide no seu quarto, e junto com Maria- acendiam incenso todas as noites, ficando horas concentrados num estranho desenho pregado na parede. O rendimento de Eduard na escola americana comeou a cair.
A me no eneendia portugus, mas podia ver a capa dos livros: cruzes, fogueiras, bruxas penduradas, smbolos exticos.
- Nosso filho est lendo coisas perigosas.
- Perigoso  o que est acontecendo nos Balcs - respondeu o embaixador. - H rumores que a
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regio da Eslovnia quer a independncia, e isto pode nos levar a uma guerra.
A me, porm, no dava a menor importncia para poltica; queria saber o que estava acontecendo com seu filho.
- E esta mania de acender incenso?
-  para disfarar o cheiro de marijuana - dizia o embaixador. - Nosso filho teve uma excelente educao, no deve acreditar que estes palitos perfumados possam atrair espritos.
- Meu filho est envolvido em drogas!
Isso passa. Eu tambm j fumei marijuana quando era jovem, e a gente logo enjoa, como eu enjoei. A mulher ficou orgulhosa e tranqila: seu marido
era um homem experiente, tinha entrado no mundo da droga e conseguido sair! Um homem com esta fora de vontade era capaz de controlar qualquer situao.
Um belo dia, Eduard pediu uma bicicleta.
- Voc tem chofer e um Mercedes Benz. Para que uma bicicleta?
- Para o contato com a natureza. Maria e eu vamos fazer uma viagem de dez dias - disse. - H um lugar aqui perto com imensos depsitos de cristal, e Maria garante que eles transmitem boa energia.
A me e o pai tinham sido educados no regime comunista: cristais eram apenas um produto mineral, que obedecia a determinada organizao de tomos, e no emanavam nenhum tipo de energia - fosse ela positiva ou negativa. Pesquisaram, e descobriram que aquelas idias de "vibraes de cristais" comeavam a ficar em moda.
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Se seu filho resolvesse falar sobre o tema numa festa ofical, podia parecer ridculo aos olhos dos outros: pela primeira vez, o embaixador reconheceu que a stuao estava comeando a ficar grave. Braslia era uma cidade que vivia de rumores, e logo saberiam que Eduard estava envolvido com supersties primitivas, seus rivais na embaixada podiam pensar que ele tinha aprendido aquilo com os pais, e a diplomacia - alm de ser a arte de esperar - era tambm a capacidade de manter sempre, em qualquer circunstncia, uma aparnca convencional e protocolar.
- Meu filho, isso no pode continuar assim disse o pai. - Tenho amigos no Mnistrio de Relaes Exteriores da Iugoslvia. Voc ser um brilhante diplomata, e  preciso aprender a encarar o mundo.
Eduard saiu de casa e no voltou aquela noite. Seus pas ligaram para a casa de Maria, para os necrotrios e hospitais da cidade - sem nenhuma notcia. A me perdeu a confiana na capacidade de seu marido lidar com a famlia, embora fosse um excelente negociador com estranhos.
No dia seguinte Eduard apareceu, esfomeado e sonolento. Comeu e foi para o quarto, acendeu seus incensos, rezou seus mantras, dormiu o resto da tarde e da noite. Quando acordou, uma bicicleta novinha em folha o estava esperando.
- V ver os seus cristais - disse a me. - Eu explico para o seu pai.
E assim, naquela tarde de seca e poeira, Eduard dirigia-se alegremente para a casa de Maria. A cidade era to bem desenhada (na opino dos arqutetos) ou
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to mal desenhada (na opinio de Eduard) que quase no havia esquinas. Ele seguia pela direita, numa pista de alta velocidade, olhando o cu cheio de nuvens que no do chuva, quando sentiu que subia em direo a este cu, a uma velocidade imensa - para logo a seguir descer e encontrar-se no asfalto.
PRAC! "
Sofri um acidente."
Quis virar-se, porque seu rosto estava grudado no asfalto, mas viu que no tinha mais controle sobre seu corpo. Ouviu o barulho de carros freando, gente que gritava, algum que se aproximou e tentou toc-lo para logo ouvir um grito de "no mexa nele! Se algum tocar, ele pode ficar aleijado para o resto da vida!".
Os segundos passavam devagar, e Eduard comeou a sentir medo. Ao contrrio dos seus pais, acreditava em Deus, e numa vida alm da morte, mas mesmo assim achava injusto tudo aquilo - morrer com 17 anos, olhando o asfalto, numa terra que no era a sua.
- Voc est bem? - escutava uma voz.
No, no estava bem, no conseguia se mexer, mas tampouco conseguia dizer nada. O pior de tudo  que no perdia a conscincia, sabia exatamente o que estava se passando, e no que se havia metido. Ser que no ia desmaiar? Deus no tinha piedade dele, justamente num momento em que O procurava com tanta intensidade, contra tudo e contra todos?
- J esto vindo os mdicos - sussurrou outra pessoa, pegando sua mo. - No sei se pode me ouvir, mas fique calmo. No  nada grave.
Sim, podia ouvir, gostaria que esta pessoa - um homem - continuasse falando, garantisse que no era nada grave, embora j fosse adulto o bastante para
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entender que sempre dizem isso quando a situao  muito sria. Pensou em Maria, na regio onde havia montanhas de cristais, cheios de energia positiva enquanto Braslia era a maior concentrao de negatividade que conhecera em suas meditaes.
Os segundos se transformaram em minutos, as pessoas continuam tentando consol-lo, e - pela primeira vez desde que tudo acontecera - comeou a sentir dor. Uma dor aguda, que vinha do centro de sua cabea, e parecia se espalhar pelo corpo,inteiro.
- J chegaram - disse o homem que lhe segurava a mo. -Amanh voc vai estar de novo andando de bicicleta.
Mas no dia seguinte Eduard estava num hospital, com as duas pernas e um brao engessados, sem possibilidade de sair dali nos prximos 30 dias, tendo que escutar sua me chorando sem parar, seu pai dando telefonemas nervosos, os mdicos repetindo a cada cinco minutos que as 24 horas mais graves j haviam passado, e no houvera nenhuma leso cerebral.
A famlia ligou para a Embaixada Americana que nunca acreditava nos diagnsticos dos hospitais pblicos, e mantinha um servio de urgncia sofisticadssimo, junto com uma lista de mdicos brasileiros considerados capazes de atender seus prprios diplomatas. Vez por outra, numa poltica de boa vizinhana, usavam estes servios para outras representaes diplomticas.
Os americanos trouxeram seus aparelhos de ltima gerao, fizeram um nmero dez vezes maior de testes e exames novos, e chegaram  concluso que
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sempre chegavam: os mdicos do hospital pblico tinham avaliado corretamente, e tomado as decises certas.
Os mdicos do hospital pblico podiam ser bons mas os programas de TV brasileira eram to ruins como os de qualquer outra parte do mundo, e Eduard tinha pouco o que fazer. Maria aparecia cada vez menos no hospital - talvez tivesse encontrado outro companheiro para ir com ela at as montanhas de cristais.
Contrastando com o estranho comportamento de sua namorada, o embaixador e sua mulher iam diariamente visit-lo, mas recusavam-se a trazer os livros em portugus que ele tinha em casa, alegando que em breve seriam transferidos, e no havia necessidade de aprender uma lngua que nunca mais teria necessidade de usar. Assim sendo, Eduard contentava-se em conversar com outros doentes, discutir futebol com os enfermeiros, e ler uma ou outra revista que Ihe caa em mos.
At que um dia, um dos enfermeiros trouxe-lhe um livro que acabara de ganhar, mas que achava "muito grosso para ser lido". E foi neste momento que a vida de Eduard comeou a coloc-lo num caminho estranho, que o conduziria a Villete,  ausncia da realidade, e ao distanciamento completo das coisas que outros rapazes de sua idade iriam fazer nos anos que se seguiram.
O livro era sobre os visionrios que abalaram o mundo - gente que tinha sua prpria idia do paraso terrestre, e dedicara a sua vida para dividi-la com os
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outros. Ali estava Jesus Cristo, mas tambm estavam Darwin, com sua teoria de que o homem descendia dos macacos; Freud, afirmando que os sonhos tinham importncia; Colombo, empenhando as jias da rainha para procurar um novo continente; Marx, com a idia de que todos mereciam a mesma chance.
E ali estavam santos, como Incio de Loyola, um vasco que dormira com todas as mulheres com quem pudera dormir, matara vrios inimigos num sem nmero de batalhas, at ser ferido em Pamplona, e entender o universo numa cama onde convalescia. Teresa d'vila, que queria de todas as maneiras encontrar o caminho de Deus, e s conseguiu q.uando sem querer passeava por um corredor e parou diante de um quadro. Antonio, um homem cansado da vida que levava, que resolveu exilar-se no deserto e passou a conviver com demnios por dez anos, experimentando todo tipo de tentao. Francisco de Assis, um rapaz como ele, determinado a conversar com os pssaros e a deixar para trs tudo o que os seus pais tinham programado para a sua vida.
Comeou a ler naquela mesma tarde o tal "livro grosso", porque no tinha nada melhor para se distrair. No meio da noite, uma enfermeira entrou, perguntando se precisava de ajuda, j que era o nico quarto ainda com a luz acesa. Eduard dispensou-a com um simples aceno de mo, sem desgrudar os olhos do livro.
Os homens e mulheres que abalaram o mundo. Homens e mulheres comuns, como ele, seu pai, ou a namorada que sabia estar perdendo, cheios das mes
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mas dvidas e inquietaes que todos os seres humanos tinham nos seus cotidianos programados. Gente que no tinha um interesse especial por religio, Deus, expanso de mente ou nova conscincia, at que um dia - bem, um dia tinham decidido mudar tudo. O livro era mais interessante porque contava que, em
, cada uma daquelas vidas, havia um momento mgico
que os fizera partir em busca da sua prpria viso do Paraso.
Gente que no deixou a vida passar em branco, e que, para conseguir o que queria, tinha pedido esmolas ou cortejado reis; rasgado cdigos ou enfrentado a ira dos poderosos da poca; usado diplomacia ou fora
, mas nunca desistindo, sempre sendo capaz de vencer cada dificuldade que se apresentava como uma vanta
gem. No dia seguinte, Eduard entregou seu relgio de
ouro para o enfermeiro que Ihe dera o livro, pediu que o vendesse, e que comprasse todos os livros sobre o tema. No havia mais nenhum. Tentou ler a biografia de algum deles, mas sempre descreviam o homem ou a mulher como se fosse um escolhido, um inspirado - e no uma pessoa comum, que devia lutar como qualquer outra para afirmar o que pensava.
Eduard ficou to impressionado com o que lera, que considerou seriamente a possibilidade de tornar-se um santo, aproveitando o acidente para mudar sua vida de rumo. Mas estava com as pernas quebradas, no tivera nenhuma viso no hospital, no passara diante de um quadro que lhe sacudira a alma, no tinha amigos para construir uma capela no interior do planalto brasileiro, e os desertos estavam muito longe, cheios de problemas polticos. Mas ainda assim, podia
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fazer algo: aprender pintura, e tentar mostrar ao mundo as vises que aqueles homens e mulheres tiveram.
Quando tiraram o gesso, e voltou para a Embaixada - cercado de cuidados, mimos, e todo tipo de ateno que um filho de embaixador recebe dos outros diplomatas, pediu a sua me que o inscrevesse num curso de pintura.
A me disse que ele j tinha perdido muitas aulas no Colgio Americano, e que era hora de recuperar o tempo perdido. Eduard recusou-se: no tinha a menor vontade de continuar aprendendo geografia e ciencias.
Queria ser pintor. Num momento de distrao, explicou o motivo:
- Preciso pintar as vises do Paraso.
A me no disse nada, e prometeu conversar com suas amigas, para ver qual o melhor curso de pintura da cidade.
Quando o embaixador voltou do trabalho, aquela tarde, encontrou-a chorando em seu quarto.
- Nosso filho est louco - dizia, com as lgrimas correndo. - O acidente afetou o seu crebro. - Impossvel! - respondeu, indignado, o em
baixador. - Os mdicos, indicados pelos americanos,
o exammaram.
A mulher contou o que ouvira.
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-  rebeldia normal da juventude. Espere e ver que tudo volta ao normal.
Desta vez, a espera no resultou em nada, porque Eduard tinha pressa em comear a viver. Dois dias depois, cansado de aguardar uma deciso das amigas de sua me, resolveu matricular-se num curso de pintura. Comeou a aprender a escala de cores e perspectiva, mas comeou tambm a conviver com gente que nunca falava de marca de tnis ou modelos de carro.
	- Ele est convivendo com artistas! - dizia a
	me, chorosa, ao embaixador.
- Deixe o menino - rspondia o embaixador. - Vai enjoar logo, como enjoou da namorada, dos cristais, das pirmides, do incenso, da marijuana.
Mas o tempo passava, o quarto de Eduard se transformava num ateli improvisado, com pinturas que no faziam o menor sentido para seus pais: eram crculos, combinaes exticas de cores, smbolos primitivos misturados com gente em posio de prece.
Eduard, o antigo rapaz solitrio que em dois anos de Braslia nunca aparecera em casa com amigos, agora enchia sua casa com pessoas estranhas, todos eles mal vestidos, com cabelos desarrumados, escutando discos horrveis em volume mximo, bebendo e fumando sem qualquer limite, demonstrando total ignorncia dos protocolos de bom comportamento. Certo dia, a diretora do Colgio Americano chamou a embaixatriz para uma conversa.
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- Seu filho deve estar envolvido em drogas disse. - O rendimento escolar dele est abaixo do normal, e se continuar assim no poderemos renovar sua matrcula.
A mulher foi direto para o escritrio do embaixador, e contou  que acabara de ouvir.
- Voc vive dizendo que o tempo ia fazer tudo voltar ao normal! - gritava, histrica. - Seu filho drogado, louco, com algum problema cerebral gravssimo, enquanto voc se preocupa com coquetis e reunies sociais!
- Fale baixo - pediu ele.
- No falo mais baixo, nunca mais na vida, enquanto voc no tomar uma atitude! Este menino precisa de ajuda, est entendendo? Ajuda mdica! V e faa alguma coisa.
Preocupado com que o escndalo de sua mulher pudesse prejudic-lo junto aos seus funcionrios, e j desconfiado que o interesse de Eduard pela pintura estava durando mais tempo do que o esperado, o embaixador- um homem prtico, que sabia todos os procedimentos corretos - estabeleceu uma estratgia de ataque ao problema.
Primeiro, telefonou para o seu colega, o embaixador americano, e pediu a gentileza de permitir o uso dos aparelhos de exame da Embaixada. O pedido foi aceito.
Procurou de novo os mdicos credenciados, explicou a situao e solicitou que fosse feita uma reviso de todos os exames da poca. Os mdicos, temerosos que aquilo pudesse lhes render um processo, fizeram exatamente o que lhes foi pedido - e concluram que os exames no apresentavam nada de anormal. Antes
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do embaixador sair, exigiram que firmasse um documento, dizendo que, a partir daquela data, eximia a Embaixada Americana da responsabilidade de ter indicado seus nomes.
Em seguida, o embaixador foi ao hospital onde Eduard estivera internado. Conversou com o diretor, explicou o problema do filho, e solicitou que - a pretexto de um check-up de rotina - fizessem um exame de sangue para detectar a presena de drogas no organismo do rapaz.
Assim foi feito. E nenhuma droga foi encontrada.
Restava a terceira e ltima etapa da estratgia: conversar com o prprio Eduard, e saber o que estava acontecendo. S de posse de todas as informaes, poderia tomar uma deciso que Ihe parecesse correta.
Pai e filho sentaram-se na sala de estar.
- Voc tem preocupado sua me - disse o embaixador. - Suas notas diminuram, e h risco de que sua matrlcula no seja renovada.
- Minhas notas no curso de pintura aumentaram, meu pai.
- Acho muito gratificante seu interesse pela arte, mas voc tem uma vida pela frente para fazer isto. No momento,  preciso terminar o curso secundrio, para que eu possa encaminh-lo na carreira diplomtica.
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Eduard pensou muito antes de dizer qualquer coisa. Reviu o acidente, o livro sobre os visionrios que afinal fora apenas um pretexto para encontrar sua verdadeira vocao - pensou em Maria, de quem nunca mais havia escutado falar. Hesitou muito, mas afinal respondeu.
- Papai, eu no quero ser diplomata. Eu quero ser pintor.
O pai j estava preparado para esta resposta, e sabia como contorn-la.
- Voc ser pintor, mas antes termine seus estudos. Arranjaremos exposies em Belgrado, Zagreb, Lubljana, Sarajevo. Com a influncia que tenho, posso ajud-lo muito, mas preciso que termine seus estudos.
- Se eu fizer isso, vou escolher o caminho mais fcil, papai. Vou entrar para qualquer faculdade, me formar em algo que no me interessa, mas que me dar dinheiro. Ento a pintura ficar para segundo plano e eu terminarei esquecendo minha vocao. Preciso aprender a ganhar dinheiro com pintura.
O embaixador comeou a irritar-se.
- Voc tem tudo, meu filho: uma famlia que o ama, casa, dinheiro, posio social. Mas voc sabe, nosso pas est vivendo um perodo complicado, h rumores de guerra civil; pode ser que amanh eu j no esteja mais aqui para ajud-lo.
- Eu saberei me ajudar, meu pai. Confie em mim. Um dia eu pintarei uma srie chamada "As Vises do Paraso". Ser a histria visual daquilo que homens e mulheres apenas experimentaram em seus coraes.
O embaixador elogiou a determinao do filho, terminou a conversa com um sorriso, e resolveu dar mais um ms de prazo - afinal, a diplomacia  a arte
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de adiar as decises at que elas se resolvam por si mesmas.
Um ms passou. E Eduard continuou dedicando todo seu tempo  pintura, aos amigos estranhos, s msicas que deviam provocar algum desequilbrio psicolgico. Para agravar o quadro, tinha sido expulso do Colgio Americano, por discutir com a professora sobre a existncia de santos.
Numa ltima tentativa, j que no dava mais para adiar qualquer deciso, o embaixador tornou a chamar o filho para uma conversa entre homens.
- Eduard, voc j est em idade de assumir a responsabilidade de sua vida. Ns agentamos enquanto foi possvel, mas  hora de acabar com esta tolice de querer ser pintor, e dar um rumo  sua carreira.
- Meu pai, ser pintor  dar um rumo  minha carreira.
- Voc est ignorando o nosso amor, os nossos esforos para dar-Ihe uma boa educao. Como voc nunca foi assim, s posso atribuir o que est acontecendo a uma conseqncia do acidente.
- Entenda que eu amo vocs mais do que qualquer outra pessoa ou coisa em minha vida.
O embaixador pigarreou. No estava acostumado a manifestaes to diretas de carinho.
- Ento, em nome do amor que voc tem por ns, por favor, faa o que sua me deseja. Deixe por
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de adiar as decises at que elas se resolvam por si mesmas.
Um ms passou. E Eduard continuou dedicando todo seu tempo  pintura, aos amigos estranhos, s msicas que deviam provocar algum desequilbrio psicolgico. Para agravar o quadro, tinha sido expulso do Colgio Americano, por discutir com a professora sobre a existncia de santos.
Numa ltima tentativa, j que no dava mais para adiar qualquer deciso, o embaixador tornou a chamar o filho para uma conversa entre homens.
- Eduard, voc j est em idade de assumir a responsabilidade de sua vida. Ns agentamos enquanto foi possvel, mas  hora de acabar com esta tolice de querer ser pintor, e dar um rumo  sua carreira.
- Meu pai, ser pintor  dar um rumo  minha
carreira.
- Voc est ignorando o nosso amor, os nossos esforos para dar-Ihe uma boa educao. Como voc nunca foi assim, s posso atribuir o que est acontecendo a uma conseqncia do acidente.
- Entenda que eu amo vocs mais do que qualquer outra pessoa ou coisa em minha vida.
O embaixador pigarreou. No estava acostumado a manifestaes to diretas de carinho.
- Ento, em nome do amor que voc tem por ns, por favor, faa o que sua me deseja. Deixe por
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algum tempo esta histria de pintura, arranje amigos que pertenam ao seu nvel social, e volte aos estudos.
- Voc me ama, meu pai. No pode me pedir isso, porque sempre me deu um bom exemplo, lutando pelas coisas que queria. No pode querer que eu seja um homem sem vontade prpria.
- Eu disse: em nome do amor. E eu nunca disse isso antes, meu filho, mas estou pedindo agora. Pelo amor que voc tem a ns, pelo amor que ns temos a voc, volte ao lar - no apenas no sentido fsico, mas no sentido real. Voc est se enganando, fugindo da realidade.
"Desde que voc nasceu, ns alimentamos os maiores sonhos de nossas vidas. Voc  tudo para ns: o nosso futuro e o nosso passado. Seus avs eram funcionrios pblicos, e eu precisei lutar como um touro para entrar e crescer nesta carreira diplomtica. Tudo isto apenas para abrir espao para voc, tornar as coisas mais fceis. Tenho ainda a caneta com que assinei o meu primeiro documento como embaixador, e guardei-a com todo carinho, para passar a voc no dia em que fizer o mesmo.
"No nos desaponte, meu filho. Ns no vamos viver muito, queremos morrer tranqilos, sabendo que voc foi bem encaminhado na vida.
"Se voc nos ama realmente, faa o que estou pedindo. Se voc no nos ama, continue com seu compor"
tamento.
Eduard ficou muitas horas olhando o cu de Braslia, vendo as nuvens que passeavam pelo azul belas, mas sem uma gota de chuva para derramar na
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	terra seca do planalto central brasileiro. Estava vazio
	como elas.
Se continuasse com sua escolha, sua me terminaria definhando de sofrimento, seu pai ia perder o entusiasmo pela carreira, ambos iam se culpar por falharem na educao do filho querido. Se desistisse da pintura, as vises do Paraso nunca veriam a luz do dia, e nada mais neste mundo seria capaz de lhe dar entusiasmo e prazer.
Olhou a sua volta, viu seus quadros, relembrou o amor e o sentido de cada pincelada, e achou-os todos medocres. Ele era uma fraude; estava querendo ser uma coisa para a qual nunca tinha sido escolhido, e cujo preo seria a decepo de seus pais.
As vises do Paraso eram para os homens eleitos, que apareciam nos livros como heris e mrtires da f no que acreditavam. Gente que j sabia desde criana que o mundo precisava deles - o que estava escrito no livro era inveno de romancista.
Na hora do jantar, disse aos seus pais que eles tinham razo: aquilo era sonho de juventude, e seu entusiasmo pela pintura tambm j havia passado. Os pais ficaram contentes, a me chorou de alegria e abraou o filho; tudo havia voltado ao normal.
De noite, o embaixador comemorou secretamente sua vitria, abrindo uma garrafa de champanhe que bebeu sozinho. Quando foi para o quarto, sua mulher - pela primeira vez em muitos meses - j estava dormindo, tranqila.
No dia seguinte, encontraram o quarto de Eduard destrudo, as pinturas destroadas por um objeto cortante, e o rapaz sentado num canto, olhando o cu. A
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me abraou-o, disse quanto o amava, mas Eduard no respondeu.
No queria mais saber de amor: estava farto desta histria. Pensava que podia desistir e seguir os conselhos do pai, mas tinha ido longe demais no seu trabalho - atravessara o abismo que separa um homem do seu sonho, e agora no podia mais voltar.
No podia ir nem para frente, nem para trs. Ento, era mais simples sair de cena.
Eduard ainda ficou mais cinco meses no Brasil, sendo cuidado por especialistas, que diagnosticaram um tipo raro de esquizofrenia, talvez resultante de um acidente de bicicleta. Logo a guerra civil na Iugoslama estourou, o embaixador foi chamado s pressas, os problemas se acumularam demais para que a famlia pudesse cuidar dele, e a nica sada fora deix-lo no recm-aberto sanatrio de Villete.
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uando Eduard acabou de contar a sua histria j era noite, e os dois tremiam de frio.
- Vamos entrar - disse ele. - J esto servindo o jantar.
- Na minha infncia, sempre que ia visitar minha av, ficava contemplando um quadro em sua parede. Era uma mulher - Nossa Senhora, como dizem os catlicos - em cima do mundo, com as mos abertas para a Terra, de onde desciam raios.
"O que mais me intrigava neste quadro  que aquela senhora estava pisando uma serpente viva. Ento eu perguntei a minha av: `ela no tem medo da serpnte? No acha que vai morder-Ihe o p, e mat-la com seu veneno?'
"Minha av disse: a serpente trouxe o Bem e o Mal  Terra, como diz a Bblia. E ela controla o Bem e o Mal com seu amor."
- O que isso tem a ver com a minha histria? - Como eu o conheci h uma semana, seria muito cedo para dizer: eu te amo. Como no devo passar desta noite, seria tambm muito tarde para dizer-Ihe isso. Mas a grande loucura do homem e da mulher  exatamente esta: o amor.
"Voc me contou uma histria de amor. Acredito que, sinceramente, os seus pais queriam o melhor para
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voc e foi este amor que quase destruiu sua vida. Se a Senhora, no quadro da minha av, estava pisando a serpente, isto significava que este amor tinha duas faces."
- Entendo o que voc est falando - disse Eduard. - Eu provoquei o choque eltrico, porque voc me deixa confuso. No sei o que sinto, e o amor j me destruiu uma vez.
- No tenha medo. Hoje, eu tinha pedido ao Dr. Igor para sair daqui, escolher o lugar onde queria fechar meus olhos para sempre. Entretanto, quando 0 vi sendo agarrado pelos enfermeiros, entendi qual a imagem que eu queria estar contemplando quando partisse deste mundo: o seu rosto. E decid que no ia mais embora.
"Enquanto voc estava dormindo pelo efeito do choque, eu tive mais um ataque, e achei que havia chegado a minha hora. Olhei seu rosto, tentei adivinhar sua histria, e me preparei para morrer feliz. Mas a morte no veio - meu corao agentou mais uma vez, talvez porque eu seja jovem.
Ele abaxou a cabea.
- No se envergonhe de ser amado. No estou pedindo nada, apenas que me deixe gostar de voc, tocar piano mais uma noite - se ainda tiver foras para isso.
"Em troca, s lhe peo uma coisa: se voc ouvir algum dizendo que estou morrendo, v at a enfermaria. Deixe-me realizar meu desejo."
Eduard ficou em silncio por um longo tempo, e Veronika achou que ele havia retornado ao seu mundo, para no voltar to cedo.
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Finalmente, olhou as montanhas alm dos muros de Villete, e disse:
- Se voc quiser sair, eu a levo l para fora. D-me apenas tempo de pegar os casacos e algum dinheiro. Em seguida, ns dois vamos embora.
- No vai durar muito, Eduard. Voc sabe disso. Eduard no respondeu. Entrou e voltou em seguida com os casacos.
- Vai durar uma eternidade, Veronika. Mais do que todos os dias e noites iguais que passei aqui, tentando sempre esquecer as vises do Paraso. Quase as esqueci, mas parece que esto voltando.
" Vamos embora. Loucos fazem loucuras.
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aquela noite, quando se reuniram para jantar, os internos sentiram falta de quatro pessoas. Zedka, que todos sabiam ter sido liberada aps
um longo tratamento. Mari, que devia ter ido ao cinema, como costumava fazer com freqncia. Eduard, que talvez anda no tvesse se recuperado do eletrochoque - e ao pensar nisso, todos os internos ficaram com medo, e iniciaram a refeio em silncio.
Finalmente, faltava a moa de olhos verdes e cabelos castanhos. Aquela que todos sabiam que no devia chegar viva at o final da semana.
Ningum falava abertamente de morte em Villete. Mas as ausncias eram notadas, emora todos procurassem se comportar como se nada tivesse acontecido.
Um boato comeou a correr de mesa em mesa. Alguns choraram, porque ela era cheia de vida, e agora devia estar no pequeno necrotrio que ficava na parte de trs do sanatrio. S mesmo os mais ousados costumavam passar por aIi - mesmo assim durante o dia, com a 1uz iluminando tudo. Havia trs mesas de mrmore, e geralmente uma delas estava sempre com um novo corpo, coberto por um lenol.
Todos sabiam que esta noite Veronika estava l. Os que eram realmente insanos logo esqueceram que
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- durante aquela semana - o sanatrio tivera mais um hspede, que s vezes perturbava o sono de todo mundo com o piano. Alguns poucos, enquanto a notcia corria, sentiram uma certa tristeza, principalmente as enfermeiras que estiveram com Veronika durante as suas noites na UTI; mas os funcionrios tinham sido treinados para no criar laos muito fortes com os doentes, j que uns saam, outros morriam, e a grande maioria ia piorando cada vez mais. A tristeza desses durou um pouco mais, e logo tambm passou.
A grande maioria dos internos, porm, soube da notcia, fingiu espanto, tristeza, mas ficou aliviada. Porque, mais uma vez, o Anjo Exterminador havia passado por Villete, e eles tinham sido poupados.
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uando a Fraternidade se reuniu aps o jantar, um membro do grupo deu o recado; Mari no tinha
ido o cinema- partira para no voltar mais, e deixara um bilhete com ele.
Nngum pareceu dar muita mportncia: ela sempre parecera diferente, louca demais, incapaz de adaptar-se  situao ideal em que todos ali viviam.
- Mari nunca entendeu como somos felizes disse um deles. - Temos amigos com afinidades comuns, seguimos uma rotina, de vez em quando samos juntos para um programa, convidamos conferencistas para falar de assuntos importantes, debatemos suas idias. Nossa vida chegou ao perfeito equilbrio, coisa que tanta gente l fora adoraria ter.
- Sem contar o fato de que, em Villete, estamos protegidos contra o desemprego, as conseqncias da guerra na Bsnia, os problemas econmicos, a violncia - comentou outro. - Encontramos a harmonia.
- Mari me confiou um bilhete - disse aquele que tinha dado a notcia, mostrando um envelope fechado. - Pediu que o lesse em voz alta, como se quisesse se despedir de todos ns.
zo
O mais velho de todos abriu o envelope e fez o que Mari pedira. Quis parar no meio, mas j era tarde demais, e foi at o final.
"Quando eu ainda era jovem e advogada, li certa vez um poeta ingls, e uma frase dele me marcou muito: `seja como a fonte que transborda, e no como o tanque, que sempre contm a mesma gua'. Sempre achei que ele estava errado: era perigoso rransbordar, porque podemos terminar inundando reas onde vivem pessoas queridas, e afog-las com nosso amor e nosso entusiasmo. Ento, procurei me comportar a vida inteira como um tanque, nunca indo alm dos limites das minhas paredes interiores.
"Acontece que, por alguma razo que nunca entenderei, tive a Sndrome do Pnico. Transformei-me exatamentenaquilo quelutara tanto para evitar: numa fonte que transbordou e inundou tudo ao meu redor. O resultado disso foi a internao em Villete.
"Depois de curada, voltei para o tanque, e conheci vocs. Obrigada pela amizade, pelo carinho, e por tantos momentos felizes. Vivemos juntos como peixes num aqurio, felizes porque algum jogava comida na hora certa, e ns podamos, sempre que desejvamos, ver o mundo do lado de fora, atravs do vidro.
"Mas ontem, por causa de um piano e de uma mulher que deve j estar morta hoje, eu descobri algo muito importante: a vida aqui dentro era exatamente igual  vida l fora. Tanto l como aqui, as pessoas se renem em grupos, criam suas muralhas, e no deixam que nada de estranho possa perturbar suas medocres existncias. Fazem coisas porque esto acostumadas a
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fazer, esrudam assuntos inteis, divertem-se porque so obrigadas a se divertirem, e que o resto do mundo se dane, se resolva porsi mesmo. No mximo, assistem - como ns assisrimos rantas vezes junros - o noticirio da televiso, s para terem certeza do quanto so felizes, num mundo cheio de problemas e injustias.
"Ou seja: a vida da Fraternidade  exatamente igual  vida de quase todo mundo l Fora - rodos evitando saber o que se enconrra alm das paredes de vidro do aquro. Durante muito tempo isso foi reconfortante e til. Mas a gente muda, e agora eu estou em busca de avenrura - mesmo j tendo 65 anos, e sabendo as muitas limitaes que esra dade me traz. V'ou para a Bsnia: h gente que me espera ali, embora ainda no me conhea, e eu rampouco as conheo. Mas sei que sou til, e que o risco de uma aventura vale mil dias de bem-estar e conforto. "
Quando acabou a leitura do bilhete, os membros da Fraternidade saram para os seus quartos e enfermarias, dizendo a si mesmos que ela tinha definitivamente enlouquecido.
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duard e Veronika escolheram o restaurante mais  caro de Lubljana, pediram os melhores ratos, em
p briagaram-se com trs garrafas de vinho da safra de 88, uma das melhores do sculo. Durante o jantar no tocaram uma s vez em Villete, no passado, no futuro.
- Gostei da histria da serpente - dizia ele, tornando a encher o copo pela milsima vez. - Mas sua av era muito velha, no sabia interpretar a histria.
- Respeite minha av! - gritava Veronika, j bbada, fazendo com que todos no restaurante se virassem.
- Um brinde  av desta moa! - disse Eduard, levantando-se. - Um brinde  av desta louca aqui na minha frente, que deve ter fugido de Villete!
As pessoas voltaram a prestar ateno nos seus pratos, fingindo que nada daquilo estava acontecendo. - Um brinde  minha av! - insistiu Veronika. O dono do restaurante veio at a mesa.
- Por favor, comportem-se.
Eles ficaram mais calmos por alguns instantes, mas logo voltaram a falar alto, dizer coisas sem sentido, agir de maneira inconveniente. O dono do restaurante tornou a voltar  mesa, disse que no precisavam pagar a conta, mas que tinham que sair naquele minuto.
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- Vamos economizar o dinheiro gasto com estes vinhos carssimos! - brindou Eduard. -  hora de sair daqui, antes que este homem mude de idia!
Mas o homem no ia mudar de dia. J estava puxando a cadeira de Veronika, num gesto aparentemente corts, cujo verdadeiro sentido era ajud-la a levantar-se o mais rpido possvel.
Foram para o meio da pequena praa, no centro da cidade. Veronika olhou seu quarto do convento, e a embriaguez passou por um instante. Tornou a lembrar-se que ia morrer logo.
- Compre mais vinho! - pediu a Eduard. Hava um bar al perto. Eduard trouxe duas garrafas, os dois sentaram, e continuaram a beber.
- O que h de errado com a interpretao da minha av? - disse Veronika.
Eduard estava to bbado, que foi precso um grande esforo para lembrar-se do que dissera no restaurante. Mas conseguiu.
- Sua av disse que a mulher estava pisando aquela cobra porque o amor tem que dominar o Bem e o Mal.  uma bonita e romntica interpretao, mas no  nada disso: porque eu j vi esta imagem, ela  uma das vises do Paraso que eu imaginava pintar. Eu j tinha me perguntado por que sempre retratavam a Virgem desta maneira.
- Por qu?
- Porque a Virgem, a energia feminina,  a grande domnadora da serpente, que sgnfica sabedoria. Se voc reparar no anel de mdico do Dr. Igor
, ver que ele tem o smbolo dos mdicos: duas serpentes
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enroladas num basto. O amor est acima da sabedoria, como a Virgem est sobre a serpente. Para ela, tudo  Inspirao. Ela no fica julgando o bem e o mal.
- Sabe mais o qu? - disse Veronika. - A Virgem nunca ligou para o que os outros estavam pensando. Imagine, ter que explicar a todo mundo a histria do Esprito Santo! Ela no explicou nada, s disse: "aconteceu assim". Sabe o que os outros devem ter dito?
- Claro que sei. Que ela estava louca! Os dois riram. Veronika levantou o copo.
- Parabns. Voc devia pintar estas vises do Paraso, ao invs de ficar falando.
- Comearei por voc - respondeu Eduard.
'" Ao lado da pequena praa, existe um pequeno monte. Em cima do pequeno monte, existe um pequeno castelo. Veronika e Eduard subiram o caminho inclinado, blasfemando e rindo, escorregando no gelo e reclamando do cansao.
Ao lado do castelo, existe uma grua gigantesca, amarela. Para quem vai a Lubljana pela primeira vez, aquela grua d a impresso de que esto reformando 0 castelo, e que em breve ele ser completamente restaurado. Os habitantes de Lubljana, porm, sabem que a grua est ali h muitos anos - embora ningum saiba a verdadeira razo. Veronika contou a Eduard que, quando se pede s crianas do jardim de infncia para desenhar o castelo de Lubljana, elas sempre inclmam a grua no desenho.
-Alis, a grua est sempre mais bem conservada que o castelo.
Eduard riu.
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- Voc devia estar morta - comentou, ainda sob o efeito do lcool, mas com a voz mostrando um certo medo. - Seu corao no devia ter agentado esta subida.
Veronika deu-lhe um demorado beijo.
- Olhe bem para o meu rosto - disse ela. Guarde-o com os olhos de sua alma, para que possa reproduzi-lo um dia. Se quiser, comece por ele, mas volte a pintar. Este  o meu ltimo pedido. Voce acredita em Deus?
- Acredito.
- Ento voc vai jurar, pelo Deus em que voc acredita, que ir me pintar.
- Eu juro.
- E que, depois de me pintar, ir continuar pintando.
- No sei se posso jurar isso.
- Pode. E vou lhe dizer mais: obrigada por ter dado um sentido a minha vida. Eu vim a este mundo para passar por tudo que passei, tentar suicdio, des
, truir meu corao, encontrar voc, subir a este castelo
e deixar que voc gravasse meu rosto em sua alma. Esta  a nica razo pela qual eu vim ao mundo; fazer com que voc retornasse ao caminho que interrompeu. No faa com que eu sinta que minha vida foi intil.
- Talvez seja cedo demais ou tarde demais, porm, da mesma maneira que voc fez comigo, eu quero dizer: te amo. No precisa acreditar, talvez seja uma bobagem, uma fantasia minha.
Veronika abraou-se a Eduard, e pediu ao Deus, em que ela no acreditava, que a levasse naquele momento. Fechou os olhos, sentiu que ele tambm fazia o
mesmo. E o sono veio, profundo, sem sonhos. A morte era doce, cheirava a vinho, e acariciava seus cabelos.
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Eduard sentiu que algum Ihe cutucava no ombro. Quando abriu os olhos, o dia comeava a amanhecer.
- Vocs podem ir para o abrigo da prefeitura disse o guarda. - Vo congelar, se continuarem aqui. Em uma frao de segundo, ele lembrou-se de
tudo que tinha se passado na noite anterior. Nos seus braos estava uma mulher encolhida.
- Ela... ela est morta.
Mas a mulher se mexeu, e abriu os olhos.
- O que est havendo? - perguntou Veronika. - Nada - respondeu Eduard, levantando-a. Ou melhor, um milagre: mais um dia de vida.
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ssim que o Dr. Igor entrou no consultrio e acen deu a luz - o dia continuava a amanhecer tarde, aquele inverno estava durando alm do necessrio um enfermeiro bateu a sua porta.
"Comeou cedo hoje", disse ele.
Ia ser um dia complicado, por causa da conversa com a garota. Preparara-se para isso durante toda a semana, e na noite anterior mal conseguira dormir.
- Tenho notcias alarmantes - disse o enfermeiro. - Dois dos internos desapareceram: o filho do embaixador, e a menina com problemas do corao.
- Vocs so uns incompetentes. A segurana deste hospital sempre deixou muito a desejar.
-  que ningum tentou fugir antes - respondeu o enfermeiro, assustado. - No sabamos que era possvel.
- Saia daqui! Tenho que preparar um relatrio para os donos, notificar a polcia, tomar uma srie de providncias. E diga que no posso mais ser interrompido, porque estas coisas levam horas!
O enfermeiro saiu, plido, sabendo que parte daquele grande~problema terminaria caindo nos seus ombros, porque  assim que os'poderosos agem com
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os mais fracos. Com toda certeza, estaria despedido antes que o dia terminasse.
		O Dr. Igor pegou um bloco, colocou em cima da
		mesa, e ia comear suas anotaes, quando resolveu
		mudar de idia.
	,.:.
			Apagou a luz, deixou-se ficar no escritrio preca-
	i	riamente iluminado pelo sol que ainda estava nascen-
		do, e sorriu. Tinha conseguido.
			Daqui a pouco tomaria as notas necessrias, rela-
		tando a nica cura conhecida para o Vitrolo: a cons-
		cincia da vida. E dizendo qual o medicamento que
		empregara em seu primeiro grande teste com os pa-
		cientes: a conscincia da morte.
			Talvez existissem outros medicamentos, mas o
		Dr. Igor decidira concentrar sua tese no nico que
		tivera oportunidade de experimentar cientificamente,
		graas a uma menina que entrara - sem querer - em
		seu destino. Viera num estado gravssimo, com into-
		xicao sria, e incio de coma. Ficara entre a vida e a
		morte por quase uma semana, tempo necessrio para
		que ele tivesse a brilhante idia do seu experimento.
			Tudo dependia de apenas uma coisa: da capaci-
		dade da menina sobreviver.
			E ela conseguira.
			Sem nenhuma conseqncia sria, ou problema
		irreversvel; se cuidasse de sua sade, poderia viver
		tanto ou mais que ele.
Mas Dr. Igor era o nico que sabia disso, como sabia tambm que os suicidas frustrados tendem a
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repetir seu gesto mais cedo ou mais tarde. Por que no utiliz-la como cobaia, para ver se conseguia eliminar o Vitrolo - ou Amargura - do seu organismo?
E o Dr. Igor concebera seu plano.
, Aplicando um remdio conhecido como Fenotal
conseguira simular os efeitos dos ataques de corao. Durante uma semana, ela recebera injees da droga, e dvia ter ficado muito assustada - porque tinha tempo de pensar na morte, e de rever sua prpria vida. Desta maneira, conforme a tese do Dr. Igor ("A conscincia da morte nos anima a viver mais", seria o ttulo do captulo final do seu trabalho), a menina passou a eliminar o Vitrolo de seu organismo, e possivelmente no repetiria seu ato.
Hoje iria encontrar-se com ela, e dizer que, graas s injees, tinha conseguido reverter totalmente o quadro dos ataques cardacos. A fuga de Veronika Ihe poupara a desagradvel experincia de mentir mais uma vez.
O que Dr. Igor no contava era com o efeito contagiante de uma cura por envenenamento de Vitrolo. Muita gente em Villete ficara assustada com a conscincia da morte lenta e irreparvel. Todos deviam estar pensando no que estavam perdendo, sendo forados a reavaliar suas prprias vidas.
Mari viera pedir alta. Outros doentes estavam pedindo a reviso dos seus casos. A situao do filho do embaixador era mais preocupante, porque ele simplesmente desaparecera - na certa tentando ajudar Veronika a fugir.
"Talvez ainda estejam juntos", pensou.
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De qualquer maneira, o filho do embaixador sabia o endereo de Villete, se quisesse voltar. Dr. Igor estava entusiasmado demais com os resultados, para ficar prestando ateno a coisas pequenas.
Por alguns instantes, teve outra dvida: cedo ou tarde, Veronika se daria conta de que no ia morrer do corao. Na certa, procuraria um especialista, e este Ihe diria que tudo em seu organismo estava perfeitamente normal. Neste momento, ela acharia que o mdico que cuidou dela em Villete era um incompetente total. Mas todos os homens que ousam pesquisar assuntos proibidos precisam de uma certa coragem, e uma dose de incompreenso.
Mas, e durante os muitos dias que ela teria que viver com o medo da morte iminente?
Dr. Igor ponderou longamente os argumentos, e decidiu: no era nada grave. Ela ia considerar cada dia um milagre - o que no deixa de ser, em se considerando todas as probabilidades de que ocorram coisas inesperadas em cada segundo de nossa frgil existncia.
Reparou que os raios de sol j estavam se tornando mais fortes, o que significava que os internos, a esta hora, deviam estar tomando caf da manh. Em breve sua ante-sala estaria cheia, os problemas rotineiros voltariam, e era melhor comear a tomar logo as notas de sua tese.
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Meticulosamente, comeou a escrever o experimento de Veronika; deixaria para preencher mais tarde os relatrios sobre a falta de condies de segurana do prdio.
Dia de Santa Bernadette, 1998
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